O Outro Lado da Cerca

Nos bastidores da safra recorde de 350 milhões de toneladas, o agro enfrenta seu pior colapso financeiro em décadas, com 1.272 empresas em recuperação e R$ 15,7 bilhões em dívidas.

O agronegócio brasileiro vive uma era de ouro no campo. Segundo o governo, a safra de grãos 2024/25 atingiu 350,2 milhões de toneladas, um recorde histórico e acima 16,3% do ciclo anterior. O agro, ao menos nas planilhas do Produto Interno Bruno (PIB), segue “pop” e “tech”. Nos bastidores, no entanto, longe das câmeras e dos comerciais da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), uma realidade menos fotogênica se impõe, com fóruns de recuperação judicial abarrotados.

No primeiro trimestre de 2025, os pedidos de recuperação no setor rural saltaram 44,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. No segundo trimestre, o aumento foi de 31,7%. Pela primeira vez, empresas superaram produtores pessoa física em número de casos com 243 pedidos, um retrato do colapso no coração corporativo do campo. No total, em 2024 foram registradas 1.272 recuperações judiciais no agronegócio, mais que o dobro do ano anterior.

Os números destoam do imaginário construído em torno do “Brasil que alimenta o mundo”. Enquanto o país celebra safras recorde, barões do agro tentam alongar dívidas, renegociar com credores e evitar o colapso de conglomerados bilionários. No Centro-Oeste, por exemplo, não são raros os casos de fazendas recém-mecanizadas sendo ofertadas em leilões judiciais. Nos bancos, executivos que antes disputavam fatias de mercado agora disputam tempo com advogados especializados em reestruturação.

O fenômeno revela uma crise que corrói o núcleo do setor mais celebrado da economia brasileira. A crise, neste caso, não se trata de produção, mas de modelo. Um sistema erguido sobre crédito barato, expansão acelerada e margens infladas que não resistiram à combinação de juros altos, queda das commodities e eventos climáticos extremos.

A embriaguez do crédito barato

Para entender o cenário atual, é preciso voltar aos anos de bonança. Entre 2020 e 2023, o agronegócio viveu um ciclo de euforia. A demanda global, especialmente da China, e a alta do dólar impulsionaram os preços das commodities a picos históricos. Ao mesmo tempo, a Taxa Selic a 2% transformou o crédito em um banquete.

O resultado foi uma embriaguez de otimismo. Grupos inteiros decidiram que crescer era sinônimo de endividar-se. O crédito rural para custeio disparou 68% entre as safras 2020/21 e 2023/24, saltando de R$ 135 bilhões para R$ 226 bilhões. Compraram fazendas, maquinários, armazéns e apostaram na escala e nas fusões. O endividamento virou o combustível do sucesso, e o sucesso, foi apenas uma questão de tempo.

A tempestade perfeita

O que veio depois foi a ressaca. Entre o fim de 2023 e o início de 2024, o cenário virou de forma bem rápida. Três frentes de destruição se formaram ao mesmo tempo, criando o que analistas chamaram de “tempestade perfeita”. A primeira foi a queda das commodities. O preço da saca de soja, que havia flertado com R$ 200, despencou para R$ 120, e o milho seguiu a mesma trajetória. Em regiões como Sorriso (MT), as receitas da soja caíram até 25% em relação à safra anterior. O lucro evaporou e muitos produtores operaram no zero a zero. Os custos de produção, impulsionados por insumos importados, não caíram na mesma proporção.

A segunda frente veio com o custo do dinheiro. A Selic, que um dia foi de 2%, estacionou em um patamar alto, transformando o crédito antes farto em um fardo. Dívidas atreladas ao CDI explodiram e bancos e fornecedores recuaram, exigindo mais garantias e encurtando prazos. 

O fator climático completou o desastre. Secas no Centro-Oeste e enchentes históricas no Sul criaram um mosaico de desastres regionais. Mesmo com a safra nacional recorde, milhares de produtores viram as lavouras desaparecerem. Para quem não tinha seguro agrícola, capital de giro ou fôlego financeiro, a quebra foi imediata. A inadimplência no crédito rural saltou para 7,4% em 2024, o maior índice da década.

Anatomia de um colapso: os gigantes que tombaram

A crise não escolheu vítimas, derrubando novatos de capital aberto e velhos patriarcas de fazenda. O caso mais emblemático é o da AgroGalaxy, uma criação de private equity, nascida para consolidar o varejo de insumos agrícolas e que cresceu à base de aquisições e dívidas. Quando o vento virou, a estrutura de R$ 4,67 bilhões colapsou. Em 2024, pediu recuperação judicial, tornando-se o símbolo de um modelo que confundiu expansão com solidez.

A Sperafico Agroindustrial, com 40 anos de história no Paraná, entrou em recuperação judicial com R$ 1,05 bilhão em dívidas. O Grupo Patense, gigante da nutrição animal, buscou proteção judicial com um passivo de R$ 2,15 bilhões. Outros nomes, como o Montesanto Tavares (R$ 2,13 bilhões) e o Safras & Cia (R$ 1,78 bilhão), engrossaram a lista.

Somadas, as dez maiores recuperações judiciais do agro acumulam um passivo superior a R$ 15,7 bilhões.

O fim da ilusão

A onda de recuperações judiciais é o ajuste de contas de uma década de euforia, um balanço tardio de um ciclo que confundiu sorte macroeconômica com gestão financeira. O agronegócio brasileiro continua sendo o motor do PIB, mas o motor engasgou. As safras seguem recordistas, mas os balanços estão no vermelho. A colheita, desta vez, veio em forma de planilhas de reestruturação.

O agro descobriu que crescimento não é sinônimo de prosperidade e que escala sem solvência é apenas um castelo de grãos sobre areia. O Brasil ainda alimenta o mundo, mas precisa, antes, aprender a alimentar a própria sustentabilidade financeira.

A era do crédito fácil e do crescimento a qualquer custo chegou ao fim. O futuro do agro pode continuar “pop” e “tech”, mas, para sobreviver, terá de ser, acima de tudo, disciplinado e solvente.

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