
Nos últimos anos, Nelson Tanure transformou-se numa das mais polêmicas figuras da mídia brasileira.
Dele tudo se fala, chamado de arrogante por vários inimigos e adorados por alguns acionistas que se beneficiam das suas jogadas, este empresário sempre se manteve muito longe dos holofotes da mídia.
Nascido em 1951, filho de pai espanhol e mãe brasileira, Tanure se formou em Administração de empresas e deu os primeiros passos profissionais ao lado do pai, José Sequeiros, numa empresa do setor imobiliário – a Cinasa -, ainda na Bahia. Aos 25 anos, em 1977, Nelson deixou a Bahia e se mudou para o Rio de Janeiro.
No final da década de 1970, Tanure fez sua primeira grande movimentação ao comprar a Sequip (Sociedade de Equipamentos Industriais Ltda.), uma empresa carioca, especializada na fabricação de equipamentos industriais para a construção civil. A aquisição da Sequip marcou o início de sua estratégia de diversificação e expansão de negócios. Tanure identificou no Rio de Janeiro um ambiente mais dinâmico e com maior potencial para investimentos, especialmente em setores estratégicos como a construção naval e a operação portuária.
A compra da Sequip não foi apenas uma entrada no mercado industrial; ela foi parte de um plano maior. Com essa base, Tanure expandiu suas operações para outros setores, como a Sade (equipamentos industriais) e a Verolme (construção naval). Sua trajetória levou a aquisição da emblemática Companhia Docas, em 1998, por R$59 milhões, o que lhe deu controle sobre operações portuárias estratégicas.
Em 2008 comprou a Intelig Telecom por R$10 milhões, assumindo uma dívida de R$130 milhões. Um ano depois vendeu para a TIM por R$650 milhões.
Nos dias de hoje Tanure é controlador ou acionista de referência em três empresas listadas – PetroRio, Gafisa e Alliar – e controla a Ligga Telecom, a antiga Copel Telecom, além de ter comprado licenças 5G para áreas de São Paulo, Paraná e a Amazônia.
PetroRio: A Joia da Coroa da Família Tanure
Para entender o sucesso da PetroRio, é importante conhecer o contexto em que a empresa surgiu. Em 1997, o governo federal aprovou a lei (9.478/97), que abriu o mercado de óleo e gás para a iniciativa privada. Com isso, grandes multinacionais começaram a operar no Brasil, focando seus investimentos em novos campos promissores, como os do pré-sal, onde as chances de encontrar petróleo em grandes quantidades eram maiores e os lucros, mais imediatos.
No entanto, essa abordagem tinha um efeito colateral: muitos campos de petróleo que já haviam sido explorados e apresentavam queda na produção eram deixados de lado, considerados menos atrativos. Em vez de investir na revitalização desses campos mais antigos, as multinacionais preferiam buscar novas áreas para explorar. Como resultado, um vasto potencial de extração em campos maduros foi negligenciado.
A revitalização de campos de óleo e gás, é uma prática comum em mercados maduros e demonstra um alto nível de sofisticação tecnológica. Esse processo consiste em reabilitar campos maduros para extrair o máximo de petróleo restante. No Brasil, entretanto, essa prática nunca foi totalmente desenvolvida, em parte devido a um cenário regulatório desfavorável e ao foco das grandes empresas em explorar novos prospectos geológicos.
Nesse cenário, em 2009, foi fundada a HRT (High Resolution Technology), que mais tarde se tornaria a PetroRio. Sob a liderança de Marcio Mello, a HRT tinha ambições de descobrir novos campos de petróleo, especialmente na bacia amazônica e na Namíbia.
Em 2010, a empresa fez seu IPO onde captou R$2,6 bilhões com direito a músicos e passistas da Beija-Flor animando o salão da bolsa. Esse valor refletiu as altas expectativas do mercado.

No entanto, essas expectativas não se concretizaram, nos três anos seguintes, a HRT não encontrou uma gota de petróleo e as ações da empresa despencaram.
Foi nesse momento de crise que Nelson Tanure entrou em cena. Depois de cair mais de 97% e passar a valer cerca de R$200 milhões em 2013, Tanure começou a acumular ações da empresa.
Depois de chegar a 20% do capital, Nelson se aliou ao fundador contra os fundos acionistas e começou a impor suas ideias. Vale lembrar que tudo isso aconteceu com muita briga com os fundos que detinham ações. Principalmente o fundo americano Discovery que acusava os novos acionistas de diversas práticas ilegais.
Apesar dos desafios, a nova gestão conseguiu implementar uma estratégia sólida focada na revitalização de campos de petróleo e gás. Abandonando o sonho de explorar novos poços, Tanure direcionou a PetroRio para a operação de campos maduros, onde o potencial de extração ainda era significativo. Essa mudança de foco, combinada com fusões e aquisições, permitiu à empresa aumentar sua produção e reduzir custos, solidificando sua posição no competitivo mercado de óleo e gás.
Reestruturação da Operação

A reestruturação da PetroRio foi marcada por uma abordagem estratégica que focou em transformar os ativos existentes em fontes de valor sustentável. Parte fundamental desse processo foi entender e otimizar a vida útil dos campos de óleo e gás sob seu controle.
A vida útil de um campo de óleo e gás é composta por quatro fases principais: (i) a exploração, que envolve a busca por áreas com potencial de produção; (ii) a avaliação, que verifica se os hidrocarbonetos encontrados têm viabilidade comercial; (iii) o desenvolvimento, que ocorre quando as condições são favoráveis para a instalação da infraestrutura necessária; e, finalmente, (iv) a produção, onde o petróleo ou gás é extraído e comercializado.
A PetroRio, sob sua nova gestão, redefiniu seu foco operacional para maximizar o valor dos ativos existentes, especialmente na fase de (iv) produção. Em vez de seguir a estratégia tradicional de exploração de novos campos, a empresa concentrou seus esforços na revitalização de campos maduros. Utilizando técnicasavançadas de reabilitação, a PetroRio conseguiu prolongar a vida útil desses campos e extrair volumes adicionais significativos de petróleo e gás, que haviam sido considerados esgotados ou de baixopotencial por outros operadores.

Estratégia de Aquisição e Crescimento
A transformação da PetroRio começou em 2008, quando a empresa foi fundada e, no ano seguinte, se tornou uma sociedade anônima de capital fechado, passando a se chamar HRT Participações em Petróleo. A virada decisiva ocorreu em 2015, com a aquisição do Campo de Polvo (que será explicado na seção subsequente). A partir daí, a empresa mudou seu nome para PetroRio S.A. passando a ter suas ações negociadas com o símbolo PRIO3.
O processo de reestruturação levou a empresa a se tornar uma operadora de campo maduro, cada vez mais focada na produção de óleo e gás offshore brasileiro e com baixa exposição à atividade exploratória.
Desde o início do turnaround da companhia, que consolidou sua estratégia de crescimento através da aquisição e desenvolvimento de ativos em produção, a PetroRio trabalha para aumentar seus níveis de produção e racionalizar seus custos, mantendo sempre os níveis de excelência em responsabilidade ambiental, segurança e eficiência operacional.
Dessa forma, a empresa consegue criar valor com a implementação de uma operação bem estruturada.
A empresa adquire apenas ativos que já tem capacidade produtiva comprovada, minimizando o risco de perfurar novos poços e não encontrar óleo.
Para gerar valor, a PRIO3 busca a otimização de processos operacionais e soluções inovadoras que visem melhorar a produtividade, diminuir custos e aumentar a vida útil econômica de seus campos.

Com a visão estratégica de adquirir novos ativos em produção, a PetroRio passou a fazer diversas compras ao longo dos anos.
No início de 2017 comprou 100% da Brasoil, assumindo uma participação de 10% no campo de gás natural de Manati.
Utilizando desta mesma linha estratégica em 2018, adquiriu a Frade Japão Petróleo, detentora de 18,26% de participação na concessão do Campo de Frade.
Essa compra resultou no aumento de 25% da produção e 150% das reservas de óleo da empresa.
Já em 2019, a PetroRio em acordo com a Chevron comprou uma fatia de 51,74% da empresa no Campo de Frade.
Apesar das fusões e aquisições e dos investimentos em campanhas de perfuração, a alavancagem permaneceu sob controle

Os Campos
O campo de Polvo, localizado na Bacia de Campos (offshore), a aproximadamente 100km da costa leste da cidade de Cabo Frio, Estado do Rio de Janeiro. Sua licença cobre uma área potencialmente exploratória de 134 km². O campo por muito tempo foi responsável por um terço da produção da empresa.
Desde 2016, a PRIO concluiu 3 campanhas de revitalização de Polvo.
A primeira não incluiu nenhuma atividade de perfuração, mas envolveu principalmente intervenções e workover em 3 poços, enquanto a 2ª e 3ª campanhas de revitalização incluíram a adição de 3 e 2 poços, respectivamente.
Todas as três fases aumentaram as reservas de Polvo em +10 milhões de barris de óleo equivalente e interromperam o declínio da produção.

A PRIO (PRIO3) registrou produção diária de 88,326 mil barris de óleo equivalente (boe) no 1º trimestre de 2024, um crescimento de 44,7% frente a produção de 61,039 mil boe do mesmo período do ano passado.
Em março, a produção atingiu 86,2 mil barris de óleo equivalente por dia, um crescimento de 4,1% ante o resultado de fevereiro.
Vamos à linha do tempo:
- 2015: Mudança de nome de HRT para PetroRio. Preço da ação: R$ 0,36 e 5 mil barris produzidos por dia
- 2018: Preço da ação: R$ 1,66 e 11,7 mil barris produzidos por dia
- 2020: Preço da ação: R$ 7,36 e 26,5 mil barris produzidos por dia
- 2022: Preço da ação: R$ 25,37 e 40,9 mil barris produzidos por dia
- 2023: Preço da ação: R$ 49,05 e 90 mil barris produzidos por dia
Como qualquer empresa de commodities, a PRIO tem pouco controle sobre sua receita.
O uso de instrumentos de hedge pode ajudar durante períodos de volatilidade aguda de preços (por exemplo, 2020), mas a lucratividade de longo prazo, e até mesmo a sobrevivência neste setor, deve ser impulsionada, principalmente, pela capacidade das empresas de manter o equilíbrio de caixa do fluxo de caixa livre tão baixo quanto possível.

Atualmente, a taxa média de eficiência operacional da empresa é de 98%, muito superior à média nacional de 85%. Essa alta classificação de eficiência coloca a PetroRio como um player de destaque e uma verdadeira referência para o setor

Agora e Amanhã
O Brasil vive um momento fantástico no setor de petróleo e gás, com oportunidades surgindo em diversas frentes.
A Agência Nacional do Petróleo está a desempenhar o seu papel no estímulo destas oportunidades.
A agência evoluiu de um regulador historicamente burocrático para um agente rápido e favorável aos negócios. Impulsionou negócios no setor e garantiu que todas as rodadas de licitações fossem realizadas dentro do prazo original.
Superando desafios, a Prio demonstra resiliência e adaptabilidade no competitivo setor petrolífero, solidificando sua posição no cenário energético brasileiro.
A empresa passou por uma recuperação financeira, obtendo lucros significativos e se estabelecendo como um player de destaque no cenário energético brasileiro
No terceiro trimestre de 2023, a Prio atingiu um marco de produção, atingindo 99,9 kboepd (mil barris de petróleo equivalente por dia), com um volume vendido de 9,8 MMbbl.
Este marco de produção foi atribuído principalmente ao aumento da produção de Albacora Leste e aos recentes investimentos bem-sucedidos no campo de Frade.
Em novembro de 2023, a PRIO anunciou a concretização da venda da sua participação de 10% no campo de Manati.
- A transação foi de R$124 milhões, sendo o campo de Manati adquirido em 2017 por R$140 milhões. Ao longo dos anos, gerou um fluxo de caixa de R$350 milhões, refletindo um retorno de 3,4x sobre o capital investido. Isso ilustra a eficiência da estratégia de investimentos da companhia, com foco nas atividades na Bacia de Campos.
Em contraste com os elevados custos de 44,2 dólares por barril há alguns anos, a Prio otimizou com sucesso as suas operações, diminuindo significativamente os custos de produção.
Essa conquista ganha ainda mais destaque quando se considera o concomitante aumento da produção da empresa, contribuindo para o fortalecimento da posição de caixa.

A Prio distingue-se pela gestão eficiente e geração consistente de caixa, reduzindo os riscos de execução a níveis consideravelmente baixos.
Ao comparar a PetroRio com seus principais pares nacionais, especialmente outras negociados na bolsa de valores, como Petro Recôncavo (RECV3), 3R Petroleum (RRRP3) e Enauta (ENAT3), a Prio negocia a um P/E prêmium. No entanto, apresenta o menor índice PEG, sugerindo um possível desconto no crescimento dos seus lucros.
A jornada da PetroRio, guiada pela visão estratégica de Nelson Tanure, exemplifica como uma gestão focada e uma abordagem inovadora podem transformar desafios em oportunidades. A empresa não apenas superou uma crise profunda, mas também redefiniu seu modelo operacional, consolidando-se como uma das líderes no setor de óleo e gás no Brasil. Ao priorizar a eficiência operacional, a revitalização de campos maduros e a gestão inteligente de recursos, a PetroRio demonstra que, mesmo em um mercado volátil, é possível alcançar crescimento sustentável e fortalecer sua posição no cenário global.