Fuga da B3: por que empresas brasileiras buscam cada vez mais Wall Street?

Em junho de 2025, a JBS estreou na Bolsa de Valores de Nova Iorque, a NYSE. Esse movimento da empresa brasileira do setor de alimentos, a mais recente listada por lá, é cada vez mais comum. Companhias nacionais estão atravessando o Atlântico financeiro em busca de liquidez, previsibilidade e visibilidade global. Nos Estados Unidos, os papéis de empresas brasileiras já movimentam quase dois terços do volume negociado na própria B3, a bolsa de valores do Brasil.

Por trás disso, há razões estruturais e de contexto. No Brasil, os juros altos, a inflação resistente e as incertezas fiscais minam o apetite dos investidores. Do outro lado, Wall Street oferece profundidade de mercado, estabilidade cambial e regras de governança consolidadas. Para as empresas, é uma vitrine global, mas, para o investidor brasileiro, pode ser um encolhimento das opções domésticas.

O movimento atual não é exclusividade do Brasil. Empresas da Europa e da Ásia também estão migrando para os Estados Unidos. Por aqui, porém, a debilidade do mercado local torna o fenômeno mais visível.

Por que Wall Street atrai tanto?

Enquanto a B3 reúne cerca de 400 companhias, os Estados Unidos contam com mais de 5 mil listadas entre a NYSE e a Nasdaq, bolsa de valores americana conhecida por ser a primeira bolsa eletrônica do mundo e por listar muitas empresas de tecnologia, como Apple e Google. A diferença vai além dos números, chegando à cultura investidora. Mais da metade dos americanos investe na bolsa, direta ou indiretamente, criando um mercado maduro e de liquidez abundante.

Outro atrativo está nas regras. A SEC, agência reguladora equivalente à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) brasileira, impõe governança rigorosa e garante maior previsibilidade. Ao mesmo tempo, é mais flexível em pontos cruciais, ao não exigir ações em circulação pública (free float) de 25% como no Brasil, aceitar estruturas acionárias com diferentes classes de ações e permitir listagens parciais com apenas 10% dos papéis.

Na prática, isso significa que os controladores podem captar recursos sem perder o comando da empresa. Essa é uma equação difícil de encontrar no mercado brasileiro e um fator decisivo para empreendedores que buscam crescer sem abrir mão do controle.

Queda de braço entre São Paulo e Nova Iorque

Em 2020, apenas 29% do volume movimentado por ações brasileiras ocorria nos Estados Unidos. Esse número saltou para 65,6% em 2025. Enquanto a liquidez diária da B3 caiu de US$ 5,29 bilhões em 2021 para US$ 3,32 bilhões até maio de 2025, os ADRs, que são os certificados de ações de empresas estrangeiras negociados em bolsas americanas, cresceram para mais de US$ 2 bilhões por dia.

Alguns gigantes nacionais já viram os papéis renderem mais na Terra do Tio Sam do que no próprio país. É o caso da Petrobras, cujos ADRs movimentam quase quatro vezes mais em Nova Iorque do que no Brasil. Empresas como Vale, Itaú, Bradesco e Embraer seguem a mesma lógica. Como consequência, a B3 perde espaço e as bolsas americanas ganham protagonismo na precificação das companhias brasileiras.

O esvaziamento silencioso da bolsa no Brasil traz consequências. Para o investidor local que não aplica no exterior, essa oferta de empresas diminui. Setores dinâmicos, como tecnologia e fintechs, dificilmente escolhem São Paulo como palco de estreia ou de permanência fixa e exclusiva. Assim, sobram em grande parte as companhias tradicionais, de setores concentrados, com menor potencial de expansão.

A B3 segue a luta contra a perda de atratividade afetada por juros altos, pela volatilidade política e pela queda no número de IPOs, processo pelo qual uma empresa emite, pela primeira vez, ações para serem vendidas ao público geral na bolsa de valores. No entanto, o sonho americano não é garantia de sucesso. Abrir capital nos Estados Unidos exige enfrentar auditorias, critérios de governança e a pressão constante de investidores institucionais globais. Se fosse receita infalível, todas as companhias brasileiras provavelmente já estariam listadas em Wall Street.

Nubank e a onda fintech

A trajetória do Nubank ajuda a entender o fenômeno da migração. Desde dezembro de 2021, quando abriu capital em Nova Iorque, a fintech passou a valer quase US$ 45 bilhões, tornando-se a quarta maior empresa brasileira. A companhia afirmou à época que a listagem no Brasil seria inviável, porque a regulação local exigiria maior diluição do controle.

A escolha reflete o desejo americano por empresas de tecnologia e serviços financeiros. A Nasdaq e a NYSE, por exemplo, abrigam centenas delas. Embora sejam brasileiras, as empresas Stone, PagSeguro, XP, VTEX e CI&T, por exemplo, encontraram do outro lado da América um terreno mais fértil para captar recursos.

JBS: uma vitrine de carne bovina em Wall Street

A maior processadora de proteína animal do mundo escolheu uma dupla listagem, mantendo presença na B3 e negociando também na NYSE. Logo no primeiro pregão, em junho de 2025, a JBS movimentou US$ 285 milhões, que corresponde a 4,5 vezes a média dos últimos 12 meses das negociações em São Paulo.

A decisão da JBS vai além da busca por prestígio. A empresa carrega um desconto de 20% a 25% em relação à americana Tyson Foods. Ao se alinhar aos pares globais, espera reduzir esse distanciamento e atrair fundos internacionais que exigem ações listadas nos Estados Unidos. A meta é ingressar em índices como o Russell 2000 e, em alguns anos, pleitear vaga no S&P 500, a vitrine máxima de Wall Street.

Caminho híbrido das gigantes brasileiras

Assim como a JBS, outras empresas também preferem a estratégia da dupla listagem, com ações na B3 e negociações de ADRs em Wall Street. Gigantes como Vale, Petrobras e Itaú Unibanco, fazem isso para aproveitar a vitrine global sem abandonar a base doméstica.

Essa combinação permite captar recursos em duas frentes. Ao manter papéis no Brasil, preservam a presença no mercado local e mantêm proximidade com investidores domésticos. Movimentando nos Estados Unidos, ganham liquidez, visibilidade institucional e acesso a fundos internacionais de grande porte. As maiores empresas brasileiras entenderam que Wall Street é também um caminho indispensável para trilhar a própria história.

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