Esqueça as bolsas Hermès e os relógios Patek Philippe. Na Faria Lima e no Leblon, o símbolo de status definitivo mudou. A nova obsessão dos super-ricos não é algo que se veste ou se dirige, mas algo que se mede: a idade biológica. O jogo agora é ter 50 anos no RG, mas métricas inflamatórias de 30. Para vencer essa corrida contra o tempo, a elite brasileira não está economizando cartões.
Enquanto no Vale do Silício, nos Estados Unidos, o bilionário Bryan Johnson investe cerca de US$ 2 milhões por ano (aproximadamente R$ 11 milhões) em um protocolo de 91 pílulas diárias e monitoramento obsessivo para rejuvenescer, no Brasil o movimento foi tropicalizado e igualmente caro.
O mercado é tão promissor que médicos estão virando grandes empresários. O epicentro desse movimento é a região dos Jardins, em São Paulo. Um exemplo claro do vulto financeiro deste setor é o nutrólogo Gustavo Sá, que, aos 29 anos, ganhou manchetes por um acordo imobiliário e empresarial: um investimento de R$ 22 milhões para erguer uma clínica de luxo no bairro.
A lógica desses espaços é a exclusividade. Não espere cadeiras de plástico e revistas velhas na recepção. Essas clínicas-boutique operam como private banks da saúde, com consultas iniciais que podem variar entre R$ 600 e R$ 1.500, mas isso é apenas o prólogo. O lucro real está na recorrência e nos procedimentos agregados.
A conta da juventude
O que se vende nessas clínicas vai muito além de “comer salada e fazer exercícios”. Vende-se a esperança química e tecnológica. Um paciente considerado “premium” no Brasil pode facilmente deixar mais de R$ 50 mil por ano em tratamentos.
São vários os itens nesse cardápio de promessas, como implantes hormonais, conhecidos também como “chips da beleza”, que apesar das polêmicas e restrições legais, continuam sendo um dos queridinhos para disposição e estética rápida, com custos que podem variar entre R$ 3 mil e R$ 8 mil por aplicação e renovados a cada seis meses.
A soroterapia ou “drip de luxo”, a moda importada dos Estados Unidos de tomar vitaminas diretamente na veia, virou febre entre quem quer imunidade, energia ou um “detox pós-festa”, com sessões que somadas chegam a custar centenas de reais por hora.
Para quem acha pouco o que o Brasil oferece, agências especializadas em “turismo de longevidade” vendem pacotes para clínicas suíças ou spas médicos nos EUA que podem chegar a R$ 240 mil por uma semana de experiências exclusivas.
O mercado clandestino de luxo e o embate com o CFM
O mais fascinante e controverso desse mercado é que ele opera muitas vezes em uma zona cinzenta da regulamentação médica. Em 2023, o CFM publicou a Resolução nº 2.333/23, que proíbe expressamente a prescrição médica de terapias hormonais com esteroides androgênicos e anabolizantes para fins estéticos, de ganho de massa muscular ou melhoria de desempenho esportivo por falta de comprovação científica e risco à saúde.
Na prática, porém, embora essa regra esteja em vigor, parte do mercado se tornou ainda mais exclusiva e cara, com muitos procedimentos sendo oferecidos de forma adaptada ou em serviços que exploram lacunas regulatórias. Clínicas continuam sugerindo tratamentos que prometem “modular” o envelhecimento, mesmo quando evidências robustas sobre eficácia e segurança inexistem ou são escassas.
Economia da longevidade
Enquanto instituições financeiras e consultorias internacionais projetam que a economia global da longevidade valerá trilhões de dólares na próxima década, no Brasil diversos segmentos relacionados à saúde, bem-estar e anti-aging mostram crescimento acelerado. Por exemplo, o mercado brasileiro de medicina complementar e alternativa para antienvelhecimento e longevidade faturou cerca de US$ 934,2 milhões em 2023, com projeções de chegar a US$ 4,74 bilhões até 2030.
Para o empresário que paga a conta, a aposta é assimétrica. Ele investe o equivalente ao preço de um carro popular por ano na esperança de viver mais e, quem sabe, ganhar mais tempo para produzir, criar e lucrar. Para as clínicas, o modelo de negócio é perfeito, já que o cliente nunca recebe alta. Afinal, a cura para o envelhecimento ainda não existe, o que garante que ele volte mês após mês para mais uma dose de soro e de esperança. A única certeza, por enquanto, é a das cifras usadas por quem tenta comprar mais tempo.