Quando se pensa em realeza no esporte global, nomes como Real Madrid, Manchester United ou a escuderia Ferrari vêm à mente. São marcas centenárias com uma legião de fãs. No entanto, se a conversa muda de paixão para valuation, ou seja, o valor de mercado das equipes, a coroa cai das chuteiras e vai para capacetes. É lá, na NFL (liga de futebol americano dos Estados Unidos), que está o novo trono.
No ranking anual mais recente da revista Forbes, os Dallas Cowboys são a entidade esportiva mais valiosa do planeta, com valuation estimado em US$ 13,0 bilhões, superando em larga margem clubes tradicionais de outros esportes.
Enquanto isso, o futebol europeu segue dominando em paixão, mas longe no valuation: o Real Madrid, tradicionalmente o clube de futebol mais valioso do mundo, está avaliado em US$ 6,75 bilhões, pouco mais da metade do valor dos Cowboys.
O domínio americano não é um caso isolado. Franquias da NBA (liga de basquete dos EUA), como o Golden State Warriors, já atingem valuations de cerca de US$ 11 bilhões, e times da MLB (liga de beisebol americana), como o New York Yankees, giram em torno de US$ 8,2 bilhões.
Essa diferença gritante levanta uma pergunta crucial no universo dos negócios esportivos: esse valor astronômico é lastro genuíno ou bolha inflada por expectativas? A resposta começa quando entendemos que o modelo americano de esporte é radicalmente diferente.
Os números da disparidade
A disparidade financeira fica evidente quando comparamos receitas e estruturas de negócio. A NFL continua sendo a liga esportiva mais rentável do planeta, com receitas que, segundo estimativas de fontes especializadas, ultrapassam US$ 20 bilhões por temporada.
Em comparação, as principais ligas europeias de futebol, como Premier League, La Liga, Bundesliga, Serie A e Ligue 1, mesmo combinadas, têm receitas substancialmente menores. Por exemplo, a Premier League gerou cerca de £ 6,3 bilhões (aproximadamente US$ 8,5 bilhões) na temporada 2023/24.
Ainda que a receita total do futebol europeu seja gigantesca no contexto global (estimada em dezenas de bilhões de euros por temporada), o mecanismo de divisão de receitas e a volatilidade financeira dos clubes criam um cenário bem distinto dos esportes americanos.
Lastro ou bolha?
As franquias americanas não dependem apenas de torcida ou da nostalgia. Elas operam como máquinas de lucro. Na NFL, todas as 32 franquias são lucrativas e a receita média por equipe cresceu consistentemente ao longo da última década
O próprio Dallas Cowboys ilustra essa realidade. Além de valer US$ 13 bilhões, reportou receita de aproximadamente US$ 1,2 bilhão e lucro operacional de cerca de US$ 629 milhões na última temporada disponível.
O componente inflacionário
Mesmo com fundamentos fortes, existe também um elemento especulativo no valuation das franquias americanas. Transações recentes, como a venda de participações em times da NFL ou da NBA, mostram múltiplos de receita muito mais altos do que os observados no futebol europeu. Isso é reflexo da confiança dos investidores na estabilidade e crescimento contínuo dessas ligas.
No futebol europeu, clubes da elite muitas vezes são negociados por múltiplos de cinco a seis vezes sua receita, enquanto nos EUA esse número costuma ser bem maior, impulsionado pela expectativa de fluxos de receita garantidos a longo prazo.
Por que o modelo americano é uma mina de ouro?
1. Ligas fechadas e escassez artificial
Nos esportes americanos, não existe rebaixamento. Time nenhum perde seu lugar na elite pelo desempenho esportivo ruim. Isso garante uma estabilidade de receita rara no futebol europeu, onde quedas de divisão podem dizimar as contas. Além disso, o número de franquias é limitado, criando escassez e valorização natural dos ativos.
2. Receitas compartilhadas igualmente
As ligas americanas negociam coletivamente direitos de mídia e patrocinadores e essas receitas são distribuídas igualmente entre todos os times. Na NFL, acordos de mídia bilionários garantem que até as equipes menores recebam um piso robusto de receitas.
3. Controle de custos com “salary caps”
Ao contrário do futebol europeu, que vive sob pressões para gastar grandes somas em salários para competir em ligas e competições continentais, as ligas americanas impõem tetos salariais que limitam os gastos com atletas, um mecanismo que protege a saúde financeira das franquias.
Curiosamente, um movimento semelhante de teto de gastos foi adotado na Fórmula 1 em 2021, resultando em uma valorização média das escuderias de cerca de 276% em quatro anos, mostrando o potencial de impacto dessa medida na sustentabilidade financeiramente valorizada.
4. Arenas como centros de lucro
Nos EUA, estádios e arenas são concebidos como centros de experiência e lucro. Ingressos caros, camarotes, alimentação, merchandising e eventos não esportivos transformam o dia de jogo em uma mina de receita por torcedor, algo que clubes europeus muitas vezes não conseguem replicar com a mesma eficiência.
No fim, o jogo é outro
Os valuations estratosféricos das franquias americanas não são acidentes de percurso. Eles são o resultado de um ecossistema projetado para transformar o esporte em um ativo financeiro de baixo risco e alto retorno. Enquanto no futebol europeu se corre atrás da glória esportiva, muitas vezes assumindo riscos financeiros gigantescos, nas ligas americanas o jogo é outro: lucro, estabilidade e valorização garantida. No placar dos negócios, esse é o jogo que está valendo bilhões.