Construção civil em forte ritmo de alta, obras com cifras bilionárias em execução, grandes projetos voltados para a Copa do Mundo e a Olimpíada e muitas ofertas de trabalho para engenheiros. Esse era o cenário pré-Operação Lava Jato no Brasil.
Iniciada em 2014, a operação contou com diversas fases até 2021 e revelou esquemas de corrupção nas maiores empreiteiras do país, desencadeando uma crise no setor de construção civil. Muitas empresas venderam ativos e outras até pediram recuperação judicial para se manterem de pé ou, simplesmente, se reerguerem.
Enquanto grandes construtoras, como Odebrecht, Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa, que lideravam projetos, licitações e leilões de infraestrutura, usinas, rodovias, terminais e estádios, caíam diante dos escândalos, outras cresceram em meio à poeira, ganhando disputas antes dominadas pelo trio.
O fato é que a Lava Jato alterou de maneira significativa o mercado da construção civil no Brasil. Concessões e parcerias público-privadas, agora, ditam o novo ritmo do mercado de infraestrutura no país.
Empresas de médio e pequeno porte, por exemplo, precisaram se adaptar para competirem de frente com as estrangeiras, que ganham cada vez mais espaço. Dez anos depois da Lava Jato, apenas seis das 20 maiores empreiteiras brasileiras continuam nesse mesmo ranking, o que demonstra o impacto da Lava Jato no setor.
As gigantes em crise
Era quase impossível imaginar uma licitação sem que uma das três gigantes estivesse, pelo menos, no páreo. Geralmente, estavam entre as vencedoras das grandes obras no Brasil e até mesmo fora. Essa tríade, no entanto, implodiu e levou os principais nomes da construção final à uma verdadeira crise.
Odebrecht

Fundada em 1944, a Construtora Norberto Odebrecht (CNO), conhecida apenas como Odebrecht por muito tempo, foi o principal alvo da operação Lava Jato em 2014, com a investigação do pagamento de propina em contratos de obras e serviços para a Petrobras.
A construtora, que chegou a ser uma das maiores empreiteiras de obras públicas e privadas da América Latina, entrou com pedido de recuperação judicial após dívidas de mais de R$ 90 bilhões. Mudou de nome, passou a se chamar OEC e sobreviveu principalmente pela Braskem, uma petroquímica da holding Novonor, que também controla a construtora.
Andrade Gutierrez

A Andrade Gutierrez foi outra empresa que sofreu forte encolhimento e precisou vender ativos e cortar custos, como a redução de 30% do quadro de funcionários à época, para se manter. Tão logo perdeu espaço em grandes obras, perdeu também o porte de antes dos anos 2000.
Diferentemente da Odebrecht, a Andrade Gutierrez, fundada em 1948, manteve o mesmo nome, mas ainda tenta recuperar a imagem após escândalos e desvio de dinheiro público escancarados pela Lava Jato.
Camargo Corrêa

A Camargo Corrêa também saiu do foco ao reduzir a atuação em obras e ao vender alguns dos principais ativos, como o controle da Alpargatas para a J&F, em 2015, por R$2,7 bilhões. Ainda vendeu uma fatia de 23% do bloco de controle da CPFL Energia, avaliado em R$ 5,85 bilhões.
Investigada na Lava Jato com acusações de corrupção e pagamento de propina em contratos com a Petrobras, a Camargo Corrêa mudou de nome em 2018 e passou a se chamar Mover, para mudar a imagem e se distanciar dos efeitos negativos da Operação.
Os novos vencedores
Com os grandes fora da corrida, sobrou espaço para novos postulantes ao lugar mais alto do pódio. Empresas regionais, de médio porte e menos expostas a escândalos diversificaram o portfólio, ampliaram a participação em contatos menores e ganharam mercado da infraestrutura no Brasil. As empresas estrangeiras também passaram a participar de forma mais ativa das licitações e obras públicas no país.
A Construtora Barbosa Mello, de Minas Gerais, foi uma dessas empresas, ampliando a presença em obras de saneamento, energia e concessões estaduais. Desde 2013, configura como destaque entre as Melhores e Maiores Empresas do Brasil da Revista Exame, sendo a primeira colocada no ranking em produtividade no setor da Indústria e Construção Civil.
Com vários prêmios e reconhecimentos pela inovação, uma solução de engenharia apresentada pela empresa como case revoluciona a execução de obras em áreas críticas, com tecnologias para aumentar a eficiência e eliminar os riscos.
A Aterpa, também de Minas Gerais, cresceu em concessões e projetos de infraestrutura urbana e construção pesada, principalmente em Minas e no Centro-Oeste pós-Lava Jato e, mais recentemente, na região Norte. Em fevereiro de 2025, o Grupo Aterpa venceu o leilão da Rota Agro Norte, na BR-364/RO, uma rodovia federal concedida à gestão privada com trecho de 686,7 km e que compreende mais de 10 municípios em Rondônia, incluindo a capital Porto Velho.
Com visão sustentável, a Aterpa, que faz parte do Grupo Aterpa, utiliza equipamentos 100% elétricos, por exemplo.
As empresas Acciona e Sacyr, da Espanha, além de outras estrangeiras, aproveitaram o espaço deixado pelas gigantes brasileiras em obras públicas, principalmente nas obras de metrô e saneamento. Ao passo que empresas de fora começaram a ganhar espaço, as empresas nacionais foram forçadas a se adaptarem à nova realidade do mercado.
Concessões e PPPs como salvação
A Lava Jato provocou uma mudança na forma como projetos de infraestrutura são estruturados e contratados no Brasil desde então. Os modelos de concessões e Parcerias Público-Privadas (PPPs) foram propulsores para novas obras no país, com a perda da capacidade de investimento do setor público.
Nas concessões comuns, o investimento é privado e a empresa responsável pela obra obtém retorno exclusivamente através de tarifas pagas pelos usuários. Esse modelo de concessão diminui as possibilidades de imoralidades entre o poder público e o setor privado.
As PPPs, por outro lado, contam com recursos públicos no pagamento de parte do serviço. Isso torna viável projetos nos quais as tarifas pagas pelos dos usuários não custeiam tudo.
Projetos de rodovias, saneamento, metrôs e energia passaram a ser os grandes contratos, abrindo espaço para grupos que sabiam estruturar e operar concessões. Assim, grupos estrangeiros, como Acciona, Ferrovial e China Communications, passaram a disputar espaço com os brasileiros.
O novo mapa da infraestrutura
O protagonismo claramente saiu do trio da Lava Jato e se pulverizou. Odebrecht, Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa, cada um à sua maneira, ainda tentam desvincular a imagem e seguir os negócios. A Odebrecht, que “retomou” o nome original em 2025 após aprovação do plano de recuperação judicial e redução de dívidas, por exemplo, segue nesta busca e está novamente habilitada a trabalhar para o governo desde 2024.
Atualmente, o mercado é formado por players médios nacionais e estrangeiros que avançaram fundos que entraram em concessões. Empresas como CCR, EcoRodovias, Iguá Saneamento e Aegea também se fortaleceram, ligando concessões à gestão de infraestrutura.
O setor privado tem liderado os investimentos em infraestrutura, com um recorde de R$ 260 bilhões em 2024, com expectativa ainda maiores para 2025, ultrapassando mais de 70% dos R$ 277,9 bilhões totais previstos, impulsionado por leilões de concessão de rodovias e ferrovias.
Apesar dos desafios, o Brasil está em um momento de transformação na infraestrutura, com foco também na modernização e eficiência.