O Xadrez da Vibra Energia

Disputa por ativos bilionários, fragilidades financeiras da Cosan, aporte recente do BTG e apetite da Vibra movimentam o maior distribuidor de combustíveis do Brasil.

O mercado brasileiro de combustíveis, historicamente concentrado e sujeito à influência direta da Petrobras, entra em mais uma rodada de disputas discretas entre gigantes. No centro está a Vibra Energia, maior distribuidora do país, que nasceu como BR Distribuidora e era controlada pela estatal até 2019. Transformada em empresa privada de capital aberto, a Vibra responde por milhares de postos espalhados pelo país e busca diversificar as receitas em segmentos como energia renovável, lubrificantes e soluções para o mercado B2B.

Do outro lado do tabuleiro está a Cosan, um conglomerado multifacetado com operações que vão de açúcar e etanol à logística ferroviária, passando pelo gás natural, lubrificantes e distribuição de combustíveis por meio da Raízen, um empreendimento em conjunto com a Shell. A Cosan administra ainda a Moove, companhia que detém a licença da marca Mobil no Brasil e que se tornou um ativo estratégico com projeção internacional.

A essa disputa somou-se um terceiro peão, o BTG Pactual. O banco de investimentos comandado por André Esteves demonstrou interesse em ganhar espaço dentro da Cosan e, em meio aos rumores que agitaram o mercado, finalmente conseguiu após liderar investimento de R$ 10 bilhões na empresa e entrar no controle. Antes mesmo da efetivação, no dia 20 de setembro.

Quem ganha e quem perde nesse jogo? A possível venda da Moove, o avanço da Vibra sobre novos mercados, o aporte do BTG na Cosan e a sombra do retorno da Petrobras ao varejo de combustíveis formam um xadrez complexo, no qual cada peça é movida com cautela e estratégia.

Moove no centro da disputa

Braço de lubrificantes da Cosan, a Moove controla a marca Mobil no Brasil e vem expandindo a atuação em mercados internacionais. Trata-se de um ativo valioso, com margens relevantes e forte presença no segmento B2B.

Em meados de 2025, a Vibra Energia iniciou conversas para adquirir a totalidade da empresa. O fundo CVC, dono de cerca de 30% da Moove, teria interesse em vender a participação, abrindo espaço para a sondagem. Ainda assim, tanto a Vibra, quanto a Cosan, divulgaram comunicados oficiais afirmando que não há acordo firmado ou compromisso.

Para analistas de mercado, o eventual negócio traria riscos e oportunidades. A Moove já foi avaliada em múltiplos de seis a sete vezes o seu Ebitda, patamar próximo ao que a Cosan buscava em 2024 com a tentativa de se tornar uma empresa de capital aberto e vender ações na bolsa de valores. Se a Vibra concretizar a aquisição, ampliaria a verticalização e se tornaria menos dependente da distribuição de combustíveis, mas também aumentaria a alavancagem em um momento de margens pressionadas.

BTG e Cosan: dos rumores à efetivação

As especulações sobre a entrada do BTG no capital da Cosan ganharam força após reportagens apontarem que André Esteves poderia se tornar co-controlador do grupo. A versão oficial, até então, desmentia essa possibilidade. Tanto a Cosan, quanto o BTG, afirmaram à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no início de setembro que não havia negociação em curso.

A Cosan é dona de ativos estratégicos e, ao mesmo tempo, sinalizou recentemente a intenção de rever o portfólio como parte de uma estratégia de desalavancagem. Em tese, uma associação com um sócio financeiro robusto como o BTG poderia acelerar esse processo. Qualquer mudança no controle, no entanto, geraria custos de governança e poderia alterar o equilíbrio de forças dentro do conglomerado.

O silêncio estratégico, aliado aos comunicados formais para desmentirem quaisquer movimentos, reforçava a impressão de que este era um jogo com várias etapas, com sondagens de bastidores, cálculos de valuation e testes de resistência no mercado antes de qualquer avanço.

O jogo ganhou um novo capítulo no dia 20 de setembro. O BTG liderou um aporte de R$ 10 bilhões para reestruturar a dívida da Cosan. A recente operação coloca o banco BTG como acionista majoritário, mas não no controle.

O aumento de capital serve como reorganização de caixa e como reposicionamento político no tabuleiro de Rubens Ometto, o empresário que construiu um império do açúcar, do etanol e dos dutos pela Cosan. Tão logo saiu o anúncio, a empresa apressou-se em dizer que o aporte não vai irrigar a Raízen, sua joint venture com a Shell. A capitalização da distribuidora de combustíveis ainda depende de negociações separadas com os ingleses. A injeção bilionária, portanto, mira a própria holding, cujo endividamento crescente vinha incomodando acionistas e credores.

Esse movimento coloca lado a lado três atores. De um lado, a Aguassanta, o family office de Ometto. Do outro, o BTG Pactual, que entra com R$ 4,5 bilhões, com boa parte vinda da própria partnership que controla a instituição. E, por fim, a Perfin, gestora de Ralph Rosenberg, dona de R$ 13,7 bilhões sob administração, que aporta R$ 2 bilhões. A Aguassanta completa o pacote com R$ 750 milhões.

O acordo é amarrado por um contrato de acionistas com prazo de 20 anos. Há cláusulas de lockup, que é um período de carência contratual durante o qual acionistas são proibidos de vender as suas ações de uma empresa, de quatro anos para evitar fugas precoces. Na nova organização, Aguassanta, BTG e Perfin passam a deter 55% da Cosan. O restante, 45%, segue no free float, disponível para negociação pública no mercado.

Apesar dos novos números, Ometto mantém 50,01% e garante o controle da empresa. Tal controle se dilui, mas a chave do cofre ainda tem dono. De toda forma, os novos sócios reforçam estruturas para atravessar a temporada de endividamento pesado sem perder o trono.

Vibra para além das fronteiras

A Vibra continua crescendo em áreas tradicionais enquanto avalia novos movimentos. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que a empresa ampliou a participação em diesel e etanol, mesmo em um cenário de margens apertadas.

Além da possível aquisição da Moove, a Vibra fez uma jogada relevante ao comprar 50% da Comerc Energia por cerca de R$ 3,7 bilhões, assumindo praticamente todo o controle com direito a voto. Com isso, reforçou a estratégia de diversificação para além dos postos de combustível, mirando o mercado livre de energia e clientes corporativos.

A Petrobras, no entanto, estuda retomar a presença direta no varejo de combustíveis, movimento que poderia mudar a dinâmica da concorrência. Apenas os rumores sobre esse retorno já provocaram queda nas ações da Vibra em julho, evidenciando a sensibilidade do setor a decisões da estatal.

Quem ganha, quem perde

Se a Vibra conseguir adquirir a Moove, ganhará diversificação e poderá ter margens mais robustas, mas corre o risco de aumentar a dívida em um momento delicado. Já a Cosan, ao manter a Moove, preserva um ativo estratégico com relevância internacional. Se optar por vendê-la, reforçaria o caixa e reduziria a alavancagem, mas perderia contribuições.

Para o BTG, a entrada na Cosan significa ganhar exposição a um segmento estratégico da economia, com possibilidade de cooperações financeiras e reestruturações. Por outro lado, pode trazer riscos regulatórios e políticos, além de uma maior exposição a um mercado volátil.

Para o setor, movimentos de concentração podem elevar barreiras de entrada e reduzir a competição em nichos específicos. Ao mesmo tempo, a incerteza quanto ao papel da Petrobras e as discussões sobre tributação, biocombustíveis e transição energética, colocam ainda mais variáveis nesse tabuleiro.

Assim, o “xadrez da Vibra” vai além de uma disputa corporativa. Trata-se de uma reconfiguração silenciosa no setor de energia brasileiro, em que cada movimento é feito com cautela. Moove, Cosan, BTG e Vibra se movem sob o olhar atento do mercado, dos reguladores e da própria Petrobras.

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