
SÃO PAULO — A indústria global de tintas passa por uma de suas maiores reconfigurações dos últimos anos. A Sherwin-Williams, maior fabricante de tintas dos Estados Unidos e uma das líderes globais do setor, anunciou, nesta segunda-feira (17), a aquisição da Suvinil, principal marca de tintas decorativas do Brasil, pertencente à BASF, por US$1,15 bilhão (cerca de R$6,56 bilhões pelo câmbio atual). O acordo, que inclui também a marca Glasu! e as unidades fabris da Suvinil em Jaboatão dos Guararapes (PE) e São Bernardo do Campo (SP) é a maior transação da empresa americana na América Latina.
A compra, que será feita integralmente em dinheiro, ainda depende da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) e deve ser concluída no segundo semestre de 2025.
Com essa compra, a Sherwin-Williams expande significativamente sua atuação no mercado brasileiro, incorporando uma empresa com mais de 60 anos de tradição e que, sozinha, responde por 35% do mercado de tintas no Brasil, um setor que movimenta cerca de R$12 bilhões por ano. Em 2024, a Suvinil registrou uma receita de aproximadamente US$525 milhões.
“Há mais de seis décadas, a Suvinil é sinônimo de inovação e qualidade no Brasil. Esse negócio é altamente complementar ao da Sherwin-Williams na América Latina, e a marca Suvinil é amplamente conhecida e confiável”, afirmou Heidi G. Petz, CEO global da Sherwin-Williams, em comunicado.
A BASF, por sua vez, justificou a venda alegando que sua operação no segmento de tintas decorativas estava concentrada exclusivamente no Brasil, sem sinergias com outras divisões da companhia. “Este negócio opera quase exclusivamente no Brasil e tem sinergias limitadas com os demais negócios de revestimentos da BASF”, declarou Anup Kothari, membro do conselho executivo da companhia alemã e responsável pela divisão de revestimentos.
A compra faz parte de uma movimentação global de consolidação do setor de tintas, que vem registrando diversas aquisições nos últimos anos. O mercado brasileiro é um dos maiores e mais atrativos do mundo para o segmento, tanto pelo tamanho quanto pelo potencial de crescimento impulsionado pelo setor da construção civil.
Por Que a BASF Decidiu Vender?

A BASF é um dos maiores conglomerados químicos do mundo, com presença global em setores como químicos de alta performance, plásticos de engenharia, biotecnologia agrícola e revestimentos industriais e automotivos. No entanto, diferentemente de concorrentes como a PPG Industries e a própria Sherwin-Williams, sua atuação no mercado de tintas decorativas sempre foi limitada.
A Suvinil era a única operação de tintas decorativas da BASF no mundo, restrita exclusivamente ao mercado brasileiro. Enquanto outras multinacionais do setor têm presença global nessa categoria, a BASF manteve sua atuação concentrada apenas no Brasil, sem expandir a marca para outros países.
Isso fez com que a divisão operasse de forma isolada dentro da estrutura global da BASF, sem sinergias significativas com outras unidades de negócio. O setor de tintas decorativas exige alto volume de vendas, margens ajustadas e forte investimento em marketing e distribuição – um modelo muito diferente do restante do portfólio da BASF, que está mais focado em produtos químicos de maior valor agregado e especialidades industriais.
Nos últimos anos, a empresa alemã vem passando por uma reorganização global, direcionando investimentos para segmentos considerados mais estratégicos e rentáveis, como químicos de alta tecnologia, plásticos avançados e biotecnologia agrícola. Com isso, a operação de tintas decorativas no Brasil passou a ser vista como um ativo sem alinhamento estratégico com os objetivos de longo prazo da companhia.
Em setembro de 2024, a BASF anunciou oficialmente a intenção de vender sua divisão de tintas decorativas, iniciando um processo competitivo que atraiu diversos interessados, incluindo a PPG Industries – concorrente direta da Sherwin-Williams – e fundos de private equity.
No entanto, as negociações com a Sherwin-Williams avançaram mais rapidamente, resultando na assinatura do contrato de venda em fevereiro de 2025. O negócio marca a saída definitiva da BASF do setor de tintas decorativas, reforçando seu foco em químicos industriais e revestimentos automotivos e industriais, áreas onde ainda mantém uma posição de destaque global.
“A BASF está realocando seu capital para segmentos onde temos liderança tecnológica e forte presença global”, afirmou a empresa em comunicado sobre a venda.
A transação foi realizada com um múltiplo de valuation entre 13% e 14% sobre a receita anual da Suvinil, um valor considerado competitivo dentro do setor. O Citi e os escritórios de advocacia Jones Day e BMA assessoraram a Sherwin-Williams na negociação, enquanto a BASF contou com o Deutsche Bank e os escritórios Linklaters e Todorov, Giannini & Nisiyama.
A importância da Suvinil no mercado brasileiro

Fundada em 1961, a Suvinil surgiu como um empreendimento do empresário Olócio Bueno, que já atuava no setor de tintas com a marca Super. O nome Suvinil foi uma combinação de Super + Vinil, destacando a tecnologia da época que diferenciava seus produtos no mercado.
O sucesso da marca chamou a atenção da BASF, que adquiriu a empresa em 1969, incorporando-a ao seu portfólio e transformando a Suvinil na líder absoluta do setor de tintas decorativas no Brasil.
Hoje, a Suvinil possui um market share de 35%, à frente de marcas como Coral (da AkzoNobel) e Sherwin-Williams, que ocupa a terceira posição no país com aproximadamente 6% do mercado.
Com unidades fabris em São Bernardo do Campo (SP) e Jaboatão dos Guararapes (PE), a Suvinil atende todo o Brasil e exporta para outros países da América Latina. A marca se firmou por sua forte presença no varejo, sendo amplamente distribuída em lojas de materiais de construção e home centers, além de contar com um forte relacionamento com pintores profissionais e consumidores finais.
O que muda para a Sherwin-Williams?
A aquisição da Suvinil representa um passo fundamental para a Sherwin-Williams. Apesar de ser uma das maiores fabricantes de tintas do mundo, com operações em mais de 120 países, sua participação no Brasil ainda era relativamente limitada.
Com a compra, a americana assume a liderança do mercado brasileiro de tintas, elevando sua participação de 6% para aproximadamente 41%
A transação também oferece à Sherwin-Williams uma infraestrutura de produção, reduzindo a necessidade de investimentos adicionais em fábricas e distribuição. Além disso, a empresa terá acesso a uma marca forte, eliminando a necessidade de investir pesadamente em construção de marca e fidelização de clientes.
A expectativa é que a integração das operações gere grandes sinergias operacionais, permitindo uma redução de custos e um aumento da rentabilidade no longo prazo.
“A Sherwin-Williams pretende financiar a aquisição com recursos próprios e novas captações de dívida, aproveitando sua forte posição financeira e a liquidez disponível em linhas de crédito existentes”, informou a empresa.
Desafios e aprovação regulatória
Embora a compra da Suvinil represente uma boa oportunidade para a Sherwin-Williams, o negócio ainda precisa passar pelo crivo do CADE.
No entanto, especialistas acreditam que a operação não deve enfrentar grandes barreiras regulatórias. Isso porque, apesar de adquirir a líder do mercado, a Sherwin-Williams ainda enfrentará concorrência de outros grandes players, como a AkzoNobel (Coral) e a PPG Industries.
“A Sherwin-Williams é a terceira maior no mercado brasileiro, com cerca de 6% de participação. Com a aquisição da Suvinil, ela se torna a maior, mas ainda existe um ambiente de concorrência no setor. Não há um monopólio evidente”, afirmou uma fonte próxima às negociações.
Agora, resta acompanhar os próximos passos e como a Sherwin-Williams vai integrar a Suvinil em sua operação global. Se bem executada, essa aquisição pode se tornar um dos maiores cases de sucesso do setor nos últimos anos.