A TIM quer voltar para a fibra: O que isso diz sobre o “asset light”?

 A operadora que vendeu o controle da sua rede em 2021 agora aceita pagar R$ 950 milhões para recuperá-lo. O movimento expõe o limite da estratégia “asset light” nas telecomunicações.

A TIM está fazendo um movimento que, há poucos anos, soaria contraditório dentro do manual das telecomunicações. Depois de vender o controle da sua operação de fibra para ganhar eficiência de capital, a companhia decidiu recomprar o ativo — e pagar quase R$ 1 bilhão por isso.

Em fevereiro de 2026, o conselho da empresa aprovou a compra dos 51% da I-Systems, que estavam nas mãos da IHS Towers, por R$ 950 milhões. Com isso, a TIM volta a deter 100% da operação que ela própria estruturou e vendeu em 2021, quando o ativo ainda se chamava FiberCo.

À primeira vista, o movimento parece um ajuste operacional, mas revela uma mudança na leitura sobre onde está o valor no setor, ao mesmo tempo em que expõe o limite da terceirização de ativos críticos.

De ativo pesado a ativo estratégico: a história da venda 

Em 2021, vender infraestrutura era quase consenso. Operadoras ao redor do mundo passaram a separar torres e redes de fibra em empresas independentes, atraindo investidores e liberando caixa.

O objetivo era reduzir a intensidade de capital — o volume de investimento necessário para crescer — e transformar ativos pesados em contratos de aluguel previsíveis.

Foi nesse contexto que a TIM criou sua unidade de fibra, a então chamada FiberCo, e vendeu 51% para a IHS Towers por cerca de R$ 1,6 bilhão, mantendo os 49% restantes. A transação atribuiu à empresa um valor total de R$ 2,6 bilhões e a colocou no trilho do modelo “asset light”, baseado em terceirizar infraestrutura em vez de possuí-la

A operação foi estruturada com uma parcela primária — R$ 609 mi —, destinada ao caixa da própria FiberCo, e uma secundária — R$ 1,027 bi —, direcionada à TIM. O desenho permitia à operadora retirar parte relevante do investimento em rede do seu balanço, ao mesmo tempo em que preservava acesso à infraestrutura como cliente âncora da operação.

A FiberCo nasceu com a função de implantar e operar a rede de última milha em fibra, atuando no mercado de atacado e atendendo não só a TIM, mas também outros provedores. À época, a rede já cobria mais de 6 milhões de domicílios, com plano de expansão para quase 9 milhões em quatro anos.

O desgaste do modelo “asset light”

A recompra da TIM ocorre em um momento em que o mercado reavalia o modelo de redes neutras de fibra — empresas independentes que constroem e operam infraestrutura para múltiplos clientes.

Esse modelo ganhou força na última década, sustentado por uma lógica simples: dividir investimentos, aumentar a ocupação da rede e reduzir custos para as operadoras. O problema é que a equação depende de escala, e nem sempre ela veio.

Empresas como a I-Systems enfrentaram dificuldades para expandir sua base de clientes no ritmo necessário para sustentar a operação. Sem volume suficiente, o custo da rede permanece elevado. Para as teles que alugam essa infraestrutura, isso se traduz em preços mais altos e menor espaço de margem.

Um sinal dessa pressão foi o prejuízo líquido de R$ 159 milhões registrado pela I-Systems nos primeiros nove meses de 2025. Relatórios de mercado também apontam compressão de margens e dificuldades para competir com operadoras verticalizadas. Com isso, o que parecia eficiente no papel passou a gerar fricções na execução.

A fibra como ativo de controle e não só de custo

O ativo em questão está longe de ser secundário. A I-Systems opera uma rede que cobre cerca de 9 milhões de domicílios em oito estados e está presente em mais de 40 cidades brasileiras. Trata-se de uma infraestrutura relevante para qualquer estratégia que envolva banda larga fixa, especialmente em um mercado em que a convergência entre serviços móveis e residenciais se tornou uma das principais alavancas comerciais.

Ao recomprar o controle, a TIM recupera autonomia sobre aspectos centrais da operação, como qualidade de conexão, tempo de resposta da rede e integração de serviços. Isso tira a empresa da posição de inquilina da própria infraestrutura e devolve o controle sobre um ativo que sustenta parte da experiência do usuário.

No comunicado da operação, o CEO da companhia, Alberto Griselli, afirmou que o objetivo é melhorar a conectividade de ponta a ponta, aumentar a eficiência operacional e posicionar a companhia para oportunidades futuras em FTTH — tecnologia em que a fibra óptica chega diretamente até a residência ou empresa do usuário.

Com isso, a fibra deixa de ser apenas um custo terceirizável e volta ao centro da estratégia comercial e operacional da companhia.

Controle de infraestrutura volta ao centro da estratégia

O novo movimento da TIM, nesse contexto, funciona mais como um ajuste de rota do que como uma ruptura. A empresa sinaliza que reduzir investimento por meio da terceirização também implica abrir mão de alavancas relevantes de execução, como preço, qualidade e ritmo de expansão. Ao retomar o controle da fibra, a operadora volta a integrar uma etapa relevante da cadeia, com mais capacidade de coordenar a entrega do serviço e capturar valor.

Por outro lado, o movimento também responde a uma lógica complementar. A IHS Towers vem reduzindo exposição a negócios fora do seu núcleo principal — infraestrutura de torres — e buscando simplificar a estrutura em meio a pressões de dívida e desempenho.

A operação, portanto, reúne duas estratégias que respondem a prioridades diferentes: de um lado, uma operadora que volta a priorizar controle operacional e, do outro, uma empresa que busca concentração e desalavancagem.

No conjunto, o episódio sugere um novo olhar do setor em relação aos seus ativos. A infraestrutura, que costumava ser terceirizada, volta a ser tratada como elemento central na disputa por receita.

Os limites da estratégia

A recompra, no entanto, não resolve automaticamente o posicionamento da TIM no mercado de fibra. A empresa ainda opera com escala significativamente menor do que concorrentes como a Vivo, que soma cerca de 7,7 milhões de acessos, e a Claro, com aproximadamente 2,6 milhões.

A I-Systems, por sua vez, reúne cerca de 830 mil conexões — algo próximo de 2% do mercado brasileiro de fibra, estimado em cerca de 42 milhões de acessos. Isso coloca a TIM com uma base quase nove vezes menor do que a da Vivo.

Mesmo com controle total da operação, a empresa parte de uma base limitada para disputar crescimento em um mercado já competitivo. Expandir em fibra exige investimentos elevados e decisões criteriosas de alocação de capital. Diferente do modelo móvel, onde a TIM construiu vantagem relevante, a banda larga fixa ainda depende de escala para diluir custos e sustentar margens.

Nesse contexto, recomprar o ativo melhora o controle da operação, mas não supera o desafio de ganhar escala em um mercado já consolidado.

O que está em jogo

A recompra da I-Systems revela menos sobre o passado da TIM e mais sobre o presente das telecomunicações. O setor entra em uma fase em que tráfego de dados cresce de forma acelerada, impulsionado por streaming, cloud e aplicações de inteligência artificial. A partir disso, a infraestrutura deixa de ser apenas suporte e passa a ser parte central da captura de valor.

Controlar a rede significa controlar qualidade, custo e capacidade de monetização. Terceirizar demais pode melhorar o balanço no curto prazo, mas limita o poder competitivo no longo.

A decisão da TIM de pagar R$ 950 milhões para recomprar um ativo que havia vendido cinco anos antes é, nesse sentido, menos uma contradição e mais uma revisão de premissas.

Durante anos, o setor perseguiu eficiência financeira reduzindo ativos. Agora, começa a reconhecer que, em determinados pontos da cadeia, leveza demais pode significar perda de controle. Afinal, quanto vale ser eficiente no balanço se isso compromete a capacidade de capturar valor no negócio? Ao voltar para a fibra, a TIM demonstra ter escolhido um lado dessa equação.

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