Enquanto grandes bancos como Itaú, Bradesco e Santander disputam o varejo bancário oferecendo produtos e serviços financeiros a pessoas físicas, há um exército de bancos de médio porte e grupos familiares que se enriqueceram com o crédito consignado. Neste cenário, instituições como BMG e Daycoval construíram fortunas, fazendo aquisições e parcerias para consolidar a posição no mercado.
O fácil acesso tornou o crédito consignado uma das opções de empréstimo mais populares no Brasil, principalmente para quem busca um financiamento com juros mais baixos. As parcelas são descontadas diretamente na folha de pagamento do trabalhador, do aposentado ou dos pensionistas do INSS.
A diferença para que bancos de menor porte crescessem frente a atuação dos bancos tradicionais é que eles têm um foco maior em produtos específicos, como cartão de crédito consignado e empréstimos para aposentados e servidores públicos, com limites mais altos, taxas reduzidas e menor exposição ao risco de inadimplência.
Traduzindo o cenário em números recentes, o Banco BMG atingiu R$ 26,8 bilhões na carteira de crédito no primeiro trimestre de 2025, desses, 61% são consignados. Em relação a 2024, a carteira cresceu 7,8% impulsionado pelos produtos de crédito consignado e o crédito na conta
Com foco mais voltado para o crédito a empresas, o Banco Daycoval chegou a R$ 62,2 bilhões no primeiro trimestre de 2025 na carteira de crédito, dos quais R$ 16 bilhões são de consignado, um aumento de 12,8% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O modelo de negócio
As fortunas desses bancos de médio porte foram construídas basicamente em nichos específicos, como o do crédito consignado, que oferece um risco menor e maior previsibilidade de recebimento, com o desconto direto na folha de pagamento dos clientes.
Tal modelo é muito vantajoso para as instituições financeiras, já que risco de inadimplência das pessoas físicas e jurídicas é bastante reduzido. Essa segurança de recebimento permite à instituição financeira oferecer juros menores e, ainda assim, ter lucro sustentável a partir das taxas cobradas.
Com a demanda crescente, foi preciso expandir portfólios, diversificar fontes de financiamento através de plataformas de investimento e dedicar tempo e dinheiro em tecnologia para atrair e atender uma base de clientes cada vez mais ampla e diversificada. Além disso, esses bancos enxergaram uma boa oportunidade ao direcionar também o crédito para empresas.
Através de uma boa gestão de custos, o foco na rentabilidade e a expansão de serviços financeiros tornaram essas instituições sólidas e lucrativas.
Como o consignado virou uma “mina de ouro” no Brasil
Uma combinação de fatores ajudou a transformar o empréstimo consignado em uma verdadeira “mina de ouro” no Brasil. O modelo é extremamente atrativo para as instituições financeiras por conta da garantia de pagamento e da menor exposição ao risco de inadimplência.
Com menor risco, esses bancos podem oferecer taxas de juros mais baixas e expandir a atuação para novos públicos, indo além dos aposentados e servidores públicos e entrando no setor privado. As taxas do consignado são significativamente mais baixas do que as de outras modalidades de crédito, como o cheque especial e o cartão de crédito tradicional.
A rentabilidade fica ainda maior para as instituições com a criação de novos produtos, como o cartão de crédito consignado. Ele oferece uma linha de crédito com taxas mais baixas que o cartão de crédito convencional, permitindo assim que o banco gere receita com taxas e juros variáveis.
Pensando pelo lado da praticidade, a aposta em tecnologias e plataformas de fácil acesso ao crédito pelo cliente ajudou na consolidação do modelo. Atualmente, é possível contratar o crédito através de aplicativos dos bancos e até mesmo pela Carteira de Trabalho Digital, democratizando o processo para os consumidores.
Essa pulverização, principalmente tecnológica, aumentou a concorrência e beneficia o contratante, uma vez que são oferecidas condições cada vez mais vantajosas. Mesmo assim, os bancos e fintechs continuam lucrando.
Novo capítulo e bastidores nas disputas com grandes bancos
A disputa pelo crédito consignado ganhou um novo capítulo em 2025, impulsionado pela ampliação do modelo para trabalhadores do setor privado com carteira assinada (CLT). Com a entrada do chamado crédito consignado privado, o mercado apresenta um cenário de maior portabilidade e concorrência mais acirrada, pressionando por taxas de juros mais baixas.
Qualquer dívida consignada pode ser transferida para instituições que ofereçam condições mais vantajosas para o contratante, aumentando a disputa pela carteira de clientes. Grandes bancos, fintechs e outras instituições do setor financeiro competem diretamente para atrair trabalhadores com ofertas mais agressivas e juros reduzidos.
Esse movimento força os bancos tradicionais a repensarem as estratégias, já que a confiança na marca não é sinônimo de garantia de fidelidade. Para reter o cliente, é preciso ir além, com condições concretas e transparentes de crédito. O consumidor CLT, então, ganha mais poder de escolha e melhores oportunidades para renegociar as dívidas ou contratar novos empréstimos.
Crédito do Trabalhador: o que muda com a Lei 15.179/2025
A Lei 15.179/2025, que entrou em vigor em julho de 2025, representa um avanço significativo na modernização do mercado de crédito consignado ao ampliar a gama de beneficiários e facilitar o processo de contratação. A Lei atualizou as regras do crédito consignado no Brasil e marca um passo importante na consolidação do setor, principalmente no que diz respeito ao acesso de trabalhadores do setor privado.
A nova norma formaliza a criação da plataforma digital Crédito do Trabalhador, que centraliza e facilita o acesso ao crédito consignado para diversos perfis de trabalhadores, incluindo empregados com carteira assinada, microempreendedores individuais, empregados domésticos, motoristas e entregadores de aplicativo e trabalhadores rurais.
Os empréstimos, então, passam a poder ser contratados de forma digital por meio dos canais dos próprios bancos ou pelo aplicativo da Carteira de Trabalho Digital. A medida desburocratiza o processo e amplia a inclusão financeira, permitindo que milhões de trabalhadores possam acessar crédito com condições mais justas. A centralização da oferta por meio da plataforma também garante mais transparência, concorrência e segurança para os consumidores, ao permitir que diferentes instituições financeiras apresentem as propostas de forma direta e comparável.