
SÃO PAULO — No auge da década de 1990, o banqueiro Ezequiel Nasser despontava como um dos nomes mais agressivos do mercado financeiro brasileiro. Sobrinho dos lendários Edmond e Joseph Safra, sua carreira começou nos bancos da família Safra. Nasser parecia ter o toque de Midas, em poucos anos, transformou um pequeno banco de investimentos, o Excel, em um dos maiores players financeiros do país, protagonizando uma das aquisições mais comentadas da época: a compra do histórico Banco Econômico.
Mas o que parecia o nascimento de um império bancário terminou em colapso. Dois anos depois, o Excel Econômico foi vendido ao banco espanhol Bilbao Vizcaya por R$1 — e a carreira de Nasser enfrentou sérios problemas legais.
A fundação do Banco Excel

Depois de trabalhar nos bancos dos tios, primeiro com Edmond e depois com Joseph Safra, Ezequiel Edmond Nasser decidiu fundar seu próprio banco em 1990. Logo nos primeiros dias, tomou uma decisão que revelava seu perfil agressivo: três dias antes do confisco do Plano Collor, sacou todo o dinheiro que tinha em contas pessoais para comprar, por US$ 7,5 milhões, um prédio na Rua Augusta, em São Paulo, que virou sede do Banco Excel.
O timing foi preciso. O mercado financeiro mergulhava no caos, mas o Excel, recém-criado, começava protegido e com ativos reais. Nos anos seguintes, Nasser construiu um banco focado em crédito corporativo, operações estruturadas e produtos sofisticados para empresas, com lucros crescentes
Em menos de cinco anos, a instituição saiu da condição de boutique financeira paulistana para tornar-se uma referência no mercado com lucros expressivos, o que colocou o Excel durante anos na lista dos três bancos médios mais lucrativos do Brasil.
A compra do Econômico: ascensão e exposição

Em 1995, o Banco Econômico — uma das instituições financeiras mais tradicionais do Brasil, com sede na Bahia e forte presença no varejo do Nordeste — sofreu intervenção do Banco Central. Os problemas vinham se acumulando há anos, com indícios de balanços maquiados desde 1989, e culminaram em graves questões de solvência.
Ao contrário de outros bancos que acabaram liquidados naquele período, o Econômico foi poupado. Com apoio político de seu controlador, Ângelo Calmon de Sá, e amparo do governo federal, o banco foi incluído no recém-criado Proer — programa lançado no fim de 1995 para evitar um colapso sistêmico. Por meio do Proer, o Banco Econômico recebeu cerca de R$ 6,5 bilhões, mas Calmon de Sá perdeu o controle da instituição. O valor foi usado para cobrir déficits, limpar o balanço e preparar o banco para a venda a um novo controlador.
Foi nesse contexto que, em 1996, Ezequiel Nasser enxergou uma oportunidade de expansão. Com aval do Banco Central, iniciou as negociações para comprar o Econômico e fundir suas operações ao Banco Excel. Nascia assim o Banco Excel Econômico.
Em 12 de abril de 1996, Ezequiel Nasser adquiriu o Banco Econômico pelo preço simbólico de R$ 1. Na prática, o Excel assumiu todos os ativos e passivos do Econômico (contas correntes, depósitos, agências, funcionários etc.), contando com recursos do PROER para saneamento dessas dívidas.
A aquisição deu projeção nacional a Nasser, e transformou o Excel de um banco de um banco médio a uma instituição de varejo com alcance nacional. O novo banco patrocinava clubes de futebol como Corinthians, Botafogo, Vitória e América-MG. O nome Excel Econômico estampava estádios e camisas, e Nasser virava capa das principais revistas de negócios do país — símbolo de uma nova geração de banqueiros que buscava protagonismo em meio à reestruturação do sistema financeiro.
Mas a integração entre os dois bancos logo se mostrou caótica. Os sistemas de tecnologia não conversavam, os passivos do Econômico estavam mal mapeados, e os controles de risco do Excel, pensados para um banco de investimentos ágil, não absorviam a complexidade da operação de varejo herdada do Econômico. Em 1997, o novo banco já exibia sinais claros de desequilíbrio financeiro.
A auditoria, o contrato e os R$ 500 milhões que viraram R$ 1
A fusão entre Excel e Econômico já exibia sinais de desgaste, mas o primeiro baque real veio no início de 1998, agravado pela crise asiática de 97, o banco registrou prejuízo de R$ 44 milhões e perdeu R$ 69 milhões do seu patrimônio líquido. A confiança do mercado evaporou e o Banco Central passou a pressionar Nasser a buscar uma solução. A orientação era clara: encontrar um sócio capitalizado ou vender o controle, sob o risco de liquidação.
Foi nesse momento que o Banco Bilbao Vizcaya (BBV), da Espanha, entrou na jogada. Os espanhóis já haviam tentado entrar no Brasil por meio de aquisições frustradas do Banerj, BCN, Noroeste e outros bancos. Agora, com o Excel fragilizado, viram uma brecha.
As negociações foram tensas e duraram apenas 15 dias. Em maio de 1998, com intermediação do Lehman Brothers e assinatura em salas separadas, o contrato foi fechado. O BBV anunciou a compra de 55% do Excel Econômico por R$ 500 milhões. O negócio teve aval do Banco Central e foi amplamente celebrado como mais um marco na internacionalização do sistema bancário brasileiro.
Mas o contrato previa um mecanismo que seria decisivo. O preço final dependia da chamada “due diligence” — uma auditoria que o BBV faria após o fechamento do negócio. Se fossem identificadas perdas relevantes, o valor poderia ser ajustado. Essa cláusula viria a transformar completamente a operação.
O estouro do rombo
Após assumir o controle, o BBV contratou a Arthur Andersen para fazer a auditoria. A análise encontrou créditos podres estimados entre R$ 700 e R$ 900 milhões. O banco, segundo os espanhóis, tinha patrimônio líquido negativo. A descoberta fez com que a transação fosse reclassificada: o valor simbólico de R$ 1 foi registrado como preço de compra.
Foi criada uma conta de compensação (“escrow account”) para abrigar os ativos tóxicos. A família Nasser só receberia algo se os créditos fossem recuperados acima de um determinado limite — descrito por fontes da Folha como “ambicioso”. Nasser, segundo relatos da época, não teria recebido nada até hoje.
A mudança no valor do negócio causou uma ruptura total entre as partes. Nasser acusou o BBV e o Banco Central de coação e má-fé. A relação entre as partes se deteriorou de vez.
As denúncias e o processo criminal
Em paralelo à disputa contratual, surgiram as acusações do Ministério Público. Ezequiel Nasser e dois executivos do Excel Econômico foram denunciados por gestão temerária, concessão irregular de crédito e formação de quadrilha.
O caso tramitou por anos. Nasser foi condenado em 2006 e, após recursos, sua pena foi convertida para prestação de serviços comunitários. Mas o estrago à sua imagem já estava feito. O banqueiro, que poucos anos antes simbolizava o sucesso financeiro da nova geração, tornava-se exemplo de imprudência e colapso.
O contra-ataque judicial de Nasser

Inconformado, Nasser entrou com ação judicial contra o Banco Central e o BBVA. Alegou que foi coagido a vender, que o processo foi conduzido sob pressão política e que o valor simbólico da transação não refletia o contrato original. Segundo ele, haveria créditos fiscais e ativos intangíveis no valor de R$ 459,6 milhões que não foram considerados.
Também sustentava que o Excel Econômico nunca havia recorrido ao PROER, o programa federal de socorro a bancos. Nem mesmo pedira redesconto ao Banco Central. Ou seja, na sua visão, o banco não estava quebrado — apenas havia enfrentado um choque de liquidez temporário por conta da crise asiática.
As ações judiciais se arrastaram por anos, sem decisão definitiva favorável a Nasser.
Depois da venda frustrada, Nasser deixou o Brasil e passou a operar nos Estados Unidos. Criou o Excel Bank, instituição voltada ao crédito e ao private banking, com ativos de cerca de US$ 400 milhões em seu auge. Mas nunca mais buscou exposição pública ou grandes ambições.