A Encruzilhada do Aço

Enquanto CSN e Usiminas sofrem com o aço chinês, a Gerdau se apoia em tarifas nos EUA e em sua tese de reciclagem para manter lucros e seguir investindo R$6 bilhões em 2025.

A siderurgia brasileira atravessa um momento crítico. Nos primeiros seis meses de 2025, o setor registrou paralisação de altos-fornos na CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) e na Usiminas, bem como um ambiente de forte pressão competitiva. A concorrência “desigual” do aço importado da China pesa, segundo executivos.

A China, que responde por mais da metade da produção mundial de aço, tem inundado o mercado global. No Brasil, as importações de chapa e outros tipos de aço aumentaram expressivamente, chegando a crescer mais de 50% em 2024.

Esse aço chinês entra no mercado brasileiro com preços em média 20% a 30% menores que o aço nacional, corroendo margens e rentabilidade das gigantes locais.

Em meio a esse panorama, a Gerdau, companhia com mais de 124 anos, se destaca. Enquanto concorrentes debatem retração, a empresa aposta em duas frentes simultâneas: blindagem no mercado norte-americano (no qual as tarifas favorecem o produtor doméstico) e investimento no Brasil em seu diferencial: o “aço verde”.

O “play” verde: a Gerdau como recicladora

A Gerdau não opera como siderúrgica convencional, inteiramente dependente de minério e carvão. A empresa se impõe como a maior recicladora da América Latina.

Segundo o Relatório Anual 2024 da empresa, cerca de 70% do aço produzido provém de sucata metálica, equivalente a aproximadamente 10 milhões de toneladas por ano.

Em termos de emissões, a intensidade dos Gases de Efeito Estufa está em 0,85 tCO₂e por tonelada de aço, praticamente metade da média global de 1,92 tCO₂/t. A empresa também definiu a meta de chegar a 0,82 tCO₂e/t até 2031 e alcançar a neutralidade de carbono até 2050.

O plano de investimentos para 2025 foi confirmado em cerca de R$ 6 bilhões, contemplando manutenção, competitividade e expansão, inclusive na América do Norte.

O dilema estratégico: o aço verde x o aço subsidiado

No Brasil, o “aço verde”, produzido majoritariamente a partir de sucata metálica e fornos elétricos, concorre com o “aço subsidiado” importado da China e sofre por isso.

A Gerdau, porém, reduziu sua dependência do Brasil. Em 2024, as operações da América do Norte responderam por 47,3% da receita do grupo, equivalente a cerca de R$ 31,9 bilhões. No 2º trimestre de 2025, a região norte-americana representou 61% do EBITDA da Gerdau.

Nos EUA, o ambiente favorece, com o protecionismo sobre o aço importado ajudando produtores locais. A tarifa efetiva sobre aço importado gira em torno de 25% a 50%, segundo fontes.

A sucessão e a alocação de capital

A 5ª geração da família fundadora (os Gerdau Johannpeter: André, Guilherme e Cláudio) fez uma transição discreta: deixaram funções executivas para concentrar-se no Conselho de Administração, enquanto a gestão executiva foi entregue a Gustavo Werneck, CEO desde 2018.

O CAPEX de R$ 6 bilhões previsto para 2025 visa manter as operações existentes e dar guias para o próximo ciclo de crescimento. A empresa informa ter aproximadamente 30% de capacidade ociosa nos EUA e esse espaço pode ser ativado com menor investimento e retorno mais rápido, dado o ambiente tarifário.

Werneck já indicou que a empresa está próxima de tomar a decisão de investir mais nos EUA do que no Brasil.

O aço entre o verde e o vermelho

A crise do aço brasileiro expõe um dilema que vai além da siderurgia. O país tenta competir em um tabuleiro global no qual a China dita os preços e os EUA impõem as barreiras. A Gerdau, com o modelo de reciclagem e investimento em baixo carbono, se equilibra entre os pólos “verde”, na estratégia, e “vermelho”, na concorrência.

Enquanto CSN e Usiminas lutam por espaço em um mercado distorcido, a Gerdau avança com uma lição prática: o futuro do aço brasileiro pode depender menos do minério e mais da inteligência com que se reaproveita o que já existe.

Siga a Bastidores do Poder no Instagram

Leia mais