A Matemática de R$ 1 Bilhão

Como a engenharia financeira da Unipar pagou a engenharia química em Cubatão

No setor industrial, investir R$ 1 bilhão para modernizar uma fábrica sem aumentar nominalmente sua capacidade produtiva pode parecer, à primeira vista, uma conta difícil de fechar. Mas na recém-inaugurada modernização da planta da Unipar em Cubatão, a maior fabricante de cloro-soda da América do Sul não apenas fechou a conta, como deu uma aula de alocação de capital. O “pulo do gato” não está apenas nos novos eletrolisadores que brilham no chão de fábrica, mas na sofisticada estrutura de funding que viabilizou o projeto, trocando dívida cara de mercado por linhas de fomento excelentes.

Esse movimento acontece em um timing crucial, a planta de Cubatão a unidade responde por cerca de metade da capacidade produtiva de cloro e soda. Com o Marco Legal do Saneamento pressionando a demanda por tratamento de água (onde o cloro é rei) e a construção civil oscilando (impactando o PVC), a Unipar precisava garantir que seu principal ativo não fosse apenas funcional, mas imbatível em custos.
Ao optar por um retrofit profundo em vez de um greenfield bilionário, a gestão blindou a operação contra a obsolescência tecnológica sem descapitalizar a empresa, preparando o terreno para defender suas margens nas próximas décadas.

O Salto Tecnológico: Eficiência na Veia do Negócio

O cerne da operação em Cubatão foi a substituição total do “coração” da fábrica: a tecnologia de eletrólise, processo eletrointensivo que quebra a molécula do sal para gerar cloro e soda cáustica. A Unipar aposentou definitivamente os métodos baseados em mercúrio e diafragma, tecnologias que, embora funcionais, tornaram-se obsoletas do ponto de vista de custo e ambientalmente sensíveis devido a tratados internacionais. Em seu lugar, a companhia adotou 100% da produção via células de membrana, considerado o melhor método.

A mudança ataca diretamente o calcanhar de aquiles da indústria de cloro-soda: o custo de energia. Os dados da nova operação mostram um ganho de margem operacional direto, a nova tecnologia de membrana derruba em cerca de 40% o consumo específico de energia (térmica e elétrica) para cada tonelada de cloro produzida. Quando olhada a fábrica de Cubatão como um todo, essa atualização pode gerar uma economia de energia que chega a 18%. Em um país com a volatilidade energética do Brasil, travar esse nível de eficiência é um diferencial competitivo de longo prazo.

No entanto, o ganho de eficiência vai além da conta de luz. O CEO Rodrigo Cannaval destacou em entrevista ao Bastidores do Poder, um aspecto técnico crucial que se traduz em dinheiro: o processo via membrana entrega o cloro e a soda já em concentrações muito superiores às tecnologias antigas. Isso significa que a fábrica precisa gastar menos vapor em etapas posteriores de concentração, simplificando a logística interna e reduzindo o Opex.

Além disso, a robustez do novo sistema garante maior confiabilidade. Na prática, isso permite que a fábrica rode mais tempo próxima ao seu limite máximo, com menos paradas de manutenção. Isso entrega um incremento na produção efetiva sem que a capacidade nominal de 355 mil toneladas/ano precisasse ser alterada no papel.

A Arquitetura Financeira: O “Pulo do Gato” na Dívida


Para viabilizar um Capex dessa magnitude sem pressionar o balanço, a Unipar desenhou uma estrutura de capital inteligente. A companhia utilizou os atributos de sustentabilidade do projeto — a eliminação do mercúrio e a descarbonização — como a chave para acessar liquidez barata e de longo prazo. O argumento ESG abriu as portas para linhas de fomento que bancos comerciais dificilmente igualariam nas condições atuais de mercado.

A companhia captou um total de R$ 672,9 milhões junto ao BNDES. O grande trunfo foi o enquadramento em linhas específicas como o Fundo Clima, que oferece taxas fixas na casa de 7,53% ao ano — um custo de capital extremamente atrativo, quase negativo em termos reais, num ambiente de Selic de dois dígitos. Complementarmente, a empresa acessou o FINEM-Meio Ambiente (atrelado à TLP + 1,1% a.a.) e buscou outros US$ 42 milhões via agência de crédito à exportação (ECA) com a Euler Hermes para financiar os equipamentos importados de ponta.

O resultado dessa arquitetura financeira foi transformador para o passivo da companhia. A Unipar não apenas financiou seu ativo mais importante, mas utilizou a operação para derrubar seu custo médio de dívida global de CDI+1,51% para CDI+0,65%. Simultaneamente, conseguiu alongar o perfil de vencimentos, estendendo o prazo médio de pagamento de quatro para seis anos e meio. Foi uma operação de liability management (gestão de passivos) executada com precisão, usando o projeto industrial como lastro.

Sustentabilidade como Vantagem Competitiva


A modernização de Cubatão solidifica a tese de que, na indústria química moderna, a sustentabilidade deixou de ser um custo de conformidade para virar um vetor de eficiência e acesso a capital. A eliminação total do mercúrio mitiga um risco operacional e reputacional de cauda longa.

Os números ambientais do projeto foram justamente o que viabilizaram o financiamento barato. A nova planta evita a emissão de 70 mil toneladas de CO2 por ano (base 2020) e elimina a geração de 150 toneladas anuais de resíduos industriais. A operação em Cubatão agora está mais integrada à estratégia de energia da companhia, sendo abastecida por fontes renováveis. A nova tecnologia de membrana permite, inclusive, que o hidrogênio gerado como subproduto no processo produtivo seja classificado como “hidrogênio verde”, abrindo novas avenidas de valor futuro.

Com o ciclo de investimento pesado em Cubatão concluído, a Unipar entra em uma nova fase. Analistas de mercado já projetam uma redução significativa no Capex da companhia a partir de 2026, o que deve liberar um fluxo de caixa livre robusto para o acionista, agora suportado por uma operação industrial mais leve, mais limpa e, financeiramente, muito mais barata de carregar.

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