A notícia caiu como uma bomba no mercado cervejeiro global no dia 12 de janeiro de 2026: Dolf van den Brink, o executivo que guiou a Heineken por crises sanitárias, inflação e transformações de mercado, anunciou que deixará o comando da empresa em 31 de maio de 2026, após quase seis anos no cargo.
No comunicado oficial, a Heineken, com sede em Amsterdã, emoldurou a mudança como uma decisão pessoal em harmonia com o Conselho de Supervisão, ideal para preparar a próxima fase estratégica: o plano EverGreen 2030. Van den Brink, disseram, permanecerá como consultor por oito meses após sua saída.
No entanto, a reação imediata dos mercados foi menos diplomática. As ações da Heineken chegaram a cair cerca de 4% na Bolsa de Amsterdã após a notícia, sinalizando inquietação pelo desempenho recente e dúvidas sobre o futuro próximo.
Por trás das palavras ensaiadas dos comunicados, a saída de van den Brink ocorre em um momento de forte pressão. A empresa enfrenta queda global na demanda, consumidores mudando seus hábitos e margens comprimidas por custos altos. No Brasil, seu maior mercado produtor e um dos mais estratégicos do mundo, um desempenho comercial mais fraco e um passivo jurídico significativo na Bahia parecem ter acelerado o desgaste do CEO.
Vendas em queda e ações pressionadas
Os números mais recentes da Heineken mostram um quadro desafiador. No terceiro trimestre de 2025, a companhia reportou queda orgânica de cerca de 4,3% no volume total de cerveja vendido globalmente, com retrações acentuadas na Europa e nas Américas.
Embora a receita líquida tenha ficado apenas modestamente abaixo do ano anterior (uma queda orgânica de 0,3% para cerca de €7,3 bilhões), a redução no volume, quase um em cada 20 barris a menos vendidos em comparação ao mesmo período de 2024, chamou atenção dos investidores.
A Heineken havia revisado suas projeções de lucro operacional orgânico para o ano fiscal de 2025 para o limite inferior da faixa guiada (entre 4% e 8%), como reflexo de custos crescentes em insumos e volatilidade macroeconômica.
Para muitos acionistas, acostumados a décadas de crescimento robusto e premiados com forte desempenho de ações, essa combinação de volumes em queda e margens comprimidas foi o sinal de alerta definitivo.
Volumes em queda e pressão por resultados
O que parecia um ciclo temporário transformou-se em uma tendência. Ano após ano, mercados maduros, especialmente na Europa e em partes das Américas, mostraram sinais de exaustão. Mesmo estratégias voltadas à premiunização e digitalização não foram suficientes para sustentar o crescimento de volumes em todos os territórios.
A Heineken tem se reposicionado para reforçar sua presença em mercados emergentes, mas os resultados em grandes economias continuam mistos. Essa desaceleração foi sentida tanto nos resultados quanto na bolsa, com a volatilidade dos papéis refletindo a preocupação dos investidores com o ritmo de recuperação.
“Fator Brasil 1”: mercado premium estagnado e reação da Ambev
No Brasil, historicamente visto pela Heineken como uma de suas principais alavancas de crescimento, o cenário também tem sido difícil. Dados do terceiro trimestre de 2025 apontam uma queda significativa nos volumes vendidos no país, com recuos superiores a dois dígitos, um dado que contrasta com os anos anteriores de forte expansão premium.
Assim como no restante do mundo, os consumidores brasileiros têm priorizado outras categorias de consumo diante da inflação mais alta e da renda real mais pressionada. Nesse contexto, a Ambev, concorrente dominante no Brasil, conseguiu ganhar participação no segmento premium, no qual marcas como Stella Artois e Corona competem diretamente com a Heineken.
Esse revés é particularmente simbólico porque o Brasil tem sido visto como um dos poucos mercados verdadeiramente “em crescimento” dentro da estratégia global da Heineken, reforçando a importância que os investidores atribuem ao desempenho local.
“Fator Brasil 2”: o imbróglio da água na Bahia
Além das dificuldades comerciais, a Heineken enfrentou um imbróglio jurídico de grande visibilidade na Bahia, envolvendo a exploração de água mineral que abastece sua fábrica em Alagoinhas.
O caso remonta à década de 1990, quando um empresário local registrou direitos de pesquisa sobre uma área de terra onde, anos depois, uma fábrica foi instalada. Um litígio que, após anos de disputa, resultou em decisões judiciais favoráveis ao empresário, incluindo um julgamento definitivo no Superior Tribunal de Justiça.
Enquanto a Agência Nacional de Mineração (ANM) ainda não cumpriu integralmente a determinação judicial, estimativas de especialistas apontam que um acordo para encerrar a disputa pode chegar à casa de centenas de milhões de reais, um passivo que tem incomodado acionistas.
Essa combinação de pressão operacional e litígios onerosos contribuiu para alimentar a percepção de que a gestão global perdeu alguma confiança de rodadas importantes de investidores e membros do conselho.
O futuro incerto
Com a saída de van den Brink, a Heineken entra em um período de transição delicado. O Conselho de Supervisão já anunciou que intensificará a busca por um sucessor capaz de retomar o ritmo de crescimento orgânico em mercados maduros, ampliar a competitividade global e responder à concorrência feroz em segmentos premium, especialmente no Brasil.
O novo líder terá a difícil missão de equilibrar inovação, retorno para acionistas, rentabilidade em mercados tradicionais e adaptação a hábitos de consumo em transformação. Tudo isso enquanto o passivo na Bahia e as incertezas de mercado colocam sombras sobre os caminhos à frente.