
Em um mundo onde magnatas frequentemente buscam os holofotes, John Malone permaneceu notavelmente discreto enquanto construía um império que moldou a forma como consumimos mídia e informação hoje. Conhecido como o “Cable Cowboy”, Malone transformou uma pequena e endividada operadora de TV a cabo na maior potência de telecomunicações dos Estados Unidos, e posteriormente, expandiu sua influência para além das fronteiras americanas.
Aos 29 anos, ele assumiu Tele-Communications Inc. (TCI) com uma dívida de US$132 milhões contra uma receita anual de apenas US$ 12 milhões e conseguiu reverter a situação da empresa, o número de assinantes de saltou 400 mil para 15 milhões, revolucionando a indústria de TV a cabo.
Sua abordagem agressiva não parou por aí. Malone também protagonizou rivalidades icônicas com outros gigantes da mídia com Ted Turner, fundador da CNN que o apelidou de “Darth Vader” por sua tática implacável e Rupert Murdoch, da News Corporation.
À frente da Liberty Media, Malone expandiu seu império e é dono de diversas empresas como QVC, SiriusXM Radio e a Fórmula 1. Surpreendentemente, ele também é o maior proprietário individual de terras nos Estados Unidos, com mais de 2,2 milhões de acres. Seu patrimônio líquido, estimado em US$9 bilhões, reflete apenas parte de sua influência e legado.
Hoje, vamos mergulhar na sua história e descobrir como suas estratégias visionárias e decisões audaciosas transformaram empresas e redefiniram toda uma indústria.
Início

Nascido em 7 de março de 1941, em Milford, Connecticut, John Carl Malone cresceu em um ambiente modesto. Filho de um engenheiro, desde cedo mostrou gostou por matemática e ciências. Após o ensino médio, ele ingressou na Universidade Yale, onde se formou em Economia e Engenharia Elétrica em 1963. No ano seguinte, concluiu o Mestrado em Engenharia Industrial pela Universidade Johns Hopkins e, em 1967, finalizou seu Ph.D. em Pesquisa Operacional.
A carreira profissional de Malone começou na Bell Labs, uma das instituições de pesquisa mais renomadas dos Estados Unidos. Lá, ele aprofundou seus conhecimentos em sistemas de telecomunicações e tecnologia. Em 1967, mudou-se para a McKinsey & Company, onde atuou como consultor, ganhando experiência em estratégia empresarial e operações.
Transformação da TCI em um Império do Cabo

Em 1970, aos 29 anos, John Malone enfrentou um dos maiores desafios de sua carreira. Foi convidado por Bob Magness, fundador da Tele-Communications Inc. (TCI), para assumir o cargo de presidente executivo. Na época, a TCI era uma pequena operadora de TV a cabo sediada em Denver, Colorado, e encontrava-se em sérias dificuldades financeiras. A empresa tinha uma dívida de US$132 milhões, sua receita anual girava em torno dos US$12 milhões. A relação entre dívida e receita era alarmante, e a TCI estava à beira da falência.
Para atrair Malone, foi proposto um pacote de remuneração que incluía um salário modesto de US$50 mil anuais, mas com um incentivo significativo: uma participação acionária de 2,5% na empresa. Além disso, Malone receberia um bônus de desempenho que aumentaria sua participação conforme a empresa atingisse metas específicas.
Malone enxergou na TCI uma oportunidade única. Apesar dos desafios, ele acreditava no potencial de crescimento do setor de TV a cabo, especialmente em áreas rurais pouco atendidas pelas grandes emissoras.
Ao assumir, Malone sabia que a reestruturação da dívida era crucial. Ele renegociou os termos com os credores, conseguindo reduzir as taxas de juros e alongar o prazo de pagamento de uma dívida que então ultrapassava US$132 milhões, uma quantia assustadora para uma empresa com uma receita anual de apenas US$12 milhões. Essa relação dívida/receita, superior a 10:1, ameaçava levar a TCI à falência, e cada ajuste foi vital para a sobrevivência.
O Bom Uso da Dívida

No entanto, em vez de se afastar de novos financiamentos, Malone enxergou uma vantagem no uso da dívida para crescimento. Ele acreditava que a alavancagem financeira, se bem administrada, poderia ser um motor de expansão. Malone adotou uma filosofia agressiva de aquisições, utilizando dívida de alto rendimento (conhecida como junk bonds) para financiar a compra de pequenas operadoras de cabo em todo o país.
Essa estratégia permitiu que a TCI crescesse rapidamente, aumentando sua base de assinantes e receitas. Ao longo das décadas de 1970 e 1980, a TCI adquiriu centenas de pequenas operadoras de TV a cabo. Essa expansão agressiva consolidou a empresa como a maior operadora de cabo dos Estados Unidos. Em 1973, a TCI já havia aumentado sua base para mais de 100.000 assinantes. Em 1981, esse número saltou para 2 milhões, e em 1995, a empresa atingiu mais de 15 milhões de assinantes e uma receita que saltou para impressionantes US$7,5 bilhões.
Malone não apenas focou na quantidade, mas também na qualidade dos serviços oferecidos. Ele investiu na modernização da infraestrutura, introduzindo tecnologias que permitiam maior capacidade de canais e melhor qualidade de transmissão. A TCI foi pioneira na oferta de canais por assinatura e serviços pay-per-view, diversificando suas fontes de receita.

O sucesso fenomenal de Malone na expansão da TCI e sua influência crescente na indústria renderam-lhe o apelido de “Cable Cowboy”. Suas ideias transformaram não só a TCI, mas sim toda a indústria de TV a cabo nos Estados Unidos. Ele defendia a ideia de que a convergência entre telecomunicações, mídia e tecnologia era inevitável, e posicionou a TCI para ser uma líder nessa transição.
A “Guerra das Operadoras de Cabo” com Ted Turner

Outro capítulo interessante da vida de Malone foi sua rivalidade com Ted Turner, fundador da Turner Broadcasting System (TBS), nos anos 80. Ted Turner, um empreendedor carismático, havia fundado a TBS e lançado a CNN, a primeira rede de notícias 24 horas do mundo. No entanto, essa ambiciosa expansão deixou sua empresa com dívidas, e ele precisava de apoio financeiro para evitar a falência.
Turner buscava investidores, mas relutava em ceder o controle de sua empresa. John Malone enxergou uma oportunidade estratégica. Em 1985, a TCI comprou 26% da Turner Broadcasting, por US$117 bilhões, isso forneceu o capital necessário para estabilizar as finanças da empresa. Em troca, Malone garantiu influência sobre as operações e acesso ao valioso conteúdo da TBS.
A relação entre Malone e Turner era complexa. Ted Turner via em Malone um rival formidável e referia-se a ele como “Darth Vader”, uma alusão ao vilão da franquia Star Wars, simbolizando a abordagem implacável e estratégica de Malone nos negócios. Apesar das tensões, a parceria entre os dois foi crucial para o sucesso de ambos.
Com o apoio financeiro da TCI, a Turner Broadcasting conseguiu evitar a falência e continuar sua expansão. A injeção de capital permitiu que a CNN ampliasse sua cobertura e se tornasse a líder em notícias 24 horas. A parceria também beneficiou a TCI, que passou a oferecer conteúdo exclusivo aos seus assinantes.
Malone reconhecia o valor do conteúdo na indústria de telecomunicações. Ao assegurar acesso aos canais da TBS, ele agregava valor aos serviços da TCI e diferenciava-se da concorrência.
Em 1996, Ted Turner decidiu vender a Turner Broadcasting para a Time Warner em uma transação avaliada em US$7,5 bilhões, a TCI com quase um terço das ações recebeu US$1,95 bilhão na transação. O que reforçou a reputação de Malone como um estrategista habilidoso.
A Venda para a AT&T

Ao final da década de 1990, a TCI enfrentava novos desafios. O mercado de telecomunicações passava por rápidas transformações e Malone, sempre atento às tendências do mercado, começou a considerar estratégias para garantir a continuidade do sucesso da TCI.
Em 1999, após quase três décadas liderando a TCI, Malone negociou a venda da empresa para a AT&T por cerca de US$ 48 bilhões. O acordo foi uma das maiores transações do setor de telecomunicações na época. Malone tornou-se um dos principais acionistas individuais da AT&T e membro do conselho, recebendo US$1,5 bilhão em ações da AT&T.
Liberty Media

Após a venda da TCI, Malone focou suas atenções na Liberty Media, uma empresa que ele havia fundado em 1991 e inicialmente fazia parte da TCI, atuando como um braço de investimentos para conteúdos de mídia e telecomunicações. Quando a TCI foi vendida, a Liberty Media foi separada como uma entidade independente, e Malone assumiu o controle total da empresa.
QVC

Uma das primeiras aquisições significativas da Liberty Media foi a participação na QVC, uma das maiores redes de televendas do mundo. Em 1995, a Liberty Media adquiriu uma participação de 22% na QVC, por US$1 bilhão. A QVC estava revolucionando o comércio varejista ao combinar televisão e vendas, permitindo que os consumidores comprassem produtos diretamente de suas casas (algo semelhante ao que o canal Shoptime fez no Brasil). Malone viu nessa empresa uma oportunidade de capitalizar a convergência entre mídia e comércio eletrônico.
Em 2003, a Liberty Media aumentou sua participação e comprou 100% do controle da empresa. A transação foi avaliada em cerca de US$7,9 bilhões, nesse anos o faturamento da empresa foi de US$5,7 bilhões e ela alcançou um lucro operacional de US$1 bilhão.
Liberty Media Global
Para além dos Estados Unidos, Malone começou a expandir a Liberty para o mercado internacional através da Liberty Global, uma nova empresa que focava na expansão das operações de cabo e internet em países europeus. Em 2005, a Liberty Global comprou a UPC, uma operadora de TV a cabo que atuava em diversos países da Europa, marcando a entrada da empresa no mercado europeu.
Em 2010, a Liberty Global adquiriu a Unitymedia, uma das maiores operadoras de cabo da Alemanha, e, em 2013, comprou a Virgin Media por US$24 bilhões, tornando-se a maior operadora de cabo da Europa, com 22 milhões de clientes.
SiriusXM Radio
Em 2009, a Liberty Media investiu US$530 milhões, na SiriusXM Radio, a maior provedora de rádio via satélite dos EUA, em troca 40% das ações e três assentos no conselho de administração. Na época, a SiriusXM enfrentava dificuldades financeiras significativas, com uma dívida pesada e a ameaça de falência.
Malone viu valor na base de assinantes da SiriusXM e no potencial de crescimento do rádio via satélite. Com sua experiência, ajudou a reestruturar a empresa, reduzir custos e expandir o conteúdo oferecido, incluindo contratos exclusivos com personalidades como Howard Stern.
Em 2013, a Liberty Media aumentou sua participação para 51%, assumindo o controle da SiriusXM. Sob a liderança de Malone, a empresa continuou a crescer, alcançando mais de 34 milhões de assinantes, uma receita de US$9 bilhões e um lucro de US$1,2 bilhão em 2023.
Fórmula 1

A aquisição da Formula 1 foi um dos movimentos mais ousados e marcantes do portfólio de investimentos da empresa. Em 2016, a Liberty comprou a Formula 1 por US$4,4 bilhões, com um pagamento de US$1,1 bilhão e o restante coberto por assunção de dívida.
Antes da compra pela Liberty, a Formula 1 era comandada por Bernie Ecclestone, um empresário britânico que havia moldado o esporte como um negócio fechado e centralizado. A gestão de Ecclestone era vista como tradicional e centrada em contratos de TV, com pouco investimento nas plataformas digitais e em formas de engajamento direto com o público.
Assim que assumiu o controle, a Liberty Media adotou uma abordagem inovadora para expandir o alcance da Formula 1. Entre as primeiras mudanças, foram realizados investimentos pesados em plataformas digitais e redes sociais, reconhecendo o potencial do esporte para atrair fãs mais jovens que preferiam consumir conteúdo online. A criação do serviço de streaming F1 TV permitiu que fãs de diferentes partes do mundo pudessem assistir às corridas e acessar conteúdo exclusivo.
Um dos movimentos mais inovadores da Liberty foi a produção da série “Formula 1: Drive to Survive”, lançada na Netflix em 2019. A série foi uma parceria entre a Formula 1 e a Netflix e tornou-se um sucesso global, dando aos espectadores um olhar nos bastidores das equipes, dos pilotos e das tensões do campeonato. Ela atraiu uma nova base de fãs ao capturar as emoções, rivalidades e dramas que acontecem fora das pistas. O sucesso de “Drive to Survive” foi um divisor de águas, ajudando a Formula 1 a conquistar um público significativamente mais jovem e expandindo o interesse pelo esporte nos EUA, onde historicamente o automobilismo não era tão popular quanto na Europa.
Novos Mercados e Provas Icônicas
A Formula 1 também focou na expansão para novos mercados. Corridas em locais icônicos como Miami e Las Vegas foram anunciadas, atraindo público e patrocinadores interessados em eventos de alta visibilidade. A corrida em Las Vegas, em particular, foi um marco — não apenas por seu cenário glamouroso na Strip, mas também pelo potencial de consolidar o esporte nos EUA.
Para atrair patrocinadores e garantir a estabilidade financeira, a Liberty também trabalhou em acordos comerciais com empresas globais, explorando ao máximo o apelo da marca da Formula 1. Empresas como Rolex, Heineken e Pirelli aumentaram sua presença e investimentos no esporte, refletindo a visão de Malone de transformar a Formula 1 em uma plataforma global de marketing para marcas premium.
Resultados Financeiros e Impacto Global
Desde a aquisição, os números da Formula 1 refletiram o sucesso das estratégias implementadas pela Liberty Media. Em 2023, a receita da Formula 1 ultrapassou US$3,2 bilhões, versus US$1,8 bilhão de 2016, o lucro operacional também aumentou no mesmo período, foi de US$17 milhões para US$392 milhões.
A combinação de uma presença digital forte, novas corridas em mercados estratégicos e uma narrativa envolvente, com foco nos bastidores, transformou a Formula 1 em uma das propriedades esportivas mais valiosas do mundo.
Malone x Murdoch
A relação entre John Malone e Rupert Murdoch, fundador da Fox News Corporation, é um capítulo fascinante na história das telecomunicações e mídia. Ambos são gigantes do setor, com personalidades fortes e estratégias agressivas de expansão. Sua interação ao longo das décadas foi marcada por momentos que se alternavam entre colaboração e rivalidade intensa.
No final dos anos 1990 e início dos anos 2000, Malone e Murdoch começaram a interagir mais de perto devido aos interesses compartilhados na indústria de televisão por satélite e a cabo. A News Corporation de Murdoch possuía uma vasta gama de ativos de mídia, incluindo jornais, estúdios de cinema e canais de televisão, enquanto Malone, através da Liberty Media, buscava aumentar sua presença global.
Em 2001, John Malone começou a acumular ações da News Corporation, adquirindo uma participação significativa. Em 2004, a Liberty Media possuía cerca de 9% das ações totais e aproximadamente 18% das ações com direito a voto da News Corp, tornando-se o segundo maior acionista individual, atrás apenas de Rupert Murdoch.
Tensão Crescente e Disputa pelo Controle
A crescente participação de Malone na News Corp preocupou Murdoch, que temia uma possível tomada de controle ou influência excessiva de Malone sobre a empresa que ele havia fundado. Murdoch valorizava o controle familiar da News Corp e via a presença de Malone como uma ameaça potencial a essa dinâmica.
Em 2005, as tensões aumentaram quando surgiram rumores de que Malone poderia aumentar ainda mais sua participação ou buscar influência direta no conselho de administração. Murdoch considerou várias estratégias para reduzir a participação de Malone ou diluir seu poder de voto, incluindo a emissão de novas ações.
Acordo Estratégico e Troca de Ativos
Após negociações complexas, em dezembro de 2006, Murdoch e Malone chegaram a um acordo. A Liberty Media concordou em trocar sua participação na News Corp por ativos que incluíam:
• Uma participação de 38,5% na DirecTV Group, a maior operadora de televisão por satélite dos Estados Unidos.
• As ações remanescentes em três canais regionais de esportes.
• US$ 550 milhões em dinheiro.
Essa troca permitiu que Murdoch recuperasse o controle total das ações com direito a voto da News Corp, enquanto Malone adquiriu ativos estratégicos que complementavam seu portfólio na Liberty Media.
Fortuna Pessoal

De acordo com a revista Forbes, em 2023, John Malone possui um patrimônio líquido estimado em US$ 9 bilhões, o que o coloca entre as pessoas mais ricas dos Estados Unidos.
• Liberty Media Corporation: Em 2022, a Liberty Media reportou receitas consolidadas de aproximadamente US$ 9,5 bilhões, com a SiriusXM sendo a principal contribuinte.
• Liberty Global: A Liberty Global, focada em operações de telecomunicações na Europa, teve receitas de cerca de US$ 11,5 bilhões em 2022. A empresa continua a investir em infraestrutura de rede e serviços convergentes, atendendo milhões de clientes em diversos países europeus.