Na virada dos anos 2000, a Aracruz Celulose era o orgulho da indústria brasileira em expansão. Instalado no Espírito Santo, o grupo havia se tornado sinônimo da celulose de fibra curta, obtida a partir do eucalipto, abastecendo gráficas, editoras e fabricantes de papel em diversos continentes. Era também um raro exemplo de poder equilibrado. A família norueguesa Lorentzen, o Grupo Safra, por meio da Arainvest, e a Votorantim Celulose e Papel (VCP), pertencente ao conglomerado da família Ermírio de Moraes, formava o trio que dividia o controle quase que em partes iguais.
Embora aparentemente estável, esse modelo de controle compartilhado carregava tensões em potencial. De um lado, os Lorentzen, com ligação histórica ao setor de papel e celulose, viam a Aracruz como parte de um legado. Do outro, a Votorantim, gigante diversificada que enxergava na celulose uma plataforma de expansão global. O Grupo Safra, por sua vez, atuava mais como investidor financeiro, mantendo certa distância da gestão cotidiana. Durante alguns anos, o formato funcionou, até que, em 2008, o cenário econômico internacional fez desmoronar tal estabilidade.
A crise financeira global estourou e arrastou junto a Aracruz. A companhia havia se exposto a derivativos cambiais que, em tese, deveriam protegê-la da oscilação do dólar. O efeito catastrófico resultou em mais de US$ 2,1 bilhões em perdas, fazendo a empresa, até então sólida, entrar em colapso financeiro. Foi nesse momento de fragilidade que a Votorantim enxergou a brecha ideal para transformar um terço do poder em controle absoluto, em uma jogada que mudaria o setor de celulose no Brasil.
A operação, conduzida em meio a reuniões tensas, cláusulas contratuais e renúncias de conselheiros, ganhou contornos de uma batalha empresarial. Os Lorentzen saíram de cena após décadas de influência, o Grupo Safra recolheu os dividendos e a Votorantim saiu como vencedora. O desfecho foi a criação da Fibria, em 2009, que depois seria incorporada pela Suzano em 2019, dando origem à maior produtora de celulose do planeta. O que começou como um equilíbrio de forças terminou como um império, construído em meio à crise.
A jogada de mestre da Votorantim
A crise financeira de 2008 atingiu as empresas brasileiras de maneiras diferentes, com um impacto devastador para a Aracruz. A companhia havia firmado contratos de derivativos cambiais como proteção contra a volatilidade do dólar. Com a disparada inesperada da moeda americana, porém, esses instrumentos se transformaram em armadilhas financeiras. O prejuízo final superou US$ 2,1 bilhões, um golpe difícil de absorver até para uma empresa acostumada a transitar em mercados globais.
A gravidade da situação expôs vulnerabilidades até então inesperadas. Endividada, pressionada por credores e com a imagem arranhada no mercado, a Aracruz viu sua posição de barganha enfraquecer. Foi nesse vácuo de poder que a Votorantim encontrou a chance perfeita de transformar a participação relevante em controle total. Enquanto os Lorentzen se dividiam entre resistir ou vender e o Grupo Safra observava, a VCP articulava nos bastidores uma ofensiva calculada.
O primeiro passo foi dado em janeiro de 2009, com um movimento perfeito no tabuleiro. A VCP anunciou a compra da fatia de 28,03% pertencente ao bloco Lorentzen por R$ 2,71 bilhões. O pagamento seria feito em parcelas ao longo de dois anos, em parte com financiamento do BNDES, por meio da BNDESPar. Ao vender a participação, os Lorentzen sinalizavam mais do que a saída financeira, indicavam também o fim da influência histórica sobre a companhia.
O movimento tinha ainda uma segunda parte. Os contratos societários da Aracruz previam cláusulas de tag-along, que é um direito que protege acionistas minoritários em caso de venda do controle da empresa, e venda conjunta, caso um acionista vendesse sua fatia, os demais teriam direito de aderir ao mesmo preço e condições. O Grupo Safra exerceu esse direito e também se retirou do bloco de controle. Em poucas semanas, a Votorantim, que antes era apenas uma das três forças, passava a concentrar quase 84% das ações ordinárias.
Retirada dos antigos senhores da floresta
A mudança de controle também se traduziu em gestos simbólicos. Conselheiros ligados à família Lorentzen, como Haakon Lorentzen e Eliezer Batista, renunciaram aos cargos logo após o anúncio da venda. Era o adeus definitivo de um grupo que havia ajudado a construir a empresa desde os anos 1970, transformando plantações de eucalipto no Espírito Santo em um império exportador.
O grupo foi pioneiro ao apostar na celulose de fibra curta, mais adequada à produção de papéis para imprimir e escrever, e tinha papel decisivo na internacionalização da Aracruz. Diante do colapso financeiro de 2008, no entanto, a família optou pela retirada, vendendo o que restava de capital simbólico em troca de liquidez.
Ação sob suspeita
A velocidade da transação e o momento em que ela ocorreu chamou a atenção dos órgãos reguladores. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu o Processo Administrativo Sancionador nº 25/2010 para investigar suspeitas de uso de informação privilegiada e possíveis falhas na divulgação das negociações. O intuito era saber se alguns acionistas teriam obtido vantagem em meio ao turbilhão da crise, antecipando movimentos do mercado.
As investigações se arrastaram por anos, mas não impediram a consolidação do negócio. Para a Votorantim, a polêmica era o preço a pagar pelo controle de um ativo estratégico, enquanto, para os críticos, ficava a sensação de que a vulnerabilidade de uma empresa nacional fora explorada com ajuda indireta do Estado, via BNDES. Mais uma vez, a linha entre estratégia empresarial e oportunismo foi colocada em debate.
O nascimento da Fibria
No dia 1º de setembro de 2009, a fusão entre a Aracruz e a VCP foi concluída, dando origem à Fibria, resultado da incorporação da primeira pela segunda. A nova marca simbolizava mais do que um novo arranjo societário, era a criação da maior produtora mundial de celulose de eucalipto em fibra curta. A capacidade produtiva superava 6 milhões de toneladas anuais, consolidando o Brasil como líder global nesse mercado.
O quadro acionário da Fibria refletia a engenharia do processo. A Votorantim Industrial ficou com 20%, o BNDESPar com cerca de 30,9%, enquanto minoritários, incluindo ex-acionistas e investidores de mercado, eram donos do restante. Para a Votorantim, foi a coroação de uma estratégia de décadas ao transformar uma participação minoritária em domínio absoluto e, com isso, criar uma plataforma de crescimento internacional.
Do domínio à integração na Suzano
Uma década depois, em 2019, ocorreu outra ação importante. A Fibria foi incorporada pela Suzano Papel e Celulose, em um movimento que consolidou a criação da maior empresa global do setor. Com operações espalhadas por quatro continentes e mais de 10 milhões de toneladas anuais de capacidade, a Suzano-Fibria passou a ocupar um espaço inédito para uma companhia brasileira.
Esse desfecho marcou também o fim da trajetória independente da Aracruz. O nome que simbolizou a ousadia nos anos 1970 e 80 desapareceu, abafado por um processo de concentração inevitável em um mercado cada vez mais competitivo. Mesmo tendo conquistado o controle, a Votorantim acabou vendendo a participação alguns anos depois, diante da consolidação promovida pela Suzano.
A “guerra pela floresta” foi, em última instância, uma batalha por influência e sobrevivência. Os Lorentzen saíram de cena, o Grupo Safra recolheu os dividendos e a Votorantim conquistou, por um tempo, a posição de maior produtora do mundo. O troféu de campeão, no entanto, ficou com a Suzano, que, uma década depois, integrou tudo em um império ainda maior.
No balanço do primeiro semestre de 2025, a Suzano registrou o maior faturamento líquido de sua história para o período. A companhia alcançou R$ 11,6 bilhões em vendas, um avanço de 22% sobre o resultado obtido no primeiro trimestre de 2024. O recorde anterior havia sido estabelecido em 2023, quando a receita líquida chegou a R$ 11,3 bilhões.