A Maior Loteria Ilegal do Mundo

Um Jogo Maior que a Lei: uma análise do modelo de negócio do Jogo do Bicho

Diferentes opções de apostas, 25 animais que correspondem a quatro números cada e um prêmio que varia conforme a chance de acerto. Esse é o Jogo do Bicho, um modelo de jogo bem estruturado que ganhou o Brasil pela expectativa do retorno rápido com baixo investimento e se tornou a maior loteria ilegal do mundo.

O Jogo do Bicho faz parte da cultura brasileira e movimenta bilhões, apesar de ser classificado como ilegal por meio da Lei de Contravenções Penais, de 1941. Em 2024, o jogo chegou a R$ 12 bilhões arrecadados em mais de 350 mil pontos de venda espalhados pelo Brasil, de acordo com estimativas do Instituto Brasileiro Jogo Legal (IJL). Para se ter uma ideia da dimensão, a Caixa Econômica Federal, por exemplo, tem 12.600 casas lotéricas, aproximadamente.

Ainda que fora da lei, o contraventor Jogo do Bicho rapidamente caiu no gosto popular e se consolidou na confiança e no modelo capitalista do negócio. Bem estruturado, o jogo se articulou com setores importantes da sociedade, trouxe para perto quem poderia ser contrário e ajudou bicheiros a formarem verdadeiras fortunas. Afinal, o risco de uma pena, que é pequena, compensa todo o lucro.

Do zoológico à cidade

Dono de um zoológico em Vila Isabel, na zona norte do Rio de Janeiro, o barão João Batista Drummond teve uma brilhante ideia para atrair mais visitantes em 1892. O lugar exibia animais exóticos e oferecia vistas privilegiadas da Cidade Maravilhosa, mas o público ainda era pequeno. A solução encontrada por ele foi criar uma rifa ilustrada com os animais.

Pela manhã, Drummond escolhia um animal entre 25 possíveis e guardava a imagem em uma caixa, enquanto os frequentadores compravam bilhetes estampados com cada uma dessas mesmas figuras. No fim do dia, quem tivesse o animal sorteado recebia um prêmio equivalente a vinte vezes o valor da entrada, mais do que muitos cariocas ganhavam em um mês naquela época.

A novidade se espalhou rapidamente pelas ruas do Rio e ganhou o nome de “Jogo do Bicho”. Antes restritos ao zoológico, os bilhetes passaram a circular em armazéns e botequins. Alguns pontos da virada do século também ajudaram neste processo de popularização do jogo, como o crescimento da população urbana, trabalhadores excluídos do mercado formal, dinheiro novo vindo da abolição e da industrialização e uma justiça incapaz de conter a prática. Para muitos, o mercado ilegal era a única fonte de renda.

O Jogo do Bicho segue até hoje como apenas contravenção, com uma punição leve de quatro meses a um ano de prisão. Pena baixa demais para causar medo nos banqueiros frente aos lucros que sempre compensam o risco.

Negócio da sorte

O modelo do Jogo do Bicho foi criado para dar lucro, nos moldes de uma empresa capitalista, com hierarquia de “patrão, gerente e funcionário”, divisão de funções bem definidas e até sistema de incentivos.

Hierarquicamente, são três níveis. Na base, os anotadores ou bicheiros de rua, que registram as apostas em bloquinhos carimbados. Acima deles estão os gerentes, responsáveis por controlar os anotadores de uma região e organizar o repasse do dinheiro. No topo estão os banqueiros, também chamados de bicheiros, a elite financeira que concentra o lucro e dita as regras do negócio como verdadeiros donos. Apesar das denominações diferentes, os três são comumente referidos como bicheiros.

Os bicheiros do topo são aqueles que garantem o pagamento dos prêmios e distribuem parte dos lucros para manter os vendedores motivados, algo parecido com bônus ou participação nos resultados de uma empresa comum. 

Como em qualquer empresa, o risco da quebra da banca também faz parte do negócio, mas o Jogo do Bicho tem um sistema precavido nos moldes parecidos aos de instituições financeiras. Para garantir o pagamento de altos prêmios, surgiu a “descarga”, um tipo de seguro no qual os bicheiros menores repassam parte das apostas para um bicheiro maior, que assume o risco das grandes quantias. É exatamente o que bancos e seguradoras fazem com operações de hedge, contratos de risco e seguros, dividindo perdas para garantir estabilidade.

Com o tempo, esse mercado paralelo ganhou relações políticas. Na ditadura e, depois, no período democrático, os bicheiros passaram a financiar campanhas de forma ilegal e a oferecer acesso a comunidades pobres em troca de proteção. Assim como grandes empresas buscam apoio institucional, o Jogo do Bicho fez alianças com autoridades para se manter ativo até hoje. 

Exímios negociantes e pensadores estratégicos, os bicheiros, mesmo à margem da lei, acumularam patrimônio, formaram fortuna e se tornaram influentes em diversos setores da sociedade.

Reputação em jogo

Os bicheiros tiveram que contornar uma questão assim que o jogo começou a se popularizar. Como gerar confiança e mostrar lisura no processo em um jogo de azar que, se der errado, o apostador não pode nem chamar a polícia

Para conquistar a confiança dos jogadores, os bicheiros começaram a colar os resultados dos sorteios em postes da cidade, à vista de todos. Mais tarde, adotaram os números da Loteria Federal como chancela de “transparência” para uma prática que, na lei, continuava sendo contravenção.

O pagamento em dia reforçava a credibilidade, o mesmo vale para a fórmula fixa de multiplicador na aposta. O apostador sabe de fato, desde o início, quanto pode ganhar, algo difícil em mercados ilegais ou até mesmo legais.

A construção dessa reputação foi além, ao usar o dinheiro do bicho para financiar atividades culturais, principalmente as escolas de samba. Em 1985, foram justamente os bicheiros que fizeram parte da criação da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, a Liesa, responsável por profissionalizar e dar autonomia às escolas. 

Ao entrarem no carnaval, os donos do jogo ganharam popularidade e status. Assim, validaram a presença nas comunidades e, de quebra, encontraram um método eficiente de lavar dinheiro. 

O jogo também movimenta a economia local, gerando empregos para essas comunidades inteiras e impulsionando o turismo carioca, transformando a Cidade Maravilhosa em um símbolo nacional. 

Legalizar para quê?

O Jogo do Bicho, as loterias e as bets compartilham o mesmo rótulo. Considerados jogos de azar, dependem da sorte e, apesar dos prêmios altos, são uma fonte de renda extra arriscada.

Em 2022, o Congresso começou a discutir o Projeto de Lei nº 2.234/2022, que pretende regulamentar o jogo do bicho, bingos, cassinos, caça-níqueis e apostas on-line. A proposta prevê concessões, fiscalização, cobrança de impostos e medidas de mitigação social. Uma votação estava marcada para julho de 2025 no Senado, mas foi adiada sem nova data.

O texto do projeto, que está disponível no site do Senado, cita a criação da Taxa de Fiscalização de Jogos e Apostas (Tafija), que custaria R$ 20 mil a cada três meses para operadoras do bicho, e a Cide-Jogos, contribuição de até 17% sobre a receita bruta, a diferença entre o valor das apostas e prêmios pagos. O apostador também entraria na mira de outro leão, já que os ganhos acima de R$ 10 mil teria 20% de Imposto de Renda descontados.

Em tese, o modelo formaliza um mercado paralelo, gera arrecadação e empregos, e enfraquece o crime. Estimativas miram para investimentos na casa dos R$ 100 bilhões, a criação de cerca de 1,5 milhão de empregos e arrecadação potencial de R$ 22 bilhões/ano. Na prática, estudos apontam efeitos colaterais, como vício em jogo, endividamento e famílias em situações financeiras complicadas, com prejuízos que podem superar a renda.

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