O Manual de Gestão da WEG

A gigante industrial que ignora a Faria Lima, pensa em décadas em vez de trimestres e construiu um dos maiores impérios do Brasil.

No norte de Santa Catarina, a vida gira em torno de fábricas, igrejas luteranas e ruas de paralelepípedo que ainda guardam o sotaque alemão dos imigrantes. É ali, na cidade de Jaraguá do Sul, que nasceu uma das maiores histórias de sucesso industrial do Brasil, contada sem o barulho de jingles publicitários ou frases de efeito de executivos de terno. Enquanto o país se preocupava em discutir juros altos e crises políticas em Brasília, uma empresa de motores elétricos, transformadores e tintas foi se tornando uma das mais valiosas da Bolsa de Valores.

Fundada em 1961 pelos amigos Werner Ricardo Voigt, Eggon João da Silva e Geraldo Werninghaus, a WEG carrega, além das letras iniciais de cada um, a marca de sua origem familiar. O trio acreditava que a indústria podia se desenvolver no Brasil com a mesma disciplina encontrada na Alemanha e no Japão, e apostou em motores elétricos em um país onde a substituição de tecnologias que dependem de combustíveis fósseis por outras que usam eletricidade ainda era promessa. Com o tempo, a modesta oficina se tornou um conglomerado global que fabrica desde tintas industriais até turbinas gigantes para geração de energia.

Em 2025, a companhia atingiu um valor de mercado que ultrapassou os R$ 200 bilhões, deixando para trás gigantes tradicionais como a Vale. Ficou atrás apenas da Petrobras e do Itaú na B3, uma façanha para quem produz bens difíceis de explicar em uma mesa de bar. Os acionistas da WEG não se preocupam com “a próxima moda da Bolsa” e, talvez, o segredo do negócio seja pensar sempre em décadas, nunca em trimestres.

O manual da empresa é simples e, ao mesmo tempo, sofisticado. Produzir internamente quase tudo, investir pesado em pesquisa e desenvolvimento, valorizar os funcionários como sócios do resultado e manter o rumo mesmo quando os investidores pressionam por caminhos mais curtos. No lugar de narrativas heróicas, a WEG preferiu a discrição de quem trabalha do detalhe do fio de cobre ao verniz que recobre cada motor.

Uma cultura de donos

O manual da WEG não entra em gráficos de analistas ou relatórios trimestrais. Ele se manifesta na combinação de disciplina industrial, cultura comunitária e ambição global. É uma empresa que se sustenta sem o uso do marketing a qualquer custo, porque seus motores já rodam fábricas no mundo inteiro, muitas vezes sem que o usuário final saiba que há um DNA catarinense ali dentro.

Um traço que diferencia a empresa é a política de participação nos lucros. Desde os anos 1990, os funcionários recebem parte dos resultados, prática que reforça o senso de pertencimento. Em Jaraguá, ser funcionário da WEG é sinônimo de estabilidade e prestígio, e os dividendos extras, no fim do ano, ajudam a consolidar esse vínculo.

Essa cultura de longo prazo reflete a mentalidade das famílias fundadoras, que nunca se deixaram seduzir por ganhos rápidos. Ao contrário de muitas companhias que anunciam planos grandiosos e logo os abandonam, a WEG mantém consistência, reinvestindo, expandindo, integrando, testando, corrigindo. O mercado reclama quando a margem aperta, mas por lá ninguém parece se abalar.

Verticalização virou lema

Controlar diversas fases da cadeia produtiva, desde a obtenção da matéria-prima até a venda do produto final, é outro lema da WEG. Se em outras empresas terceirizar é sinônimo de eficiência, a de Jaraguá do Sul optou pela verticalização. Quanto mais etapas dentro de casa, melhor: o fio de cobre que atravessa os motores, a tinta que reveste os equipamentos e o verniz que protege as bobinas, por exemplo. Tudo isso é produzido pela própria companhia.

Em agosto de 2025, a WEG anunciou R$ 160 milhões em investimentos para ampliar a unidade de Linhares, no Espírito Santo, onde passará a fabricar internamente fios elétricos para motores, com operação prevista para 2027. Em paralelo, a companhia também comunicou, um ano antes, um plano de R$ 670 milhões ao longo de cinco anos destinado à verticalização e expansão das fábricas no Brasil e no México, incluindo unidades em Itajaí e Guaramirim, em Santa Catarina. A estratégia reduz riscos da cadeia de suprimentos, evita impactos do câmbio e assegura um padrão de qualidade uniforme, condição importante para competir em mercados exigentes da Europa, da Ásia e da América do Norte.

Neste ano, porém, analistas notaram sinais de desaceleração no crescimento orgânico e margens ligeiramente abaixo do esperado. A pressão dos investidores aumentou a ponto de questionar até onde o modelo pode escalar. O risco do excesso de verticalização é transformar a agilidade em rigidez e a eficiência em custo fixo.

Ainda assim, a WEG parece estar alheia a isso. Enquanto empresas industriais em países emergentes sucumbem a crises cambiais, dívidas em dólar ou gestão temerária, os catarinenses seguem discretos e resilientes, decidindo enfrentar tais momentos com previsibilidade e reinvestindo quando todos hesitam.

Do motor ao amanhã

A cada ano, bilhões de reais são reinvestidos em pesquisa, desenvolvimento e modernização das plantas industriais. Parte considerável da receita é destinada a criar soluções de automação, geração renovável e mobilidade elétrica. Sem depender exclusivamente do mercado interno, a WEG transformou a inovação em passaporte, com mais da metade das receitas vindo de fora do Brasil.

Além de geográfica, essa diversificação também é tecnológica. Se o mundo caminha para a eletrificação, a WEG quer estar na ponta, oferecendo desde equipamentos para energia solar até soluções para indústrias que buscam reduzir o consumo de energia. Muitas dessas linhas de negócio demoram anos para se pagar, mas a companhia aposta na paciência e colhe frutos.

Império dos números

Os relatórios financeiros recentes mostram uma história de consistência. Em 2024, mais de seis décadas depois da fundação, a WEG alcançou uma receita líquida próxima de R$ 38 bilhões e um lucro superior a R$ 6 bilhões. No mesmo período, apesar das oscilações cambiais e dos custos mais altos, a companhia ampliou as vendas e consolidou as margens de causar inveja a qualquer multinacional de bens industriais.

Em 2025, o valor de mercado disparou e a empresa chegou a ser a terceira mais valiosa da B3. Os números por si só explicam parte do sucesso, mas o que diferencia a WEG é o modo de operar, sem alarde e constante.

A lição é que existe planejamento de décadas, investimento contínuo, controle da cadeia produtiva e uma cultura que valoriza o coletivo. Em um país no qual a memória industrial é repleta de fracassos e tentativas frustradas, a WEG se tornou um gigante global construído a partir de uma cidade do interior e sustentado por uma dinastia discreta que prefere resultados a holofotes.

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