Uma década de renda estagnada, inflação corrosiva e crédito escasso esvaziou o centro do consumo no país e está destruindo os impérios erguidos sobre ele.
A crise mais profunda do capitalismo brasileiro atualmente não é o escândalo contábil da Americanas nem a agonia financeira da Marisa. Esses são apenas sintomas, já que a verdadeira doença, silenciosa e estrutural, é o desaparecimento do consumidor de classe média tradicional.
Aquele perfil que frequentava o shopping aos domingos, financiava o carro zero, pagava a faculdade privada dos filhos e parcelava a geladeira em 12 vezes está virando uma espécie em extinção. O “esvaziamento do meio” é um terremoto sem alarde que está redesenhando o mapa do consumo no país.
Prensada por uma década de renda estagnada e inflação corrosiva, a classe C viu o poder de compra derreter. O resultado é uma economia bipolar: de um lado, o ultraluxo floresce, do outro, o baixo custo prospera. No meio, um vácuo e, nele, os impérios erguidos sobre o consumo da classe média desabam, um por um.
A anatomia de uma década perdida
O motor que impulsionava o consumo popular travou. Segundo o IBGE, o rendimento médio real do trabalho em 2014 era de R$ 2.974. Em 2024, o rendimento médio habitual atingiu R$ 3.225, um avanço nominal, mas insuficiente para recompor integralmente o poder de compra perdido ao longo da década.
Em apenas um ano, entre 2020 e 2021, cerca de 4,9 milhões de pessoas deixaram a faixa da classe média tradicional e o percentual de brasileiros na faixa intermediária recuou para 47%, segundo levantamento do Instituto Locomotiva. São sinais de que a classe média deixou de ser a maioria no país.
Com a renda comprimida, vieram os cortes. Pesquisas apontaram que uma parcela significativa cancelou planos de saúde e transferiu filhos da educação privada para a pública. O sonho da ascensão deu lugar à luta para não cair.
O efeito dominó no varejo
Nenhum setor sentiu o golpe com tanta força quanto o varejo tradicional. As redes que prosperaram com o crediário e o otimismo da classe média viram os castelos ruírem.
A Lojas Americanas protagonizou um pedido de recuperação judicial com um passivo declarado na ordem de R$ 43 bilhões, um nó financeiro que expôs a fragilidade do modelo baseado em vendas parceladas em massa. A Marisa, símbolo da moda popular feminina, reagiu com reestruturação que incluiu fechamento de mais de 90 unidades e negociação de dívidas de mais de 460 milhões ao longo de 2023, posteriormente renegociadas.
No segmento de decoração, redes que atuavam fortemente para a classe média também tiveram ajuste brusco de rota. Tok&Stok e Etna foram dizimadas. A Etna fechou as portas em 2022, enquanto a Tok&Stok, endividada em R$ 350 milhões, escapou por pouco, à custa de fechar 17 lojas e receber um aporte de emergência.
Nos shoppings, o retrato se repete, com marcas que simbolizavam o consumo aspiracional da classe média, como Riachuelo e Renner, ficando presas entre o varejo ultrabarato importado praticado em plataformas asiáticas e marketplaces (Shein e Shopee) e o nicho premium, e viram margens e tráfego se comprimirem. Dados de 2024 mostram que esses e-commerce corresponderam de 18% a 20% dessa fatia.
O fim do sonho do diploma
Outro símbolo do sonho de ascensão, o ensino superior privado seguiu o mesmo caminho. Grupos como Cogna (Anhanguera/Kroton) e Estácio, que cresceram amparados pelo FIES, sofrem com a evasão em massa e alta inadimplência.
Em 2020, 3,78 milhões de estudantes abandonaram cursos em faculdades particulares. O modelo, dependente do financiamento estudantil e da renda familiar, quebrou.
Depois do auge em 2014, com 731 mil novos contratos do FIES, os cortes no programa e a crise econômica transformaram a faculdade em um luxo. A inadimplência disparou, as salas de aula se esvaziaram e o diploma, antes passaporte para o futuro, voltou a ser privilégio de poucos.
A nova economia bipolar
Enquanto o meio afunda, os extremos florescem. O país se dividiu entre o popular eficiente e o luxo resiliente. Na base, o atacarejo viveu um boom. O Assaí reportou crescimento expressivo das vendas em 2023, com vendas líquidas e faturamento em alta na casa de 22%, se comparado a 2022.
No topo, o luxo mostra resiliência mesmo em ano global de desaceleração. Estudos setoriais internacionais observam que, embora o mercado pessoal de luxo global tenha arrefecido em 20
24, a participação dos grandes gastadores e de mercados locais robustos mantém fatias importantes de faturamento. Além disso, as marcas premium no Brasil registraram desempenho sólido nos últimos anos
Marcas como a Vivara, que registrou a maior margem bruta de sua história em 2025, e o grupo Arezzo&Co, seguem expandindo, impulsionadas por uma elite cuja renda, ao contrário do resto, aumentou.
Ao mesmo tempo, plataformas digitais e marketplaces internacionais exerceram pressão competitiva sobre as cadeias de moda e bens duráveis, capturando fatias relevantes do comércio eletrônico brasileiro, um fator adicional que comprimiu margens dos varejistas de médio porte.
O desafio de sobreviver no vácuo
O “esvaziamento do meio” não é uma fase, é uma reconfiguração estrutural da economia brasileira. Impérios erguidos sobre o consumo aspiracional da classe média estão descobrindo que seu público sumiu. Nesse abismo, se perderam shoppings, faculdades privadas e marcas que acreditaram que o meio ainda existia. O centro econômico do país foi engolido e ninguém ainda construiu nada no lugar.
Ficar no meio do caminho virou um mau negócio. O mercado exige extremos, com escala e eficiência no varejo popular ou sofisticação e exclusividade no topo. No vácuo que resta, ergue-se o retrato de uma década: vitrines fechadas, salas vazias e a lembrança de um tempo em que a classe média ainda parecia eterna. Quem insistir em habitar esse vácuo corre o risco de desaparecer com ele.