Como Matar uma Empresa para Salvar seu Valor?

No dia 20 de junho de 2016, a Oi entrou com o maior pedido de recuperação judicial da história do Brasil. Eram mais de R$65 bilhões em dívidas, espalhadas por bancos, fornecedores, detentores de títulos no exterior, trabalhadores e até órgãos públicos. A cena que se desenhou a partir dali deveria ser a de uma empresa em busca de renascimento, mas foi a de um corpo a ser fatiado com precisão cirúrgica.

A narrativa clássica de reestruturação, com corte de custos, renegociação de débitos, preservação de empregos e retomada do crescimento, não se aplicava. O que se mostrou foi um desmanche corporativo em escala inédita, no qual advogados, banqueiros e reguladores decidiram que a única forma de salvar algum valor era desmontar a companhia, vender pedaços no atacado e entregar o que restasse ao mercado.

A cada leilão, a Oi deixava de ser um pouco menos Oi. O serviço móvel foi repassado às rivais, as torres foram para fundos de infraestrutura, a fibra para sócios interessados em explorar a rede e os imóveis para quem pagasse mais. O que ficou foi uma empresa reduzida ao negócio de fibra óptica e a uma marca que já deixava o lugar central que teve nas telecomunicações brasileiras.

O processo não salvou a Oi como empresa, mas extraiu algo em torno de R$40 bilhões em ativos vendidos ao longo de seis anos. Para os credores, significou recuperar uma parte do que se perderia em caso de falência, enquanto, para os acionistas minoritários, sobrou poeira. Para o setor de telecomunicações, uma concentração ainda maior de poder nas mãos da Vivo, da Claro e da TIM.


Anatomia de uma recuperação judicial

A recuperação judicial da Oi foi aprovada em dezembro de 2017, após meses de disputa com credores. O plano classificava as dívidas em diferentes categorias e previa a injeção imediata de cerca de R$4 bilhões em capital novo. A criação de Unidades Produtivas Isoladas (UPIs), que permitiam vender partes do negócio de forma separada, sem carregar o passivo judicial da companhia, foi o elemento decisivo.

Essa engenharia jurídica foi o instrumento para transformar a Oi em um supermercado de ativos. Um comprador interessado podia adquirir espectro de telefonia móvel, torres de transmissão, rede de fibra ou imóveis, e não precisava assumir o conjunto da dívida que sufocava a operadora.

O plano também contava com a anuência da Anatel, reguladora que era credora bilionária da empresa, ao mesmo tempo. Havia o risco de o colapso da Oi comprometer a continuidade de serviços públicos essenciais. A solução regulatória foi apoiar as vendas, desde que garantidos os compromissos mínimos de universalização e a manutenção de bens reversíveis, aqueles que voltam ao Estado ao final da concessão.


O mercado das partes valiosas

O leilão mais representativo ocorreu em dezembro de 2020, quando um consórcio formado por Vivo, TIM e Claro arrematou os ativos móveis da Oi por R$15,9 bilhões. Os clientes foram redistribuídos entre as três operadoras, reforçando a concentração do mercado. 

Antes disso, no mesmo ano, a norte-americana Highline pagou cerca de R$1,06 bilhão por torres de telefonia móvel. Dois anos depois, a mesma empresa desembolsou R$1,7 bilhão por torres fixas. Em paralelo, o BTG Pactual, por meio da V.tal, levou a estrutura de fibra óptica da Oi em um negócio de R$5,7 bilhões. Somados a outras alienações menores, o total superou R$ 30 bilhões em vendas de ativos até 2022.

O desmanche ocorria em praça pública, com martelo batido e comunicados oficiais. O que se resgatava, no fim, era a liquidez imediata, um dinheiro vivo para reduzir a dívida e prolongar a sobrevida da companhia.

A Nova Oi: sobrevivente ou fantasma?

Em dezembro de 2022, a Justiça encerrou formalmente o processo de recuperação judicial da Oi. A dívida, que beirava R$65 bilhões, havia caído para cerca de R$22 bilhões após renegociações, conversões em ações e o uso do dinheiro das vendas de ativos.

A chamada Nova Oi concentrou-se na oferta de fibra óptica e serviços digitais associados. Já não possuía mais operações móveis, nem torres próprias, e contava com uma participação minoritária na V.tal, controlada pelo BTG. A telefonia fixa, antes o carro-chefe, seguia em declínio irreversível.

Do ponto de vista societário, a Oi não morreu. Continua listada em bolsa, ainda negocia com credores e investe em redes. A sua escala e relevância no setor, no entanto, não lembram a de uma gigante das telecomunicações. O que restou foi uma empresa de nicho, reduzida, tentando sobreviver em um mercado disputado por operadoras que absorveram suas partes mais valiosas.


O valor e o vazio

O caso da Oi expõe um dilema no capitalismo brasileiro, quando não há como salvar a empresa, mas há como salvar o valor que ela carrega. A estratégia de desmontá-la foi eficiente para credores institucionais e para concorrentes, mas devastadora para acionistas, trabalhadores e para o ideal de competição no setor.

Ao final, o desmanche da Oi foi um espetáculo acompanhado em tempo real por reguladores, fundos de investimento e bancos de varejo. Cada pedaço vendido carregava consigo um pedaço da história corporativa. A empresa não se reergueu, o que se resgatou foram suas partes.

Em 2025, a Oi atravessa um momento de contradições deste desmanche corporativo. No segundo trimestre de 2025, a empresa reverteu um pequeno lucro do mesmo período de 2024 para registrar um prejuízo líquido de R$835 milhões. O EBITDA de rotina continuou negativo em R$91 milhões, com margem piorando para −14,3%. Soma-se a isso uma dívida líquida valorizada em quase R$10 bilhões, 50,9% acima do reportado há um ano.

Na parte regulatória, a Anatel sinalizou para a Justiça em setembro de 2025 que há um cenário de contingência, com garantias financeiras de cerca de R$ 450 milhões para evitar interrupção de serviços essenciais caso algo pior ocorra, além de preparar um plano de transição para assegurar o funcionamento de redes em localidades remotas.

Mesmo tendo sobrevivido como marca e estrutura mínima, a Oi segue com operações enfraquecidas, pressões judiciais e regulatórias, desempenho operacional ainda negativo e a dúvida de que se o que restou será suficiente para evitar a falência de fato ou postergar o colapso.

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