Ao comprar o M.Y. Safra Bank, o BTG Pactual não ganhou apenas um endereço em Nova York, mas a licença bancária mais disputada do sistema financeiro global e a chave para competir pelos dólares da elite latino-americana.
O BTG Pactual, maior banco de investimentos da América Latina, anunciou no dia 5 de janeiro deste ano, a conclusão de uma de suas jogadas estratégicas mais ousadas dos últimos anos: a aquisição definitiva do M.Y. Safra Bank, agora rebatizado de BTG Pactual Bank, N.A.
Essa operação não é apenas mais uma fusão no mercado. Para especialistas de Wealth Management, ela representa a peça que faltava para o BTG competir de igual para igual com gigantes globais como JP Morgan e UBS pela custódia de fortunas latino-americanas mantidas offshore.
M.Y. Safra era do Grupo Safra?
O nome soa familiar, mas o M.Y. Safra Bank não tem nenhuma relação societária ou operacional com o Grupo J. Safra, banco tradicional que atua no Brasil e na Suíça. Fundado em Nova York por Jacob M. Safra, sobrinho do lendário banqueiro Joseph Safra, o banco era uma operação de nicho focada em private banking e crédito imobiliário.
Antes da compra, os números eram modestos para os padrões do BTG, mas sólidos dentro de sua especialização. O banco reportava um patrimônio líquido de aproximadamente US$ 46,2 milhões, ativos totais de cerca de US$ 404 milhões e uma carteira de crédito de US$ 275 milhões no fim de março de 2024. No entanto, o BTG não comprou essas cifras pelo tamanho, comprou pela licença.
A “golden license”: por que comprar um banco pequeno
Antes da aquisição, o BTG operava nos EUA como broker-dealer, uma corretora capaz de vender ações e fundos, mas sem poder captar depósitos nem emprestar diretamente na economia americana.
Com a licença bancária plena que veio junto com o M.Y. Safra Bank, o jogo mudou radicalmente. O banco agora pode captar recursos diretamente nos EUA através de depósitos segurados pelo FDIC (equivalente ao FGC americano), o que barateia o custo do funding.
Com a licença, o BTG pode oferecer uma gama completa de serviços bancários, como contas correntes, linhas de crédito, cartões, hipotecas e financiamento de ativos (como jatos ou imóveis em Miami) diretamente ao cliente americano ou internacional.
Ao internalizar operações que antes eram terceirizadas, o banco captura maior margem sobre spreads bancários, fortalecendo sua operação offshore.
Esse tipo de licença é tão valioso que instituições buscam anos para consegui-la via regulação. O BTG preferiu comprá-la pronta.
A guerra pelo “share of wallet” global
A aquisição faz parte de uma estratégia ambiciosa do BTG, de dobrar o total sob gestão internacional em cinco anos. Embora números completos recentes para o segmento offshore não tenham sido divulgados separadamente, sabe-se que a operação internacional já atua há mais de 15 anos nos EUA e emprega mais de 280 profissionais em Nova York e Miami.
O raciocínio mira clientes latino-americanos de alta renda, que estão cada vez mais globalizados. Se o banco brasileiro não oferecer crédito para um apartamento em Manhattan ou um cartão Black em dólares, esses clientes tendem a buscar soluções em bancos como JP Morgan, Morgan Stanley ou UBS. Ao integrar serviços bancários completos nos EUA, o BTG encerra a fuga desses clientes para concorrentes internacionais.
Atualmente, o banco já está consolidado globalmente e expandiu sua operação em diversas frentes: de wealth management a asset management, com presença relevante em mercados da América Latina, Europa e Estados Unidos.
O que acontece agora?
Com a conclusão da transação, o novo BTG Pactual Bank, N.A. será liderado por Kathleen Romagnano, executiva que vinha à frente do M.Y. Safra e agora assume a presidência do banco recém-integrado.
Para André Esteves, chairman do BTG, e Roberto Sallouti, CEO, ter um banco operacional em Nova York representa mais do que expansão geográfica, é uma afirmação de soberania financeira global em um momento em que grandes fintechs brasileiras ainda lutam por licenças equivalentes no mercado americano.
Afinal, em Wall Street, tempo e licença são dinheiro e o BTG acaba de comprar os dois.