A Engenharia Imobiliária da Ração

Fusão entre Petz e Cobasi cria colosso de R$ 7 bilhões que reposiciona o poder no setor e pressiona gigantes globais da ração.

No final de 2025, uma operação redesenhou o mercado pet brasileiro. Com a aprovação pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), a compra da Cobasi pela Petz criou a maior rede de varejo pet do país.

Com a chamada “humanização” dos pets, esse mercado tem ganhado cada vez mais destaque no país. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet), o Brasil conta com entre 150 e 160 milhões de animais de estimação, se posicionando como um dos três maiores mercados pet do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e China. Somente em 2024, o setor movimentou cerca de R$ 75 bilhões

Agora a Petz e Cobasi formam um colosso de quase 500 lojas em 20 estados brasileiros, tendo receita bruta superior a R$ 7 bilhões e algo entre 420 mil e 470 mil metros quadrados de área comercial pelo país. 

A fusão cria o maior operador de metros quadrados do varejo pet brasileiro e reposiciona o setor em torno da lógica de controle de espaço físico para comandar a cadeia de vendas em varejo. 

Com o grupo Petz Cobasi, o mercado pet ganha um colosso capaz de pressionar a indústria da ração, o principal motor econômico do seu setor, transforma-se em algo mais próximo do que sempre foi: Uma operação imobiliária disfarçada de clínica veterinária.

A disputa pelo metro quadrado

Embora a Cobasi não divulgue sua metragem total, ela foi pioneira no conceito de megaloja pet no país, trazendo empreendimentos de 800 m² à 1300 m² em algumas unidades. Já a Petz informa cerca de 221 mil m² de área de vendas. Combinado às estimativas, o grupo fundido conta com algo entre 420 mil e 470 mil m², comparável à um shopping center de grande porte.

Esse grande portfólio é recente. Cerca de 40% das lojas da Petz foram abertas a partir de 2021 e ainda estão em fase de maturação, operando com receita abaixo do potencial e margens reduzidas.

A operação da empresa é quase integralmente baseada em contratos de locação, de 5 a 10 anos, com reajustes inflacionários, e em shoppings funciona em estruturas híbridas que combinam aluguel mínimo e percentual sobre vendas. Esse modelo estabelece um metro quadrado como ativo flexível.

 Manter essa operação funcionando gera uma conta significativa. Apenas com a Petz, a estimativa é que o custo total de ocupação pode chegar a algo entre R$ 400 milhões por ano, o equivalente a cerca de 10% a 12% da receita da empresa.

E é nesse contexto que a fusão entre Petz de Cobasi muda tudo.

Um estudo do JP Morgan mostrou que 22% das lojas Petz ficavam a menos de um quilômetro de uma loja da Cobasi, com cerca de 60% estando a menos de 3 quilômetros. Um fechamento de lojas em áreas de maior sobreposição pode resultar em market share mais saudável para as lojas remanescentes.

Com o fim da competição direta por localização, o grupo elimina esse “leilão de dois” que inflaciona os aluguéis em regiões premium. Isso abre espaço para a renegociação de contratos, fechamentos de unidades sobrepostas e a migração para formatos (e regiões) mais eficientes.

Uma estratégia para explorar essa sinergia é reduzir suas megastores (de até 1.500 m²) para focar em lojas de 450 até 700m², o que reduz custos de ocupação, equipe e demais despesas fixas. Mesmo assim, em seus canais institucionais, o grupo Petz Cobasi continua buscando por pontos entre 500 e 1.200 m² para locação.

Hoje, cerca de 95% das vendas digitais são feitas a partir das lojas físicas. Com isso, mais do que cortar custos, a análise estratégica dessa fusão pode transformar cada loja em um hub logístico para potencializar o e-commerce.

Na prática, apenas de somar quase 500 lojas, o grupo já controla uma área expressiva de fluxo do varejo. Parando de competir entre si, elas passam a agir como um grupo que reconfigura o mercado imobiliário, o que pode dificultar a entrada de novos concorrentes nessas regiões premium.

Para além disso, o grupo Petz Cobasi passa a comandar o maior canal físico de venda do setor, sendo capaz de definir preço, exposição e relevância de marcas, impactando diretamente o controle sobre a distribuição do varejo. E isso coloca fim a uma guerra silenciosa que o mercado enfrentava.

A conta chega à indústria

Esse controle físico que a Petz Cobasi exerce cria um efeito de “ampulheta” no setor: de uma lado, milhares de consumidores de um lado, do outro, dezenas de fornecedores. Isso forma um gargalo concentrado no varejo.

Das 35 empresas consultadas pelo CADE, 31 confirmaram preocupação com o poder de barganha da entidade combinada. Petz e Cobasi já recebem condições diferenciadas dos fornecedores, o que inclui descontos, bonificações, prazos de pagamento estendidos e campanhas promocionais exclusivas.

Nos últimos anos, impulsionada pelo avanço do e-commerce e pela competição entre redes físicas, a disputa pelo menor preço ficou acirrada. Nesse cenário, a ração virou uma commodity promocional, pressionando margens e drenando o caixa do varejo.

A junção da Cobasi com a Petz interrompe esse ciclo, mudando toda a lógica do setor, reduzindo a necessidade dos descontos agressivos. E essa pressão passa a ser direcionada para outro lugar.

No mercado das rações premium e super-premium, o percentual que passa pela Petz Cobasi é maior que os 10% do canal geral, com esses produtos se concentrando no varejo especializado.

Nesse ramo, dois nomes despontam como gigantes com dependência deste canal pet especializado para a distribuição de ração. Mars Incorporated, responsável por grandes marcas tradicionais, como PedigreeWhiskas, que recentemente investiu US$ 90 milhões em uma nova fábrica de wet food; e a Nestlé, que em 2025 investiu mais de R$ 2,5 bilhões na Purina, alavancando a produção de rações para as marcas Pro Plan, Dog Chow e Friskies.

Ainda é preciso levar em consideração a criação de marcas próprias que acentuam essa disputa. Produtos de marca própria podem ser até 30% mais baratos que marcas líderes e entregam 5-10 pontos percentuais a mais de margem bruta. E a penetração de private label na Petz evoluiu de 3% no 2T22 para 12,5% no 2T25, com a marca própria já sendo o segundo maior “fornecedor interno” da rede.

A Petz lançou sua própria marca de ração seca, a Selections. Com a Cobasi contribuindo com cerca de 20 marcas proprietárias, essa pressão no mercado tradicional só deve aumentar.

Assim, o novo grupo Petz Cobasi passa a ter mais poder de negociação com essas empresas. Agora, o grupo ganha escala suficiente para exigir melhores condições comerciais, descontos e verbas de exposição.

Na prática, com o fim da utilização da ração como commodity promocional para concorrência direta, o poder de barganha muda de lado. Seguindo a estratégia que redes de Supermecado bem utilizado há décadas, a Petz-Cobasi mostra que quem controla o ponto de venda controla toda a cadeia de vendas.

Concorrência territorial

Para aprovar a fusão entre Petz e Cobasi, o Cade exigiu a venda de 26 lojas da Petz no estado de São Paulo, o equivalente a aproximadamente R$ 230 milhões em receita,  cerca de 3,3% do faturamento anual da empresa.  

O argumento é reduzir a concentração em mercados onde a sobreposição das duas redes seria maior. Com isso, o mercado poderia permanecer competitivo, favorecendo os consumidores. Nem todo mundo concorda com essa ideia.

A Petlove, empresa que oferta serviços semelhantes ao Grupo Petz Cobasi, argumenta que o desinvestimento em menos de 30 lojas é insuficiente para balancear o ramo pet. Especialmente quando consideramos que fusão coloca o grupo como algo até 30 vezes maior que o terceiro colocado do setor.

O próprio Cade utilizou isócronas para mapear a sobreposição competitiva, identificando que, sem intervenção, a fusão poderia elevar preços em até 15% em mercados locais concentrados.

Curiosamente, como apontou o presidente do Cade, Gustavo Augusto Freitas de Lima, foi o interesse da própria Petlove em adquirir essas unidades ajudou a viabilizar a aprovação. “Se vai dar certo ou não, é o que vamos medir e monitorar”, afirmou à Forbes.

A aprovação da fusão, definindo o desinvestimento em 26 lojas, mostra que, na visão do Conselho, o ativo mais valioso não é a marca, mas sim o ponto comercial. Mais do que apenas uma expansão em metros quadrados, essas lojas representam o controle territorial de pontos estratégicos com um fluxo de clientes já estabelecido.

O novo centro do poder

 A fusão entre Petz e Cobasi não cria um império imobiliário tradicional, afinal não há terrenos, prédios ou ativos a serem monetizados.  O que ela cria é o controle de quase meio milhão de metros quadrados alugados em pontos estratégicos.

Sem um capital imobilizado, o grupo pode expandir, fechar ou reposicionar suas lojas com muita rapidez, o que permite reestruturar sua presença territorial conforme novas estratégias forem surgindo, se adequando de acordo com sua demanda.

Assim, o grupo Petz Cobasi solidifica o seu controle no mercado pet, um setor bilionário em constante expansão, sustentado pela necessidade de consumo recorrente. Resultando em uma capacidade real de influenciar os preços e margens de lucro ao pressionar a indústria pet.

No fim, a lógica permanece a mesma que rege o varejo há décadas: quem controla o canal controla o mercado.

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