Para os irmãos Joesley e Wesley Batista, a primeira semana de 2026 não foi apenas o retorno ao trabalho, foi uma demonstração de força em dois hemisférios. Enquanto advogados em Nova York finalizavam a papelada para listar o PicPay na bolsa de tecnologia mais valiosa do mundo, geólogos e diplomatas operavam nos bastidores de Caracas para consolidar a posição do grupo na nova fronteira do petróleo global.
São duas jogadas distintas, mas que revelam o DNA atual da holding J&F: a busca pelo valuation de tecnologia no mercado financeiro e a aposta em ativos reais em geografias complexas, onde poucos têm a coragem ou o trânsito político para entrar.
A “caixa preta” do petróleo venezuelano
Se em Wall Street o jogo é de transparência, na Venezuela a regra é o silêncio. Nos bastidores do setor de energia, uma figura tem sido repetidamente mencionada como central para destravar investimentos naquele país. Trata-se do geólogo Ricardo Savini, atual CEO da Fluxus, braço de óleo e gás da J&F. Savini, profissional com décadas de experiência e passagens por empresas como Petrobras e 3R Petroleum, é visto por analistas do setor como um operador raro, com profundo conhecimento geológico e relações locais que poucos executivos brasileiros possuem.
A estratégia da Fluxus e, por extensão, da J&F, parece replicar um playbook clássico de exploração em áreas desafiadoras, ao adquirir campos maduros ou defasados, reativá-los e extrair valor onde gigantes estatais e concorrentes hesitam em entrar. O diferencial, contudo, não é apenas técnico, é geopolítico.
Informações de mercado indicam que a Fluxus já teria presença exploratória na Venezuela desde 2024, com equipes no terreno e prospecção de contratos que não são publicamente divulgados. Relatórios indicam ainda que comunicações entre o setor diplomático brasileiro e as autoridades venezuelanas envolvendo interesses empresariais foram protegidas por sigilo temporário, segundo interlocutores que acompanham o movimento.
No centro dessa aposta está a convicção de que, com a possível reabertura econômica sob uma nova configuração política e o potencial retorno da produção petroleira venezuelana ao mercado global, reservas gigantescas e baratas podem voltar a ser exploradas por capital privado. Nesse tabuleiro, os irmãos Batista estariam posicionados para ocupar espaço estratégico, mantendo canais de interlocução em Brasília, Washington e Caracas, e absorvendo o risco político e operacional que tantos preferem evitar.
O IPO de US$ 500 milhões em Wall Street
Enquanto operam nas sombras em Caracas, os irmãos Batista buscaram os holofotes em Nova York. Na primeira segunda-feira de 2026, 5 de janeiro, o PicPay protocolou seu pedido de IPO na Nasdaq, com intenção de captar até US$ 500 milhões por meio da oferta pública inicial de ações nos Estados Unidos, marcando uma das maiores e mais aguardadas aberturas de capital de uma fintech brasileira no exterior desde o IPO do Nubank em dezembro de 2021.
Diferente da tentativa frustrada de 2021, quando condições adversas de mercado forçaram a empresa a desistir, desta vez o PicPay chega aos EUA com números sólidos e um balanço transformado. No período de nove meses encerrado em 30 de setembro de 2025, a fintech reportou lucro líquido de R$ 313,8 milhões, um salto de mais de 80% em relação ao mesmo período anterior, e uma receita total de R$ 7,26 bilhões, praticamente o dobro do registrado um ano antes. Isso reflete a forte monetização dos serviços financeiros sob sua plataforma digital.
A escolha pela Nasdaq segue uma lógica financeira: fugir dos múltiplos atribuídos às empresas brasileiras na B3 e buscar precificação mais robusta em uma bolsa focada em tecnologia, alinhando o PicPay a pares como Nubank e Banco Inter. Para fortalecer a oferta, a J&F trouxe como investidor-âncora o empresário Marcelo Claure, ex-gestor do SoftBank, cuja gestora, Bicycle Capital, comprometeu-se a investir US$ 75 milhões no IPO, mitigando riscos iniciais aos investidores.
Controle a qualquer custo
O que une a aventura petrolífera na Venezuela à listagem tecnológica em Nova York é uma obsessão clara dos irmãos Batista pelo comando. No projeto do IPO, a família desenhou uma estrutura de ações de classe dupla (dual-class shares): o mercado ficará com ações Classe A com direito a um voto por ação, enquanto os Batista manterão o controle através de ações Classe B com 10 votos por ação.
Essa estrutura garante que, mesmo após a venda de parte da empresa e a captação de bilhões de dólares, a estratégia e as decisões da companhia permaneçam sob o controle exclusivo da família, protegendo-as de pressões externas dos acionistas minoritários.
Seja negociando a renúncia de um ditador em Caracas ou vendendo o futuro dos pagamentos digitais em Nova York, a mensagem da semana é a de que a J&F não é apenas um frigorífico que cresceu, é uma máquina global de alocação de capital que opera onde o risco é alto, mas onde o prêmio e o controle são absolutos.