A saga da família de imigrantes alemães que transformou dois peixinhos em um ícone nacional, a inevitável passagem de bastão para um conglomerado da Faria Lima e a batalha para manter uma marca de 145 anos relevante na era do ultra fast-fashion.
No imaginário coletivo do país, poucas marcas alcançaram o status de substantivo. “Comprar uma Hering” é quase uma categoria do português brasileiro, um verbo que mistura memória, conforto e brasilidade. Por trás do símbolo dos dois peixinhos entrelaçados está a história de um clã que, por 141 anos, comandou um dos maiores impérios têxteis da América Latina a partir de Blumenau, Santa Catarina.
Fundada em 1880 pelos irmãos Bruno e Hermann Hering, a modesta tecelagem de imigrantes alemães atravessou impérios, crises e modas passageiras. No início dos anos 2000, atingiu o auge com 800 lojas e presença em todos os estados brasileiros. Em 2010, registrava lucro líquido de R$ 255 milhões e margem EBITDA superior a 20%, um feito raro no varejo nacional.
No entanto, ao mesmo tempo que consolidou o mito, tratou de torná-lo retrógrado. O avanço do fast-fashion global e a mudança no comportamento de consumo colocaram a empresa em rota de colisão com o próprio passado.
No melhor momento pré-venda, por volta de 2014, a Hering já havia alcançado faturamento de cerca de R$ 2 bilhões e mantido uma margem líquida de quase 29%, enquanto em 2017 registrava lucro líquido de R$ 263,8 milhões.
O ponto de inflexão veio em 2021, quando o controle foi vendido ao Grupo Soma por R$ 5,1 bilhões, em uma das maiores operações do varejo brasileiro. Atualmente, sob o guarda-chuva da holding Azzas 2154, resultado da fusão entre Soma e Arezzo&Co, a Hering tenta se reinventar entre megalojas, collabs e slogans reformulados, enquanto os herdeiros observam, discretos, o destino daquilo que um dia foi sinônimo de “o básico do Brasil”.
Em números atuais, a empresa centenária ostenta mais de 740 lojas pelo Brasil, divididas entre 71 lojas próprias e 671 franquias, com receita bruta anual de R$ 2,44 bilhões em 2023 e margens de lucro que voltaram a se fortalecer. As megalojas puxam o portfólio, com a meta de chegar a 110 unidades até 2026.
A gênese de um ícone nacional

A história dos Hering é também a história da industrialização brasileira, no padrão mais original, no qual o empreendedorismo dos imigrantes ergueu fábricas às margens de rios e, junto delas, cidades inteiras.
Em 1880, quando os irmãos Bruno e Hermann instalaram uma pequena tecelagem em Blumenau-SC, o país sequer tinha indústria de vestuário. A aposta era simples e poderosa, produzindo roupas duráveis, de qualidade e acessíveis. A camiseta básica Hering viraria um totem nacional, uma peça democrática que atravessou classes e gerações.
Os Hering foram também engenheiros sociais de uma comunidade. Fundaram hospitais, empresas de energia e telefonia e chegaram a ocupar a Prefeitura de Blumenau. A fábrica era o coração da cidade e o destino da família e da comunidade eram, literalmente, tecidos na mesma trama.
Por cinco gerações, o comando da Cia. Hering passou de pai para filho, consolidando uma cultura conservadora e avessa a riscos. Um capitalismo doméstico, prudente e de longo prazo, como aquele que aposta mais em fiar algodão do que em reinventar o mercado.
A Faria Lima bate à porta
O século XXI trouxe novos tecidos e novas velocidades. A Hering, acostumada a ditar o próprio tempo, viu o relógio do varejo acelerar. Com a chegada da Zara, da Renner, da C&A e, mais recentemente, das plataformas digitais como Shein e Shopee, o jogo mudou. O “básico” correu o risco de se tornar “datado”.
Em 2007, o re-IPO marcou o início da profissionalização. Fundos de investimento passaram a integrar o capital e o controle familiar começou a se diluir. A lógica da rentabilidade trimestral, vinda da Faria Lima, passou a disputar espaço com a visão centenária dos Hering, nem sempre de forma pacífica.
Em 2021, após recusar uma proposta de fusão da Arezzo&Co, avaliada em R$ 3,2 bilhões, a Hering foi surpreendida pela ofensiva do Grupo Soma, que ofereceu R$ 5,1 bilhões. O pagamento foi estruturado de forma híbrida: R$ 9,63 em dinheiro por ação e 1,625 em ação do Grupo Soma para cada ação da Hering. Em poucos dias, o negócio foi fechado.
A transação encerrou 141 anos de controle familiar e marcou o ingresso dos Hering no capitalismo corporativo moderno, não mais como industriais, mas como acionistas minoritários de um conglomerado de moda.
A reinvenção sob novo comando

A incorporação pelo Grupo Soma e, depois, pela Azzas 2154, inaugurou um novo ciclo. A missão era rejuvenescer um ícone sem apagar a alma. A estratégia começou pelo varejo físico, criando megalojas com 400 m², portfólio completo e experiência de compra sensorial. Em 2023, já eram 33 unidades, com meta de chegar a mais de 100 até 2026, transformando as lojas em destinos de moda, além de apenas pontos de venda.
No marketing, a marca buscou reconectar-se às novas gerações. Patrocinou festivais como o Turá, em São Paulo, e firmou parcerias com influenciadores, como Malu Borges, na tentativa de dar ao “básico” um caimento pop. O engajamento digital subiu 90%, segundo o grupo.
Nos bastidores, a Hering implantou um modelo de abastecimento just-in-time, reduzindo estoques e melhorando margens. Em 2023, a receita bruta foi de R$ 2,44 bilhões, com margem bruta de 43,5%, dois pontos percentuais acima do ano anterior.
O lucro líquido consolidado, que havia despencado para R$ 27 milhões em 2020, ano da pandemia, superou os R$ 200 milhões em 2023, impulsionado pela retomada do consumo e pela integração operacional ao Grupo Soma.
Com mais de 740 lojas, sendo 71 próprias e 671 franquias, a Hering segue como o braço mais lucrativo do conglomerado. Encerrou o ano de 2024 com 52 megastores e planos de abrir mais 28 unidades até o fim de 2025. A ideia é acelerar o crescimento para 110 unidades até o ano que vem.
O legado e o futuro da família
Para o clã Hering, a venda foi ao mesmo tempo o fim e o recomeço. A operação bilionária consolidou a fortuna familiar, agora gerida, ao que tudo indica, por meio de um family office discreto.
O último herdeiro no comando, Thiago Hering, permaneceu como CEO até 1º de outubro de 2025, quando anunciou a saída. Pela primeira vez em 145 anos, nenhum Hering ocupava a cadeira de comando.
Se o nome da família saiu da fachada da empresa, continua inscrito nas ruas e instituições de Blumenau. A Fundação Hermann Hering, criada em 1935, segue ativa, promovendo projetos sociais e culturais ligados à moda e preservando a história da companhia no Museu Hering, totalmente modernizado com tecnologia e experiências imersivas.
Em tempos de marcas efêmeras e consumo instantâneo, a fundação é o elo entre o passado industrial e o presente digital, um lembrete de que a Hering foi uma história de família antes de ser “case de negócio”.
Um novo capítulo para os dois peixinhos
A trajetória da Hering espelha a própria metamorfose do capitalismo brasileiro, indo da manufatura artesanal à era dos conglomerados listados em bolsa, da tecelagem à cultura de marca.
A transição para o grupo de moda carioca trouxe novo fôlego criativo, reposicionamento de produto, expansão de parcerias e campanhas voltadas à nostalgia de um “básico brasileiro”. Ainda assim, a Hering enfrenta o desafio de se equilibrar entre tradição e modernidade, símbolo e negócio.
No fim, a história da Hering é a de uma marca que trocou o comando, mas não a alma. O algodão que saiu das tecelagens de Blumenau, em 1880, continua tecendo a identidade de gerações. Mais de 140 anos depois, o fio permanece esticado, menos pela força da família e mais pela persistência de uma marca que aprendeu a se refazer sem se desfazer.
De longe, os Hering observam a criatura que criaram, torcendo para que os dois peixinhos continuem a nadar, mesmo em mares cada vez mais turbulentos.