Sim, o título de um texto homenageando a trajetória de Warren Buffett e sua despedida vem de uma das maiores e mais emblemáticas sagas do cinema: Harry Potter.
Quando comecei a reler as cartas antigas da Berkshire, voltando a 1977, percebi algo que demorou anos para entender. Buffett não escrevia para ensinar. Ele escrevia porque precisava organizar o próprio pensamento. A pedagogia veio depois, como consequência involuntária de uma vida vivida com clareza. Por isso, quando as pessoas repetem que “Buffett ensinou tudo que sabemos”, eu discordo. Porque o que realmente importa — aquilo que faz a sua trajetória ser irrepetível — não está na superfície do texto, mas no silêncio entre uma frase e outra.
Nas cartas mais antigas, ainda enxutas e até cruas, Buffett revela uma característica que eu nunca aprendi totalmente, por mais que tente: a tolerância com a lentidão. Ele escreveu em 1978 que “we enjoy the process far more than the proceeds”. Eu já li essa frase tantas vezes que poderia recitá-la de memória, mas só recentemente entendi a profundidade dela. A maior parte dos investidores vive correndo atrás de retornos que confirmem para o mundo que eles são inteligentes. Buffett, desde o início, parecia fazer exatamente o oposto: ele escrevia para nos avisar que inteligência é quase irrelevante quando comparada à disposição de caminhar devagar.
Essa postura aparece em 1979, quando ele explica que, em negócios verdadeiramente bons, “the passage of time is your friend”. Ele não estava ensinando valuation, estava confessando um jeito de enxergar o tempo. E esse é um dos pontos que não aprendi com ele — pelo menos não plenamente. Eu continuo sendo mais ansioso do que deveria. Continuo tentando antecipar movimentos, como se existisse mérito nisso. Mas Buffett nos mostrou, desde cedo, que mover-se pouco não é preguiça, é uma forma de sabedoria. “Inactivity strikes us as intelligent behavior,” ele escreveu em 1990, com a naturalidade de quem fala de clima.
O curioso é que, olhando essas cartas antigas, consigo enxergar com nitidez uma espécie de inocência. Ele ainda não era a figura mítica de Omaha. Era um homem descrevendo empresas comuns: têxteis frágeis, companhias de seguros acidentadas, negócios pequenos que cabiam numa mesa de conferência. E, ainda assim, o que mais impressiona é o rigor com que observava cada detalhe, como se estivesse lidando com um Stradivarius. Em 1982, comentou que “our business mistakes are usually of omission and not commission”. Erros por não fazer, não por fazer. É o tipo de frase que só alguém muito seguro de si consegue dizer. E, ao mesmo tempo, é a mais difícil de viver. Eu já cometi mais erros de comissão do que gostaria de admitir.
Outra parte desse período que sempre me marcou é o humor com que ele lidava com fracassos. Em 1983, ao discutir decisões ruins, ele começou dizendo: “I will tell you the bad news first. We made a mistake.” Nada de floreios, nada de racionalizações. Apenas um homem admitindo que errou. Quando eu releio isso, percebo o contraste com o mundo financeiro moderno, em que ninguém erra — só “reavalia cenários.” Buffett ensinou, sem dizer explicitamente, que caráter pesa mais que métricas. Essa talvez seja a maior lição que eu não aprendi na juventude. Só agora, com o tempo, começo a compreender.
Um dos momentos mais profundos dessa fase aparece em 1986, quando ele descreve a compra da Nebraska Furniture Mart. Ali, ao comentar o talento de Mrs. B, ele concluiu: “Somebody once said that in looking for people to hire, you look for three qualities: integrity, intelligence and energy. And if they don’t have the first, the other two will kill you.” Eis aqui um ponto que muda a forma como vemos carreira, negócios e vida. Buffett não estava falando de investimentos, mas de gente. E gente — à diferença de empresas — exige sabedoria que não está em nenhum balanço.
Também há, nesse período, a obsessão dele por explicar que o mercado é um instrumento, não uma entidade moral. Em 1987, após o crash, ele escreveu uma das frases mais desconcertantes e mais verdadeiras de toda a história das cartas: “You only find out who is swimming naked when the tide goes out.” Eu nunca aprendi totalmente essa frase porque ela exige uma força interior que eu ainda estou desenvolvendo. Exige serenidade diante do caos, exige aceitar que o próprio erro será exposto sem anestesia. Buffett parecia lidar com isso como quem observa a mudança das estações.
Reler as cartas de 1977 a 1994 é perceber algo que muito poucos reconhecem: Buffett nunca tentou ser um professor. Ele tentou ser honesto. Tentou ser claro. Tentou registrar, ano após ano, a maneira como ele e Munger enxergavam o mundo. Essa clareza — essa falta de esforço retórico — é o que torna essas cartas tão difíceis de imitar. E é o que me leva à conclusão incômoda deste primeiro bloco: o que Buffett mostrou, mais do que ensinou, é que a lucidez moral é tão rara quanto retorno composto. E que, sem essa lucidez, nenhum retorno sobrevive.
Eu cresci admirando a habilidade dele em escolher empresas. Hoje, ao reler o que escreveu em 1994, percebo que admirei a coisa errada. Ele não ensinou valuation. Ele ensinou como caminhar com dignidade num mundo que recompensa atalhos — e fez isso sem nunca levantar a voz.
E essa, talvez, seja a primeira lição que nunca aprendi por completo: a de que o maior talento de Buffett não está nas decisões que tomou, mas na vida silenciosa que levou enquanto as tomava.
Lendo a segunda fase das cartas, de 1995 a 2010, percebo um contraste curioso. Se nas primeiras décadas Buffett mostrava quem era, aqui ele tenta ensinar, às vezes com paciência, às vezes com frustração contida, aquilo que o mercado insiste em não ouvir. Essa é a parte mais intrigante da trajetória: Buffett passa metade da vida provando que a simplicidade funciona e a outra metade explicando, ano após ano, por que ninguém consegue praticá-la.
A partir de meados dos anos 1990, ele começa a escrever com uma preocupação quase pedagógica, como se tivesse aceitado que não bastava mostrar — precisava explicar. E mesmo assim, poucos aprenderam. Em 1995, por exemplo, ele resume a essência de um século de investimento racional numa frase que deveria estar impressa na porta de toda gestora: “We don’t get paid for activity, just for being right.” Numa época em que a internet estava para explodir, em que o próprio conceito de “ficar parado” parecia absurdo, ele insistia que resultados extraordinários não vinham de movimentos extraordinários, mas de movimentos raros. Aprender isso, de fato, é quase impossível num ambiente acostumado a confundir movimento com inteligência.
É também nesse período que ele reforça, de forma explícita, a ideia que marcou toda sua trajetória: “Our favorite holding period is forever.” Sempre que leio essa frase no contexto das cartas de 1996 e 1997, lembro como ela foi ridicularizada por muitos analistas durante o boom da tecnologia. O mercado queria velocidade, Buffett oferecia permanência. O mercado queria novidade, ele oferecia repetição. O mercado queria revolução, ele oferecia lucros previsíveis. E, mesmo assim, quase ninguém conseguiu absorver o verdadeiro significado desse “forever”: não é apenas sobre tempo, mas sobre convicção. E convicção, no ambiente financeiro, é sempre um ato de coragem emocional — o tipo de coragem que não aparece em nenhum modelo quantitativo.
Durante a bolha das ponto com, Buffett foi atacado publicamente como ultrapassado. Em 1999, ele escreveu um trecho que hoje parece profético: “Nothing sedates rationality like large doses of effortless money.” Enquanto o mundo celebrava valuations que desafiavam qualquer noção de realidade, Buffett insistia que a matemática não fazia concessões à euforia. O mais impressionante é que ele não parecia irritado, apenas tranquilo. Essa tranquilidade irritava ainda mais quem acreditava estar presenciando a reinvenção da economia. No fundo, Buffett sabia que o grande teste do investidor não acontece quando ele está certo, mas quando está sozinho. E estar sozinho, em 1999, era quase uma forma de exílio intelectual.
O crash de 2000 não trouxe satisfação. Em vez disso, trouxe reflexão. Em 2001, ele escreveu: “You only learn who has been swimming naked when the tide goes out.” A frase virou ícone, mas o que impressiona mesmo é o tom calmo com que ele a escreveu. Não havia ironia. Havia compaixão. Ele sabia que muitos haviam perdido não apenas dinheiro, mas ilusões sobre o próprio julgamento. E ainda assim, mesmo depois do colapso, poucos aprenderam o que ele vinha dizendo há décadas: risco não é volatilidade, é ignorância sobre aquilo que se possui.
Buffett passou toda a década de 2000 tentando ensinar justamente isso. Em 2005, escreveu algo que define sua filosofia com uma precisão desconfortante: “Price is what you pay, value is what you get.” Essa linha é repetida exaustivamente até hoje, mas quase sempre de maneira superficial, como se fosse um mantra de autoajuda. O difícil é vivê-la. O difícil é aceitar que, por definição, valor é invisível no curto prazo. O difícil é agir com base naquilo que não aparece ainda. Buffett sabia que essa dificuldade não era técnica — era psicológica. E as cartas dessa fase deixam isso evidente.
A compra da Burlington Northern Santa Fe, em 2009, sintetiza essa visão. Ele justificou a decisão dizendo: “It’s an all-in wager on the economic future of America.” No meio da maior crise desde 1929, enquanto investidores fugiam apavorados de risco, Buffett colocava dezenas de bilhões numa empresa de ferrovias. Uma decisão assim não nasce de modelos. Ela nasce de caráter. E de um entendimento profundo de que ciclos econômicos não destroem países sólidos, apenas testam a paciência de quem vive neles. Esse é outro ponto que ele tentou ensinar e que poucos realmente assimilaram: otimismo não é ingenuidade; é disciplina intelectual.
Mas talvez o ponto mais importante desse período — e a lição que eu mesmo demorei anos para absorver — aparece em 2008, quando Buffett escreve: “Be fearful when others are greedy, and be greedy when others are fearful.” A frase é famosa demais, quase desgastada. Mas, quando a leio no contexto da carta de 2008, percebo que o mundo inteiro cita essa regra, mas quase ninguém a pratica. Porque praticá-la exige enfrentar seu próprio medo, não o medo dos outros. E enfrentar o próprio medo é um trabalho solitário, silencioso, diário. Não é à toa que tão poucos se tornaram investidores realmente excepcionais.
Relendo essas cartas, fica claro que Buffett passou essa segunda fase tentando ensinar o que ele sabia ser impraticável para a maioria: que investir não é sobre prever, mas sobre aguentar. Não é sobre genialidade, mas sobre disciplina. Não é sobre encontrar respostas, mas sobre eliminar impulsos. Ele escreveu em 2007: “The real fortunes in this country have been made by people who have been right about the business they invested in and not about the economy.” Essa frase deveria encerrar todas as discussões sobre macroeconomia que dominam o mercado até hoje.
Ao terminar essa fase, percebo que o maior desafio dessa etapa não está nas lições que Buffett escreveu, mas nas que ele sabia que ninguém aprenderia. Porque não são lições técnicas, são lições de temperamento. E temperamento não se ensina, apenas se observa.
Este bloco me leva a uma conclusão incômoda: Buffett não tentou nos ensinar como ganhar dinheiro. Ele tentou nos ensinar como sobreviver a nós mesmos. E, mesmo assim, continuamos tropeçando nas mesmas tentações, buscando as mesmas gratificações urgentes, repetindo as mesmas ilusões que ele passou décadas tentando desmontar.
O mais irônico é que, quando o mercado olha para trás e celebra a genialidade da Berkshire, ele celebra justamente aquilo que ignorou por tantos anos: a paciência, a sobriedade, a recusa em participar da euforia, a disposição de caminhar devagar num mundo que aplaude velocidade.
Buffett tentou ensinar tudo isso. Mas apenas alguns — muito poucos — conseguiram transformar essas ideias em prática verdadeira. E esse pequeno grupo, quase sempre invisível, é o único que realmente entendeu o que Buffett estava dizendo.
Chego às últimas cartas com uma sensação difícil de explicar. Talvez porque, quanto mais perto estamos do fim, mais claro fica que não estávamos lendo apenas relatórios anuais. Estávamos acompanhando a despedida lenta de alguém que sempre soube que seu tempo era limitado e que, ainda assim, escolheu escrever para desconhecidos como se estivesse deixando instruções para filhos que talvez nunca conhecesse pessoalmente. Nos últimos quinze anos, as cartas deixam de ser uma aula e passam a ser uma espécie de testamento silencioso.
É também aqui que Buffett revela um lado mais humano, mais imperfeito, mais simples. Ele escreve menos sobre genialidade e mais sobre permanência. Menos sobre desempenho e mais sobre confiança. Em 2012, por exemplo, ele admite algo que muitos ignoram porque parece simples demais para ser levado a sério. Ele escreve: “You don’t need to be an expert in order to achieve satisfactory investment returns.” Essa frase desmonta décadas de culto à complexidade. Ele está dizendo, na prática, que qualquer pessoa consegue caminhar pelo mercado desde que tenha paciência e bom senso. E, ao mesmo tempo, está dizendo algo ainda mais profundo: que a maioria não consegue porque não aceita a simplicidade como método de sobrevivência.
Nos anos seguintes, Buffett escreve como quem quer registrar o essencial antes de fechar as portas. Em 2014, ele faz uma confissão que se tornou uma das minhas favoritas entre todas: “In our search for new stand-alone businesses, the key qualities we seek are durable competitive strengths; able and high-grade management; and a sensible purchase price.” O que me impressiona não é a lista. É o fato de que, depois de cinquenta anos investindo, ele ainda encontra uma forma elegante de lembrar que nada mudou. Os mercados mudaram, as tecnologias mudaram, as narrativas mudaram. Ele, não. E talvez por isso sua influência seja tão grande: ele manteve a coerência enquanto o resto do mundo girava num ritmo cada vez mais confuso.
Mas há também um peso existencial nessa fase. Em 2015, ele escreve sobre a sucessão com uma honestidade rara. Ele diz: “Berkshire is built to last.” Ao ler essa frase, percebi que Buffett sempre soube que seria substituído. Ele nunca escreveu para ser eterno, escreveu para que a Berkshire fosse. Essa distinção é importante. Muitos líderes passam a vida tentando eternizar o próprio nome. Buffett passou a vida tentando eternizar uma cultura. Há algo de profundamente generoso nisso. Ele nunca tratou a Berkshire como extensão da própria identidade. Tratou como um organismo independente, capaz de sobreviver a ele.
Em 2018, ele volta ao tema que, de certa forma, resume sua filosofia desde os anos 1950. Ele escreve: “Reminder: Berkshire buys businesses, not stocks.” Depois de todos esses anos, ele ainda sentia a necessidade de lembrar o óbvio. E o fato de lembrar diz muito sobre o mercado. Mesmo com Buffett escrevendo isso mais de vinte vezes ao longo das décadas, continuamos insistindo em tratar investimentos como símbolos, gráficos, siglas, preços. Ele estava tentando nos contar, de novo, que tudo começa pela empresa, pela realidade concreta, pelo que é palpável. E que a abstração dos mercados, embora sedutora, é sempre um risco para quem esquece que o mundo real é o que paga os dividendos.
E então chegamos ao momento que nenhuma das cartas realmente preparou. Não porque faltassem sinais, mas porque faltam precedentes. Quando li o anúncio oficial de novembro de 2025, a frase que ficou martelando na minha cabeça foi uma das mais simples que Buffett já escreveu: “I will no longer be writing Berkshire’s annual report or talking endlessly at the annual meeting.”Ele poderia ter escolhido qualquer formulação grandiosa para se despedir, mas preferiu esse tom despretensioso, quase doméstico, como quem encerra uma conversa no fim de tarde e avisa que precisa descansar. Logo em seguida, ele acrescentou uma linha que, de tão típica, parece escrita para desarmar qualquer tentativa de transformar sua saída em epopeia: “As the British would say, I’m ‘going quiet.’ Sort of.” A naturalidade dessa despedida diz mais sobre ele do que qualquer superlativo que tentassem colar ao seu nome.
Nas cartas de 2024 e 2023, o tom já havia mudado. Buffett começou a escrever mais diretamente sobre tempo, finitude e ausência. Em 2023, abriu a carta dizendo que “Missing from the stage this year will be Charlie” e aquilo, mesmo antes de qualquer balanço, já era uma mudança estrutural no relato anual. O mundo inteiro sabia que a ausência de Munger era mais do que física. Era o início de outra era. E quando, na carta seguinte, ele escreveu que “Charlie’s wisdom will improve your life as it has mine”, percebi que aquela frase não era apenas um elogio. Era um aviso. Era Buffett nos preparando, do jeito dele, para a ideia de que as vozes que moldaram a Berkshire estavam se despedindo, uma depois da outra, com a mesma serenidade com que tomaram decisões difíceis durante décadas.
E é impossível não sentir o peso dessa serenidade agora. Porque, ao reler todas as cartas desde 1977, fica claro que Warren Buffett ensinou ao mundo praticamente tudo o que sabia sobre investir, mas ensinou muito pouco sobre como lidar com o fato de que ele próprio um dia deixaria de ser o narrador dessa história. Em vários momentos, ao longo desses quase cinquenta anos, ele tentou nos alertar que genialidade não era o ponto central. Lá atrás, em 1984, ele escreveu que “good business decisions are not made by geniuses but by people who have discipline in allocating capital”. Anos depois, reforçou que “you don’t need to be smart, you need a sound temperament”. E, ainda assim, quando chega a hora da despedida, percebemos que talvez nunca tenhamos aprendido a parte mais simples dessas lições.
Buffett sempre insistiu que “time is the friend of the wonderful business”, mas nunca explicou como ser amigo do próprio tempo. Sempre escreveu que o pânico era uma oportunidade, mas nunca nos ensinou o que fazer quando o pânico é provocado pela ausência dele. Sempre repetiu que a paciência era subestimada, mas nunca descreveu como se pratica paciência quando alguém que escreveu por sessenta anos simplesmente decide parar. E talvez esse seja o ponto que nunca aprendemos, nem aprenderemos. Porque o valor mais profundo de Buffett nunca esteve apenas nos investimentos. Esteve na coragem silenciosa de manter princípios simples durante meio século num mundo que passou esse mesmo tempo inteiro buscando complexidade. Ele não tentou ser mais esperto do que o mercado. Tentou ser mais constante. E essa constância é o que agora sentimos falta de um jeito quase físico.
Quando agradeço mentalmente por essa jornada, penso em Charlie. Penso no Buffett que escreveu, em 2022, que a melhor decisão de sua vida foi “finding a very smart high-grade partner, preferably older than you, and listening carefully to what he says”. Penso nos dois sentados, ano após ano, no palco de Omaha, com aquela combinação improvável de humor seco, paciência infinita e uma visão de mundo que parecia impermeável às modas intelectuais do momento. A ausência deles, juntos, cria um espaço vazio que nenhuma sucessão formal preenche. Greg Abel está preparado, competente, confiável, e Buffett faz questão de enfatizar isso. Mas sucessão não substitui voz. E não substitui a estranha sensação de que parte do capitalismo moderno adormeceu quando os dois saíram de cena.
A carta de 2024 termina com uma espécie de delicadeza que raramente vemos em documentos corporativos. Ele recomenda a nova edição do Poor Charlie’s Almanack para quem quiser aprender a viver melhor e não apenas investir melhor. E faz isso porque sabe que, no fundo, as lições mais importantes nunca estiveram nas planilhas. Estavam na maneira como os dois observavam o mundo. Na franqueza com que admitiam erros. Na disciplina com que evitavam atalhos. Na insistência quase teimosa em tratar a honestidade como vantagem competitiva. E ao escrever, em 2025, “As Thanksgiving approaches, I’m grateful and surprised by my luck in being alive at 95”, ele encerra sua trajetória com a mesma humildade de sempre. Não como alguém que venceu o mercado, mas como alguém que viveu mais do que esperava e decidiu agradecer por isso.
No fim das contas, escrever sobre a despedida de Warren Buffett não é um exercício financeiro. É um exercício humano. Não é sobre investimentos, é sobre aprender a dizer obrigado a alguém que passou quase sessenta anos tentando tornar o mundo um lugar menos cínico, menos ansioso e menos complicado. Um lugar onde bons negócios dependiam mais de caráter do que de fórmulas e onde a inteligência só valia alguma coisa se fosse acompanhada de bondade.
Obrigado, Warren, por ter mostrado que o capitalismo pode ser vivido com decência. Por ter insistido que transparência não é fraqueza. Por ter lembrado que paciência é uma forma de coragem. Por ter provado que a simplicidade só parece fácil depois que alguém passa uma vida inteira praticando. Obrigado por cada carta, por cada parágrafo honesto, por cada frase que atravessou gerações. E obrigado, principalmente, por ter escrito tudo isso sabendo que um dia não estaria mais aqui, mas confiando que, se tivéssemos lido com atenção, talvez pudéssemos continuar caminhando sem você.
Porque, no fim, a despedida de Warren Buffett não pertence aos mercados. Pertence às pessoas que aprenderam a pensar melhor, a decidir melhor e a viver melhor graças a um homem que transformou cartas anuais em guias de vida. E se hoje existe um vazio, que ele sirva como lembrança do privilégio que foi poder acompanhar essa jornada por tanto tempo.
“I predict that you will have a good time and likely make some new friends.”
— Warren E. Buffett, Berkshire Hathaway Annual Letter, February 22, 2025