Em um movimento que encerra um ciclo de 85 anos na indústria brasileira, a Votorantim selou a venda do controle da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) para um consórcio formado pela estatal chinesa Chinalco e pela mineradora Rio Tinto. O cheque de R$ 4,7 bilhões marca a saída definitiva da família Ermírio de Moraes de um setor que ajudou a construir.
Se aprovada pelos reguladores, a transação não apenas injeta liquidez no caixa da holding, mas confirma uma mudança tectônica na estratégia do grupo: sair do risco volátil das commodities para a segurança dos contratos regulados de energia e infraestrutura.
O acordo avalia a CBA (Enterprise Value) em R$ 10,7 bilhões. O preço de R$ 10,50 por ação representa um prêmio de 74% sobre a média das cotações nos últimos 90 dias.
Mas por que a Votorantim desistiu do alumínio? O que a China ganha com isso? E como a Auren Energia se tornou a nova protagonista do conglomerado?
O Fim da Volatilidade: Por que vender a CBA?
Para entender a venda da “joia da coroa” fundada em 1941, é preciso olhar para o balanço, há anos, o grupo vem executando um movimento disciplinado de rotação de portfólio: sair de teses cíclicas, onde o preço é ditado por bolsas em Londres ou Chicago, e migrar para teses de infraestrutura e utilities, onde o retorno é regulado e protegido da inflação.
A comparação dos números revela o racional inequívoco da holding. Em 2024, a CBA, sujeita às intempéries do preço do alumínio e aos custos de insumos, faturou cerca de R$ 8,1 bilhões. No mesmo período, a Auren Energia — a plataforma de renováveis do grupo — já apresentava uma receita líquida pro forma de R$ 11,2 bilhões.
A hierarquia interna do grupo mudou silenciosamente. A energia, que nasceu como um departamento de suporte para garantir que as fábricas de cimento e alumínio não parassem, tornou-se o protagonista. Hoje, na holding Votorantim S.A., o negócio de energia já é uma das maiores linhas de receita, superando a própria CBA e posicionando-se atrás da Votorantim Cimentos (R$ 26,6 bilhões) e disputando espaço com a CCR (R$ 14,5 bilhões) e a divisão de mineração. Mais do que volume, a energia entrega qualidade de resultado: o setor já responde por mais de 20% do EBITDA total do conglomerado, com margens que a indústria de transformação raramente consegue entregar.
Com a incorporação da AES, a Auren passou a operar uma matriz diversificada e robusta: 54% hídrica, 36% eólica e 10% solar. Além da geração, a empresa tornou-se líder absoluta em comercialização, negociando 6,2 GW médios em 2024. O EBITDA ajustado consolidado de R$ 3,3 bilhões da Auren confirma a tese: é muito mais seguro vender elétrons com contratos de longo prazo do que vender lingotes de alumínio no mercado spot.
Além da Auren, o grupo criou veículos como a Floen, para investir em hidrogênio verde e armazenamento, e a Reservas Votorantim, para monetizar créditos de carbono. A mensagem para o mercado é clara: a indústria do século XX financia a infraestrutura do século XXI.
A decisão de venda também foi acelerada por um “bode na sala”: o Projeto Rondon.
Para garantir sua sobrevivência a longo prazo, a CBA precisava tirar do papel uma nova mina de bauxita no Pará. O custo estimado era de US$ 2,5 bilhões (R$ 15 bilhões). A Votorantim se recusou a assinar esse cheque. Ao vender o controle, o grupo transfere esse risco de execução para quem tem bolsos infinitos e necessidade estratégica.
Localizado no Pará, esse projeto de exploração de bauxita era vital para garantir a longevidade operacional da CBA, prometendo adicionar 4,5 milhões de toneladas de produção por ano e substituir minas que entrariam em exaustão. O problema era a etiqueta de preço. Colocar Rondon de pé exigiria um investimento monumental estimado em US$ 2,5 bilhões (quase R$ 15 bilhões).
A Votorantim fez as contas e recusou-se a assinar esse cheque. Investir R$ 15 bilhões em um projeto de mineração greenfield, com todos os riscos de licenciamento e execução, para vender uma commodity cujo preço ela não controla, contradizia frontalmente a nova filosofia de alocação de capital do grupo.
A contratação do banco Moelis em agosto passado para buscar um parceiro foi o “sinal de fumaça”: ou alguém entrava com o dinheiro, ou a CBA encolheria. A solução foi vender a operação inteira para quem tem bolsos infinitos e imperativos estratégicos que vão além do retorno financeiro imediato.
O Interesse Chinês: Soberania, não Lucro
Se para a Votorantim o negócio foi uma saída financeira inteligente, para a Chinalco (controladora da Chalco) foi uma manobra de soberania nacional. A China produz 60% do alumínio mundial, mas vive um pesadelo logístico: sua dependência extrema de bauxita importada, concentrada perigosamente na Guiné e na Austrália.
Em um cenário de fragmentação global, depender da Austrália (aliada militar do Ocidente) ou da instabilidade política africana é um risco inaceitável para Pequim. Ao adquirir a CBA, a China coloca as mãos em minas operacionais que produzem 2 milhões de toneladas de bauxita por ano e, crucialmente, destrava o Projeto Rondon. A localização estratégica de Rondon, a apenas 130 km da Estrada de Ferro Carajás, permite escoar essa matéria-prima diretamente para os portos e alimentar as fundições chinesas.
Para a Rio Tinto, que entra como sócia minoritária com 33% da Joint Venture, a jogada é de posicionamento no “alumínio verde”. A CBA possui um diferencial raro: sua produção é alimentada por energia renovável de 21 hidrelétricas próprias. Em um futuro onde o carbono será taxado nas fronteiras, ter alumínio produzido com base hídrica vale ouro.
O que acontece agora?
O mercado financeiro, sempre atento aos movimentos dos “tubarões”, já havia precificado a saída. Embora o prêmio oficial tenha sido de apenas 1,5% sobre o fechamento da véspera, as ações da CBA dispararam 47% em janeiro e dobraram nos últimos 12 meses. O prêmio real pago pelos chineses, sobre a média dos últimos 90 dias, foi de 74%.
A transação avaliou a empresa inteira (Enterprise Value) em R$ 10,7 bilhões, um múltiplo de aproximadamente 6 vezes o EBITDA projetado para 2026. Para a Votorantim, foi a saída perfeita: vendeu no topo, monetizou a especulação e transferiu o risco de execução do Projeto Rondon.
O negócio dispara o tag along para os acionistas minoritários. A joint venture sino-australiana será obrigada a realizar uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) pelas ações restantes da CBA na B3, pelo mesmo preço de R$ 10,50.
A expectativa do mercado é que a CBA feche seu capital em breve. Para a Votorantim, que encerra o dia com R$ 13,6 bilhões em caixa e grau de investimento reafirmado, a mensagem é clara: a tradição industrial do século XX agora financia a infraestrutura verde do século XXI.