O Monstro de R$ 160 bilhões

A fusão Marfrig–BRF criou uma superpotência com presença em 117 países e receita superior a R$152 bilhões, mas, logo no primeiro balanço, o lucro caiu 62% e a nova gigante da proteína já começou sob pressão.

No universo global da proteína, nasceu um titã. Em agosto de 2025, foi formalizada a fusão entre a Marfrig Global Foods e a BRF S.A., dando origem à MBRF, um movimento visto por analistas como o único antídoto real para a supremacia da JBS.

Mesmo unidas, Marfrig e BRF somam uma receita anual consolidada de R$ 152 bilhões, segundo anúncio oficial. Um número que parece gigantesco, mas representa apenas cerca de 40% do faturamento da JBS, o verdadeiro Golias do setor.

A estratégia da fusão era juntar a força da Marfrig nas carnes bovinas e a operação americana, via National Beef, com o portfólio de marcas da BRF (Sadia, Perdigão e Qualy). O resultado é uma empresa presente em 117 países, com 38% da receita prevista para vir de produtos processados, mas o começo foi turbulento. Logo no primeiro balanço como MBRF, veio o baque.

Lucro despenca e dívida sobe

Apesar da escala, a MBRF registrou, no 3º trimestre de 2025, um lucro líquido de apenas R$ 94 milhões, queda de 62% em relação ao mesmo período de 2024.

O EBITDA ajustado recuou 8,6%, indo para R$ 3,5 bilhões, com margem ajustada caindo de 10% para 8,4%. Já o volume de vendas na América do Norte e na América do Sul avançou 3,7% em toneladas.

No âmbito financeiro, a pressão está aumentando. A alavancagem dívida líquida/EBITDA ajustado atingiu 3,09 vezes, segundo a própria empresa. Esse endividamento crescente exige que a nova companhia demonstre rapidamente que as sinergias da fusão vão compensar esse custo elevado de capital.

A novela da CVM e a saída da Previ

A concretização da fusão foi uma batalha. Meses antes da aprovação, a Marfrig elevou sua participação na BRF para quase 60%, gerando desconfiança entre minoritários. Houve até pedidos de intervenção da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por supostas irregularidades na relação de troca de ações.

Outro capítulo importante foi a saída da Previ, fundo de pensão do Banco do Brasil. Ao vender a participação, a Previ se retirou da MBRF, marcando o fim de uma era no capital da BRF.

Do outro lado, desponta a SALIC (Saudi Agricultural and Livestock Investment Company), fundo saudita que negocia com a MBRF um possível IPO da BRF Arabia a partir de 2027.

O veredito do mercado

Gilberto Tomazoni, CEO da JBS, reagiu com frieza ao novo rival. A MBRF pode ser um monstro em tamanho, mas ainda precisa provar que a magnitude se traduzirá em rentabilidade.

A fusão era um movimento de longo prazo, apostando em sinergias e otimização operacional. O primeiro balanço, no entanto, ligou o alerta de que será preciso agilidade, disciplina de capital e execução firme.

Siga a Bastidores do Poder no Instagram

Leia mais