A Guerra do Frango

Como Marcos Molina venceu uma batalha de 10 anos pela BRF e selou a criação de um novo império da carne

Na primeira sexta-feira de setembro de 2025, o plenário do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou por unanimidade a fusão entre a Marfrig e a BRF. A cena parecia burocrática, com conselheiros confirmando votos em um processo transmitido pela internet. Aquele clique no botão de aprovação, no entanto, encerrava mais de uma década de disputas, reviravoltas e batalhas societárias que transformaram a maior empresa de aves e suínos do país em um palco de guerra corporativa.

O nascimento da MBRF Global Foods, gigante que já passa a ter faturamento anual de R$ 152 bilhões e presença em mais de 100 países, foi além da soma de ativos e marcas. Representou o capítulo final de uma história na qual se enfrentaram fundos de pensão, executivos de perfil global e empresários obstinados, cada qual com uma visão própria do que a BRF deveria ser. Marcas como Sadia, Perdigão e Qualy viraram peças de um tabuleiro no qual se jogava o futuro da indústria de alimentos no Brasil.

Neste contexto, três forças se destacaram. De um lado, os fundos de pensão Previ, dos funcionários do Banco do Brasil, e o Petros, da Petrobras, com acionistas poderosos que tentaram impor a visão de estabilidade e prudência durante anos. Do outro, o empresário Abilio Diniz, que em 2013 chegou à presidência do conselho da BRF com a promessa de transformá-la na “Ambev dos alimentos”, replicando a fórmula de cortes, meritocracia e fortalecimento de marcas que consagrou a gigante das cervejas. No meio disso, estava o dono da Marfrig, Marcos Molina, que esperou o momento certo para avançar sobre a rival e costurar a fusão que daria origem a um novo império.

O fio condutor dessa guerra pelo frango é a sucessão de tentativas de moldar a BRF a diferentes projetos de poder. Primeiro, o sonho de Abilio, que parecia possível, mas se dissolveu diante da realidade da agroindústria. Depois, a reação dos fundos, que retomaram o controle, mas viram a empresa perder relevância. Por fim, a entrada gradual de Molina, que soube usar o enfraquecimento da companhia para fortalecer um movimento de consolidação global.

Abilio e sonho da “Ambev dos alimentos”

O empresário, recém-saído do embate familiar pelo controle do Pão de Açúcar, ressurgiu com um novo projeto em 2013. Com o apoio da Previ, dos funcionários do Banco do Brasil, da Petros, da Petrobras, e do fundo Tarpon, Abilio Diniz assumiu a presidência do conselho da BRF. O objetivo era replicar na indústria alimentícia o modelo de gestão que tornou a Ambev em um império.

Cortes de custos, meritocracia na gestão e expansão internacional agressiva. A criação da One Foods, braço voltado ao mercado muçulmano, simbolizava o alcance global que Diniz pretendia dar à companhia. No discurso, a BRF deveria se comportar como uma empresa de consumo de massa, focada em marcas fortes, margens altas e eficiência operacional.

Neste ideal, esbarrou no problema de que a BRF não era uma cervejaria, mas sim uma agroindústria que dependia de milho, soja, frango e porco, com variáveis sujeitas à instabilidade climática, cambial e logística. 

Em meio às margens instáveis e desafios estruturais, um choque de realidade abalou a empresa em 2016. A BRF registrou o primeiro prejuízo da história, de R$ 372 milhões, e viu o valor de mercado cair quase pela metade. O modelo inspirado na Ambev mostrava-se inadequado para a complexidade da cadeia agroindustrial.

Enquanto Abilio defendia o foco em marcas, analistas cobravam atenção ao DNA da companhia, que era basicamente criar, abater e distribuir a carne. A crise foi agravada por escândalos como as operações Carne Fraca e Trapaça, que atingiram a credibilidade do setor.

O sonho da “Ambev dos alimentos” começou, então, a se desfazer e a sinergia entre Abilio e os fundos de pensão virou um confronto aberto.

A revanche dos fundos

A Previ e a Petros, principais acionistas institucionais da BRF, decidiram reagir. Com perdas bilionárias nos balanços divulgados, pressionaram pela saída de Abilio Diniz e passaram a indicar conselheiros que devolvessem a empresa a uma rota mais conservadora. O embate resultou em uma gestão fragmentada, com diretores entrando e saindo e estratégias sendo revistas a cada semestre.

No curto prazo, os fundos venceram essa queda de braço, retomando o espaço no conselho e comemorando a saída de Abilio da presidência do conselho, em 2018. Mesmo assim, a BRF continuava enfraquecida, cheia de dívidas e sem clareza estratégica.

Molina entra no jogo

Foi diante deste cenário que Marcos Molina, dono da Marfrig, enxergou uma oportunidade. Em maio de 2021, comprou mais de 20% da BRF de uma só vez, desembolsando cerca de US$ 1 bilhão. O movimento surpreendeu o mercado e colocou a BRF em nova rota de disputas.

Para reorganizar a companhia, Molina promoveu dois aumentos de capital, somando R$ 5,4 bilhões, ambos ancorados por ele, abrindo caminho para uma limpeza interna. Problemas operacionais crônicos foram prontamente encarados, como estoques mal geridos que causavam perdas mensais de R$ 100 milhões

Sob gestão de Miguel Gularte, designado por Molina, a BRF voltou a registrar lucro, reduziu a alavancagem e recuperou a competitividade. O objetivo era fortalecer a BRF e, no momento certo, fundi-la à Marfrig, criando uma gigante das proteínas.

Resistências e recuos

A escalada de Molina, no entanto, encontrou resistência pelo caminho. A Petros foi a primeira a se indispor contra a tomada de controle silenciosa, criticando os aumentos de capital e alertando para a diluição dos acionistas minoritários. A oposição logo perdeu fôlego e, aos poucos, o fundo reduziu a participação até desaparecer do bloco relevante de acionistas.

A Previ, em 2025, foi mais combativa e tentou barrar a fusão com a Marfrig, acionando a Justiça e a CVM para suspender as assembleias. Depois de semanas de tensão, optou por vender a fatia de 4,93% por cerca de R$ 1,9 bilhão no mês de julho, encerrando uma presença histórica na BRF.

Nos bastidores, especula-se que o próprio Molina teria absorvido parte dessas ações. Oficialmente, os papéis foram parar em fundos ligados ao BTG Pactual.

MBRF: segunda maior do setor

Com as resistências controladas, Molina conseguiu o que buscava há mais de uma década. No dia 5 setembro de 2025, o Cade deu aval para a criação da MBRF Global Foods, fruto da união da Marfrig com a BRF.

O novo grupo nasce com produção anual de 8 milhões de toneladas de alimentos e presença em 117 países, consolidando-o como o segundo maior do setor, atrás apenas da rival JBS. Os próximos passos incluem também abrir capital em Nova Iorque, como fez a JBS, recém-listada em Wall Street. Para Molina, é também uma redenção, já que em 2013 vendeu a Seara para salvar a Marfrig e, em 2025, retorna ao topo com a Sadia e a Perdigão no portfólio.

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