A Guerra do Céu Noturno

Como as companhias aéreas transformaram os voos da madrugada em um campo de batalha por receita, espaço e sobrevivência regulatória nos principais aeroportos do Brasil.

Na maior parte do mundo, a madrugada ainda guarda o silêncio de ruas desertas. Nos principais aeroportos brasileiros, porém, essa tranquilidade se quebrou há muito tempo. Os slots da madrugada ou as janelas de pousos e decolagens entre 23h e 6h, tornaram-se moeda valiosa para companhias aéreas em contraponto aos horários nobres.

No Aeroporto de Congonhas, São Paulo, um dos termômetros mais sensíveis do setor, a rotina já bateu o teto. Em 2023, por exemplo, 536 movimentos diários, com mais de 22 milhões de passageiros embarcando e desembarcando em apenas um ano. Nesse ambiente congestionado, uma decolagem às 5h ou uma chegada perto da meia-noite pode equivaler a abrir um canal extra de receita.

No Santos Dumont, no Rio de Janeiro, e em São Paulo, as companhias Gol, Latam e Azul se enfrentam nos bastidores por cada minuto de céu noturno e por cada chance de deixar um avião sair de madrugada ou pousar antes do amanhecer, já que é um movimento que pode significar lucro, eficiência e vantagem competitiva.
Operar em horários menos disputados permite também menos congestionamento de tráfego aéreo, menos atrasos e mais previsibilidade, todos fatores que reduzem custos operacionais. É nessa penumbra que o planejamento estratégico se une à regulação para definir quem dorme melhor.

Por que a madrugada?

Quanto vale um slot em Congonhas, por exemplo, é difícil mensurar, mas as empresas que operam nesses aeroportos lucrativos veem margem alta em rotas como a ponte aérea entre São Paulo e Rio de Janeiro ou Brasília. A demanda é constante, os preços são premium e o espaço competitivo é escasso.
Considerando uma aeronave de 150 assentos, taxa média de ocupação de 84,3% (dados da Latam em 2024) e tarifa média de R$ 400 na ponte aérea São Paulo-Rio, cada voo transporta cerca de 126 passageiros, com faturamento bruto de R$ 50,4 mil.

Um par diário de slots de ida e volta garante R$ 100,8 mil/dia. Em 12 meses, o número alcança R$ 36,7 milhões. No papel, é uma linha de receita que pode sustentar parte da malha de uma companhia. Por isso, a madrugada é uma arena tão disputada.

A lógica, no entanto, não é apenas de ganhos. Operar fora do expediente tradicional aumenta despesas com manutenção noturna, deslocamento de tripulação, segurança reforçada e restrições de ruído impostas por vizinhanças.

O CASK (custo por assento-quilômetro), indicador crucial do setor, ficou entre R$ 0,34 e R$ 0,40 em 2024 no caso da Gol. Em outras palavras: para cada quilômetro voado por assento, esse é o valor mínimo que a passagem precisa cobrir para não dar prejuízo. Olhando por essa janela, a madrugada não é um horário barato, sendo um campo de maior risco operacional.

O jogo da meia-noite

Nem todos os passageiros estão dispostos a embarcar às 4h30 da manhã ou desembarcar perto da meia-noite. Estudos de mercado já registraram que, em rotas de alta demanda como São Paulo-Rio, os bilhetes da madrugada podem custar até 50% mais do que os de meio-dia, justamente pelo desequilíbrio entre oferta, custo e conveniência.

O resultado é um público segmentado, com viajantes corporativos que precisam chegar cedo à outra cidade, passageiros dispostos a pagar mais pela exclusividade ou clientes que aceitam o desconforto em troca de tarifas promocionais.

No fim, o que parece apenas um detalhe da malha aérea é, na verdade, uma saída para expansão em aeroportos saturados, captura de receita extra, proteção regulatória e reposicionamento competitivo.

Para o passageiro, voar às 5h da manhã pode ser incômodo. Para as companhias, significa sobreviver em um mercado no qual cada minuto de pista é dinheiro.

Regulação como batalha paralela

O Aeroporto de Congonhas é talvez o caso mais emblemático da saturação no Brasil. De acordo com regulamentos da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), o aeroporto de São Paulo opera com coordenação de slots porque há muito tempo superou o limite da capacidade operacional em horários de pico e, praticamente, não tem espaço livre nas faixas nobres do dia para novos voos.

O Santos Dumont, no Rio, embora menor e sujeito a outras limitações geográficas, urbanísticas e de espaço aéreo, também é coordenado para slots. Há horas do dia nas quais a capacidade máxima do aeroporto é atingida, implicando restrições de operação. Da mesma forma que em Congonhas, empresas aéreas que operam no Santos Dumont também precisam negociar com o regulador, ajustar as malhas e disputar espaço em faixas horárias menos valorizadas pela maioria, mas que podem trazer benefícios estratégicos.

Assim sendo, não basta ter aviões, é preciso cumprir regras. Desde a Resolução ANAC nº 682/2022, as companhias precisam manter regularidade mínima de 80% nos slots. Se não atingem a meta, perdem espaço.

Foi o que ocorreu em maio de 2025, quando a ANAC retirou da Voepass 20 slots em Congonhas e 8 em Guarulhos, redistribuídos entre Latam, Gol e Azul. A Latam terminou com 246 slots, a Gol com 244, e a Azul abocanhou uma fatia significativa. Na prática, voar de madrugada é também jogar para não perder, já que cada janela ociosa pode custar anos de presença em um aeroporto estratégico.

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