O Mercado de R$ 11 bilhões dos Lares de Idosos no Brasil

Impulsionado pelo avanço da população com mais de 60 anos, o setor de lares para idosos cresce de forma pulverizada e ainda pouco regulado, ao mesmo tempo que deixa de ser uma estrutura assistencial e passa a operar como negócio.

Por: Bruna Aragão

O Brasil tem hoje cerca de 160 mil idosos vivendo em casas de repouso, distribuídos entre 6 mil e 9 mil instituições, dependendo da metodologia. Levantamentos baseados em registros formais apontam cerca de 6,2 mil unidades, enquanto estimativas de entidades do setor, como Sebrae e a Frente Nacional de Fortalecimento à ILPI, ampliam esse número para perto de 9 mil ao incluir operações menores e menos estruturadas.

Com mensalidades que giram em torno de R$ 6 mil por mês, esse mercado já movimenta aproximadamente R$ 11,5 bilhões por ano, podendo chegar a R$ 20 bilhões se incluir serviços domiciliares e estruturas informais.

Ainda assim, é um mercado pequeno diante do tamanho da demanda. O país já tem mais de 32 milhões de brasileiros com mais de 60 anos — cerca de 15,6% da população  — e deve dobrar esse contingente no futuro. Projeções do IBGE indicam que esse grupo chegará a cerca de 69 milhões em 2054 e ultrapassará 75 milhões em 2070.

Dentro desse cenário, a população acima dos 80 anos, que concentra maior demanda por cuidado contínuo, deve mais do que triplicar, passando de cerca de 4,8 milhões hoje para 15,8 milhões em 2054 e 22,7 milhões em 2070.

Nesse contexto, ao combinar o crescimento da população idosa, o aumento gradual da institucionalização e a elevação do ticket médio, é possível estimar que o setor pode atingir algo entre R$ 60 bilhões e R$ 100 bilhões nas próximas décadas.

Apesar disso, apenas uma fração dos idosos do Brasil está hoje em instituições de longa permanência. Os residentes em ILPIs representam menos de 1% da população idosa (~0,5%), o que indica oferta insuficiente frente à demanda potencial. 

Essa distância entre oferta e necessidade ajuda a explicar por que o setor cresce mesmo antes de se organizar.

Mudanças estruturais vêm reduzindo a capacidade de cuidado dentro das famílias. Menos filhos por domicílio, maior participação feminina no mercado de trabalho e aumento da longevidade diminuem a disponibilidade de cuidadores informais, deslocando a demanda para o mercado. Com isso, surgem novos modelos de negócio e aumenta o interesse de investidores.

Do modelo assistencial ao serviço precificado

Historicamente, as casas de repouso no Brasil operavam com perfil assistencial. Eram estruturas simples, focadas em idosos com maior grau de dependência e forte presença de instituições filantrópicas — as quais ainda representam cerca de 65% do total.

Nos últimos anos, esse modelo começou a dividir espaço com outro. Novos empreendimentos passaram a incorporar elementos de hotelaria, convivência e cuidado contínuo, oferecendo desde quartos individuais e espaços de lazer até uma programação diária de atividades, acompanhamento clínico e serviços personalizados.

Elevar o padrão de serviço permitiu aumentar o ticket médio e tornar o negócio economicamente mais atrativo. Residenciais cobram entre R$ 10 mil e R$ 15 mil por mês para estruturas que incluem fisioterapia, alimentação supervisionada e atividades voltadas à convivência.

Em alguns casos, modelos híbridos ainda combinam mensalidades com taxas de entrada e serviços adicionais, o que ajuda a diluir custos fixos, especialmente mão de obra, que concentra a maior parte das despesas de um modelo intensivo em cuidadores e enfermagem. Para se sustentar, essas operações dependem de ocupação elevada, frequentemente acima de 80% ou 90%.

Os dados disponíveis são fragmentados, mas apontam para um avanço relevante da oferta nos últimos anos. Levantamento da Fiocruz, com base em dados do Ipea e da Frente Nacional, mostra que o número de instituições de longa permanência passou de 3.548 em 2010 para mais de 7 mil em 2021, uma expansão de cerca de 146%, puxada principalmente pela abertura de unidades privadas.

Em relação ao mercado de trabalho, dados do Caged indicam que o número de cuidadores formais cresceu 547% em dez anos, saltando de 5,3 mil em 2012 para 34 mil em 2022.

Primeiros movimentos de escala

Apesar da mudança de perfil, o setor ainda é altamente pulverizado. Entre as privadas, predominam operações pequenas, com menos de 50 residentes. Ainda não há, até o momento, operadores dominantes ou empresas listadas com exposição relevante ao segmento.

Independentemente disso, começam a surgir tentativas de ganho de escala. Redes estruturadas, muitas vezes via franquias, expandem presença em diferentes estados e operam com dezenas ou centenas de unidades.

Em modelos franqueados, como o do Terça da Serra, o investimento por unidade varia entre R$ 900 mil e R$ 1,5 milhão, dependendo da estrutura, com capacidade média para 20 a 30 residentes

Há também casos de investimentos mais intensivos. O Aquarela Residencial Sênior, em Belo Horizonte, demandou cerca de R$ 23 milhões em estrutura para atender aproximadamente 80 idosos, com operação baseada em equipe ampliada e maior oferta de serviços. Nesse caso, o nível de capital significativamente mais alto está associado a um padrão mais elevado de atendimento.

Na ponta mais sofisticada desse movimento de escala, o setor também começa a se segmentar por perfil de renda e proposta de valor. De um lado, permanecem instituições assistenciais, muitas vezes com recursos limitados e dependentes de doações ou parcerias públicas. De outro, cresce a oferta de residenciais voltados à classe média e alta, com foco em conforto e qualidade de vida.

A conta recai sobre as famílias

Diferentemente de saúde ou educação, o cuidado de longa permanência no Brasil é majoritariamente financiado pelas famílias. Não há cobertura relevante do SUS nem dos planos de saúde para estadias prolongadas, tampouco um modelo estruturado de financiamento público para esse tipo de serviço. 

Levantamentos nacionais de residenciais sênior apontam mensalidades que variam entre R$ 4,7 mil e R$ 12,3 mil nas principais capitais, podendo ultrapassar R$ 15 mil em empreendimentos de padrão mais elevado. Iniciativas como o LOMA, da DOM Senior Living, em Florianópolis, trabalham com pacotes mensais que podem chegar a R$ 25 mil.

Esse nível de preço limita o acesso e, ao mesmo tempo, define o modelo de expansão do setor, que cresce principalmente onde há renda disponível para sustentar esse tipo de despesa recorrente.

Um mercado que opera sem padronização

Além disso, esse arranjo convive com um ambiente regulatório ainda pouco estruturado. Não há uma legislação federal específica para moradia sênior como categoria própria, e as instituições operam sob normas gerais de saúde e assistência social — como a Resolução RDC nº 283/2005 e o Estatuto do Idoso —, com fiscalização descentralizada e interpretações que variam entre estados e municípios. O resultado é um setor sem padronização clara e com regras fragmentadas, que ainda busca um marco regulatório mais definido.

Essa falta de definição abre espaço para disputas sobre o próprio enquadramento dos empreendimentos. Em Brasília, um projeto de residencial geriátrico de alto padrão no Lago Sul foi questionado, em denúncia apresentada ao Ministério Público, após moradores alegarem que o empreendimento, aprovado como clínica, funcionaria na prática como um condomínio residencial de luxo para idosos. 

O projeto, denominado Vila Raiô, consiste em um edifício com cerca de 60 apartamentos, de 120 a 250 metros quadrados, vendidos a valores que chegam a R$ 5,4 milhões. O exemplo expõe a dificuldade de delimitar na prática o que é serviço de saúde, moradia assistida ou um produto imobiliário — uma zona cinzenta que tem sido explorada na estruturação de novos empreendimentos.

O futuro do mercado

O mercado de lares para idosos no Brasil ainda está longe de ser um setor consolidado. Falta padronização, os dados são incompletos e persistem lacunas regulatórias relevantes.

Ao mesmo tempo, a população envelhece rapidamente, e a estrutura tradicional de cuidado já não acompanha essa transformação, especialmente em um contexto em que o Estado não construiu uma política de longo prazo para o cuidado de idosos.

Nesse vácuo, o setor privado avança, impulsionado pela renda das famílias e por um público disposto a pagar por qualidade de vida. Esse avanço já se reflete em empreendimentos com valor geral de vendas (VGV) de centenas de milhões de reais, preços acima de R$ 20 mil por metro quadrado e mensalidades que podem chegar a R$ 25 mil.

O resultado é um mercado desorganizado e desigual, que cresce, mas que ainda deixa de fora quem não tem renda suficiente para acessar um tipo de cuidado essencial.

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