A Queda de Londres

Família real do Catar já tem mais imóveis privados na capital britânica do que o rei Charles

Durante séculos, a monarquia britânica funcionou como a vitrine política, militar e simbólica de um império poderoso. Londres era o centro financeiro, diplomático e naval de uma potência que moldava fronteiras, guerras e mercados. Hoje, no entanto, a capital dessa antiga força mundial oferece uma imagem quase invertida. Enquanto a própria família real atravessa um período de desgaste público, escândalos e perda de prestígio, parte dos seus bens mais valiosos está nas mãos de dinastias estrangeiras.

O retrato mais eloquente dessa virada vem do mercado imobiliário. Reportagens publicadas em 2025 mostram que a Casa de Al Thani, família governante do Catar, é dona de mais propriedade privada em Londres do que o próprio Rei Charles III.

Com forte presença em áreas nobres, a família real árabe domina cerca de 167 mil metros quadrados de imóveis na capital, avaliados em aproximadamente £2,4 bilhões. No bairro de Mayfair, a concentração de imóveis é tamanha que parte da região foi apelidada de “Pequena Doha”, em referência à capital do Catar. Além disso, os Al Thani têm participação ou controle sobre ativos como a Harrods, o The Shard, hotéis de luxo como Claridge’s, The Connaught e The Berkeley, e o Canary Wharf.

Mas como essa expansão começou?

A expansão londrina da Família Real do Catar

A forte presença imobiliária da família real do Catar em Londres começou como uma política de Estado. O ponto de partida foi a criação da Qatar Investment Authority (QIA), em 2005, com a missão de transformar a riqueza gerada por gás e petróleo em ativos internacionais de longo prazo. Dentro dessa estratégia, Londres apareceu como destino preferencial por ser uma cidade com segurança jurídica, prestígio global e enorme capacidade de absorver capital estrangeiro em imóveis de alto padrão.

O primeiro grande marco dessa empreitada  foi a compra de Chelsea Barracks, em 2007, em uma operação reportada em torno de £600 milhões a £959 milhões, numa operação conduzida pela Qatari Diar, braço imobiliário ligado ao Estado do país. Na época, o investimento foi visto como uma entrada estratégica e bem organizada no mercado londrino, apostando em um mega projeto urbano em uma das áreas mais valorizadas da capital britânica.

A partir daí, o movimento se intensificou. Em 2010, o Catar comprou a Harrods por cerca de £1,5 bilhão; em seguida, ampliou sua presença com investimentos na Olympic Village, no The Shard e em outros ativos estratégicos ligados ao desenvolvimento urbano e ao mercado de luxo de Londres. Com isso, passaram a deter participações relevantes em marcos da paisagem londrina e a controlar ativos importantes para a elite econômica da cidade.

Na etapa seguinte, a expansão da família se concentrou em Mayfair, coração do mercado imobiliário mais exclusivo de Londres. Investigações e reportagens da imprensa britânica mostraram que o Catar e membros da família Al Thani passaram a controlar uma fatia expressiva da região. Foi nesse momento que, aos olhos de parte da imprensa britânica, a estratégia de investimento estatal se misturou ao enriquecimento privado da dinastia do Catar, consolidando uma presença imobiliária que hoje simboliza, para muitos britânicos, a transferência silenciosa de parte de Londres das mãos da antiga potência imperial para as de uma monarquia do Golfo.

O patrimônio da Coroa

Mas como uma família real estrangeira pode ter mais poder imobiliário que a família que se senta no trono real em Londres? A resposta é bastante simples. Charles III não é proprietário do Buckingham Palace, do Castelo de Windsor ou de boa parte do patrimônio da Coroa.

Segundo o Parlamento britânico, o rei não pode vender ou retirar renda diretamente do Crown Estate, ou seja, dos palácios ocupados e de outros bens mantidos. Todos eles permanecem vinculados à Coroa, sendo administrados em nome do Estado, e não como propriedade privada do soberano.

Por esse motivo, as áreas reais como Buckingham Palace, St James’s Palace, Clarence House, partes residenciais de Kensington Palace, Windsor Castle e Hampton Court não entram na conta do patrimônio pessoal da Família Real.

Se for considerado o patrimônio institucional, a monarquia britânica segue gigantesca no papel. No relatório anual de 2024/25, o Crown Estate informou lucro líquido de £1,1 bilhão e um total avaliado em cerca de £15,5 bilhões.

Dentro desse conjunto, o portfólio londrino foi avaliado em aproximadamente £7,1 bilhões, concentrados em áreas como Regent Street e St James’s. Mas nada desse patrimônio é riqueza privada do rei, que não pode dispor livremente desses bens nem embolsar essa receita como se fosse um proprietário comum.

Por isso, quando o foco é calcular o patrimônio ligado diretamente ao soberano, o parâmetro mais próximo é o Duchy of Lancaster, carteira histórica que financia o monarca. Em 31 de março de 2025, o ducado reportou valor patrimonial líquido de £678,7 milhões e registrou pagamento de £28,7 milhões ao Privy Purse e ao Sovereign Grant Reserve Fund, segundo o relatório anual.

Em outras palavras: quando falamos da riqueza privada associada ao atual rei do Reino Unido, os números do Catar em Londres já ultrapassam, com folga, o patrimônio diretamente ligado a Charles.

Decadência de um Império

Essa percepção de que uma família real estrangeira tem mais poder do que a família britânica, mesmo que em um aspecto puramente imobiliário, reforça a decaída de um império no imaginário mundial depois de uma série de crises envolvendo os nobres ingleses.

Uma das grandes fissuras recentes na imagem da monarquia veio com a saída do príncipe Harry e sua esposa, Meghan, do núcleo ativo da monarquia. Em janeiro de 2020, o Palácio confirmou que o casal deixaria as funções reais; e em fevereiro de 2021, oficializou que eles não voltariam como membros atuantes da família. A ruptura produziu um abalo político e midiático duradouro, com perda de controle narrativo da Casa de Windsor e exposição de divisões internas.

Em seguida, veio o trauma institucional da morte de Elizabeth II, em 8 de setembro de 2022. A rainha, que por sete décadas serviu como âncora de continuidade da monarquia, morreu e deixou Charles diante de um problema histórico: suceder uma soberana cuja popularidade pessoal frequentemente blindava a instituição.

Dados do NatCen mostram que houve uma breve alta de apoio após a morte da rainha, mas depois a tendência de queda voltou. Segundo o British Social Attitudes, em 2024 apenas 51% disseram que a monarquia é importante para a Grã-Bretanha, o menor nível desde 1983; 15% defenderam sua abolição. Em outra pergunta, publicada em 2025, 58% preferiram manter a monarquia, mas 38% optariam por um chefe de Estado eleito.

Charles também enfrenta limites claros de popularidade. Segundo o YouGov, Charles III aparece com 60% de aprovação pública em levantamento de janeiro de 2026. É um número respeitável, mas bem distante do tipo de reverência quase automática que Elizabeth II despertava em grandes parcelas do eleitorado.

A situação é mais delicada no caso de Camilla, que em janeiro de 2026, registrou 42% de opinião pública favorável e 45% desfavorável, o pior resultado desde março de 2021. Um total muito abaixo do consenso popular de sua antecessora.

Outros membros da família real também aprofundaram a crise de imagem da monarquia. Em 2019, Andrew, irmão de Charles III, e então duque de York, se afastou das funções públicas após a repercussão de sua relação com Jeffrey Epstein. Em 2022, ele teve os títulos militares e patronatos removidos. Já em outubro de 2025, novas reportagens indicaram que Charles endureceu ainda mais sua posição, removendo seus títulos remanescentes. Mais recentemente, em fevereiro de 2026, Andrew voltou aos noticiários após ser detido e interrogado em uma nova investigação ligada à sua relação com Epstein.

Jogo dos Tronos no mercado imobiliário

O mercado imobiliário londrino acabou virando uma metáfora do declínio relativo britânico. O país que construiu um império global agora vê uma família reinante do Golfo concentrar, em caráter privado, uma presença imobiliária privada em Londres superior ao patrimônio pessoal diretamente associado ao monarca britânico.

Ainda que isso não signifique que Charles seja “mais pobre” que a família real do Catar, ou a Coroa esteja sendo substituída em Londres, imóvel por imóvel. Mas talvez signifique algo bem mais simbólico e incômodo: a riqueza que antes orbitava naturalmente a monarquia britânica, hoje circula por Londres sem precisar dela.

A antiga potência continua dona de palácios, tradição e influência diplomática. Mas no poder do capitalismo contemporâneo, ou seja, nos ativos, na renda e no controle de áreas nobres da cidade, a situação mudou. E a imagem é dura para a família real britânica: pode ser que o capital do velho império já não pertença, nem simbolicamente, apenas aos seus reis.

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