O Grande Rearranjo

Enquanto as gigantes da Bolsa lutavam contra a dívida e a Selic, empresários com caixa próprio, como Pedrinho BH e os Moreira Salles, aproveitaram a crise e foram às compras.

Se 2021 foi o ano do “dinheiro fácil” dos IPOs, 2025 entrará para a história como o ano do “dinheiro esperto”. Com a taxa Selic estacionada em dois dígitos e o mercado de crédito restritivo, a janela de fusões e aquisições (M&A) no Brasil não fechou, apenas trocou de dono.

Os grandes consolidadores não foram as corporações listadas na B3, muitas delas presas por alavancagem alta e ações depreciadas. Quem deu as cartas foram os impérios de capital fechado e os family offices ultracapitalizados.

O que se viu nos últimos 12 meses foi uma transferência de riqueza sem precedentes do “centro” para as “bordas”. Enquanto conglomerados multinacionais e nacionais endividados vendiam ativos para fazer caixa, os “barões regionais” e as grandes dinastias aproveitaram a liquidação para comprar market share real por múltiplos comprimidos.

O varejo

Nenhum setor ilustrou melhor essa dinâmica do que o varejo alimentar. A tese da Faria Lima sempre foi a de que os gigantes nacionais, como Carrefour, Assaí e GPA, engoliriam os regionais. Em 2025, aconteceu o contrário.

O movimento mais emblemático do ano veio de Minas Gerais. Pedro Lourenço de Oliveira, o “Pedrinho BH”, dono da rede Supermercados BH, não precisou de banqueiros de investimento para entender o valor da oportunidade. Em fevereiro, ele assinou um cheque de R$ 716 milhões para comprar a rede Bretas da gigante chilena Cencosud.

A leitura de Pedrinho foi cirúrgica. A multinacional Cencosud sofria para operar com agilidade no interior de Minas e Goiás. O Supermercados BH, com sua gestão “barriga no balcão” e logística eficiente, adquiriu 54 lojas, oito postos de combustíveis e um centro de distribuição sob a bandeira Bretas em Minas, consolidando o que muitos chamam de um “fosso” (moat) intransponível em seu estado natal.

No Sul, a lógica foi a mesma. O Grupo Muffato, gigante paranaense que opera com capital próprio e não presta contas a acionistas minoritários, avançou sobre os espólios dos gigantes. Aproveitando a necessidade de desinvestimento de grupos como Grupo Casino, controlador do GPA, e a reestruturação de capital do Assaí, o Muffato adquiriu fatias estratégicas de ativos e lojas, trocando o risco de construir do zero pelo risco de turnaround de pontos maduros.

A mesma tese guiou o Coelho Diniz, que domina partes do leste mineiro, como Governador Valadares. A rede comprou fatias da operação do Pão de Açúcar, ocupando espaços onde sua marca regional tem mais força e ressonância do que a bandeira paulista.

O recado desses três deals é agressivo: o varejo regional brasileiro, desbancarizado e ágil, provou ser mais eficiente do que as planilhas da Faria Lima.

A fome do agro

Enquanto o varejo urbano disputava margens de centavos, no campo, um novo titã consolidava sua posição. Ricardo Faria, o empresário que transformou a Granja Faria na maior produtora de ovos da América Latina, usou 2025 para provar que não é um “empresário do ovo”, mas um alocador de capital serial.

Faria executou uma sequência de aquisições através de seus veículos, incluindo a empresa Terrana, comprando terras, operações de grãos e concorrentes menores. Sua estratégia remete à de um fundo de private equity de um homem só: adquirir ativos em setores fragmentados, aplicar uma gestão industrial de custos (o chamado “custo Faria”) e integrar as margens.

Em um ano em que o agro sofreu com preços de commodities voláteis e quebras de safra, quem tinha caixa e acesso a crédito, como Faria, comprou quem estava alavancado. Assim, se desenhou a clássica consolidação de fundo de ciclo.

O jogo global da família Moreira Salles

Saindo do “chão de fábrica” para a estratosfera do capital, a família Moreira Salles mostrou que seu jogo não é mais apenas Brasil. Através da holding de investimentos BWSA (Brasil Warrant), a família executou o maior movimento industrial de sua história recente.

A aquisição do controle da Verallia, gigante francesa de embalagens de vidro, não foi uma compra de oportunidade, foi uma tese de longo prazo. Os Moreira Salles compraram fábricas e infraestrutura da indústria global de bebidas (champanhe, vinho e destilados).

Enquanto o mercado local olhava para o CDI, a BWSA alocou bilhões em um ativo dolarizado, ou melhor, baseado no euro, resiliente e com barreiras de entrada altíssimas. Foi a prova definitiva de que as grandes dinastias brasileiras já operam com a sofisticação e o apetite dos maiores fundos soberanos do mundo.

O cheque da infraestrutura

Se o varejo e o agro foram dominados pelos locais, a infraestrutura continuou sendo o palco do “smart money” internacional.

O deal do ano no setor foi a venda de 70% da Aliança Energia pela Vale. O comprador foi o fundo Global Infrastructure Partners (GIP), uma potência global. Pelo acordo, a Vale recebeu cerca de US$ 1 bilhão, o equivalente a aproximadamente R$ 5,33 bilhões, em caixa e manteve 30% na joint venture.

A transação enviou um sinal de que para ativos de qualidade, como hidrelétricas e parques renováveis operacionais com contratos de longo prazo, a liquidez internacional existe e é abundante. A Vale limpou seu portfólio para focar no core (mineração), e o GIP levou um fluxo de caixa previsível e dolarizado, algo raro no Brasil em 2025.

Outro movimento de consolidação industrial foi a venda do braço de tintas decorativas da BASF, dona da Suvinil, para a americana Sherwin-Williams, transação avaliada em US$ 1,15 bilhão. Mais uma vez, a mensagem é a de um gigante global comprando market share consolidado no Brasil, mesmo em crise estrutural.

O que esperar de 2026?

O ano de 2025 chegou a 1.087 transações formalmente contabilizadas até setembro, uma queda de quase 19% em relação a 2024, segundo levantamento da PwC Brasil.

Para 2026, o cenário desenhado por essas movimentações é claro. Com eleições presidenciais no horizonte e a Selic ainda desafiadora, a consolidação tende a “descer a pirâmide”.

No varejo, as redes médias que não foram compradas por Supermercados BH ou Muffato agora se tornam alvos óbvios. A escala regional virou questão de sobrevivência.
Na saúde, as redes como Grupo Fleury, que adquiriu a Rede Femme por R$ 207,5 milhões, e a Rede D’Or devem manter o ritmo de aquisições em nichos de mercado.

Na educação, grupos internacionais, como a Cognita, vão disputar o ensino básico premium com os players brasileiros.

A lição de 2025 é a de que na ausência de um mercado de capitais pujante (IPOs), o M&A se tornou a única saída para quem precisa vender e a melhor estratégia para quem tem caixa. O Brasil não parou, apenas ficou mais concentrado nas mãos de quem teve competência para operar na crise.

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