
RIO DE JANEIRO — Nos bastidores do mercado financeiro brasileiro, poucos nomes ressoam tanto quanto o de Julio Bozano. Conhecido por muitos como o “Warren Buffett brasileiro”, ele foi o artífice de uma das instituições que remodelaram o cenário bancário nacional: o Banco Bozano, Simonsen. Fundado em 1967, o banco foi capaz de fincar raízes num período de grande transformação econômica, tornando-se o maior banco de investimentos do país nos anos 1990, com mais de US$11 bilhões em ativos sob gestão e servindo de exemplo para futuros gigantes como o Banco Garantia e o BTG Pactual.
Início

A história em 1967, quando Julio Bozano, então um jovem investidor disposto a arriscar em setores pouco explorados, uniu forças com o economista e ex ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen, reconhecido por sua sólida formação acadêmica. O casamento entre pragmatismo financeiro e rigor técnico deu origem a um banco inicialmente focado em negociações de valores mobiliários.
Pouco a pouco, o escopo do banco se ampliou, tornando-se também um banco comercial. Com um time de executivos ambiciosos, o Bozano passou a captar recursos no exterior para financiar projetos industriais e agrícolas, segmentos carentes de financiamento de longo prazo no Brasil. Em questão de poucos anos, esse foco permitiu a captação de recursos milionários e um crescimento que chamou a atenção de empresários e do próprio governo.
Embora ainda fosse um banco de porte modesto no fim dos anos 1960, a instituição se diferenciava por conceder financiamentos expressivos a setores produtivos, sobretudo indústria e agronegócio. De acordo com documentos internos, já em 1970 o banco havia intermediado financiamentos que superavam a casa dos US$50 milhões para usinas de açúcar e plantas industriais de médio porte.
Esse modelo de atuação chamou a atenção de grupos empresariais que careciam de linhas de crédito mais extensas, além de um assessoramento especializado. O banco, por sua vez, passou a se estruturar para fornecer consultoria financeira e participar de emissões de debêntures e ações, o que lhe rendeu os primeiros passos rumo ao mercado de capitais brasileiro.
Já no início dos anos 1970, a instituição diversificou suas operações para o mercado de capitais e o ramo de seguros, movendo-se com agilidade por áreas onde a concorrência ainda era tímida. Em 1973, lançou o primeiro fundo de investimento de renda fixa do Brasil, uma iniciativa que ajudou a modernizar o mercado financeiro nacional e atraiu capital tanto de investidores locais quanto de estrangeiros em busca de oportunidades. O êxito em antecipar tendências e estruturar operações sofisticadas credenciou o banco a atuar em negócios cada vez mais complexos, desde financiamentos industriais de grande porte até emissões de títulos para multinacionais interessadas em se estabelecer no país.
Crescimento acelerado e o auge dos anos 1990

A década de 1980 foi marcada pela hiperinflação e pela busca de estratégias de arbitragem cambial. Bozano, Simonsen, assim como outros bancos nacionais, aproveitou as oscilações para lucrar por meio de swaps de dólar, expandindo sua rede de varejo e elevando seus lucros em ritmo acelerado. Em 1990, o banco contava com 22 agências e milhares de funcionários. Nessa fase, a Tesouraria — comandada por Paulo Ferraz, um executivo com MBA em Harvard — tornou-se o coração pulsante das operações de câmbio e renda fixa.
O sucesso, no entanto, pedia adaptações. A partir de 1992, Ferraz fechou boa parte das filiais e reduziu a equipe de 1.000 para 400 funcionários, adequando as estruturas para novos desafios. Esse processo resultou em indicadores de eficiência comparáveis aos de grandes bancos internacionais, culminando em resultados notáveis. Em 1997, o lucro líquido consolidado foi de US$150 milhões, os ativos totais, de US$11 bilhões e o retorno sobre o patrimônio chegou a 30% — números extraordinários para o período.
O “barão do aço” e “rei das privatizações”

Com a estabilização econômica do início dos anos 1990, o governo brasileiro iniciou um amplo programa de privatizações em setores estratégicos — siderurgia, energia, telecomunicações e aviação. O Bozano, Simonsen viu nisso uma chance de ouro. Entre 1991 e 1995, o banco ou seu grupo de investimentos participaram de diversos leilões, adquirindo participação em empresas como:
• Usiminas (1991): Uma das maiores siderúrgicas do país, foi o primeiro grande salto do Bozano na era das privatizações. O banco comprou cerca de 4,5% das ações, mas exerceu enorme influência na reestruturação, com Julio Bozano chefiando o conselho.
• Cosipa (1992): A Companhia Siderúrgica Paulista, também do setor de aço, entrou no radar do grupo.
• Companhia Siderúrgica Tubarão (1993): A “transformação mais radical” atribuída ao Bozano ocorreu na CST. O banco assumiu 33% em conjunto com sócios. A venda dessa participação, anos depois, renderia um ganho de capital de US$ 327 milhões, além de um retorno anual de impressionantes 110%.
• Embraer (1994): A joia da aviação brasileira foi privatizada em um leilão que arrecadou US$ 160 milhões. O Bozano, Simonsen investiu diretamente e participou ativamente na reestruturação, impulsionando a Embraer a se tornar um gigante mundial no setor aeroespacial.
• Escelsa (1995): A companhia de energia do Espírito Santo foi outro alvo de privatização onde o banco atuou como investidor e assessor financeiro.
As compras refletiam a filosofia de Bozano: procurar empresas que gerassem muito dinheiro, mas tivessem ineficiências ou excesso de pessoal, instalando executivos competentes para enxugar custos e melhorar resultados. Uma vez alcançado o pico de valorização, vendia-se a participação. Esse modelo rendeu ao banqueiro e ao Bozano, Simonsen apelidos como “barão do aço” e “rei das privatizações”, devido às transformações notáveis no setor siderúrgico.
Venda para o Santander

Em 2000, diante de um mercado já em vias de consolidação e marcado pela presença cada vez mais forte de grupos estrangeiros, Julio Bozano optou por vender o banco ao Santander por cerca de US$500 milhões. A negociação integrava, do lado comprador, o interesse em absorver a expertise construída por décadas de gestão independente; do lado vendedor, Bozano visava um posicionamento mais global e a possibilidade de se dedicar a novos investimentos. A marca Bozano, Simonsen foi gradualmente incorporada à estrutura do grupo espanhol, deixando para trás uma trilha de inovações e resultados de peso.
Mesmo após a transação, Julio Bozano permaneceu ativo no universo financeiro. Com fortuna estimada em mais de US$2 bilhões, ele fundou a Bozano Investimentos, uma gestora de private equity que se manteve fiel à ideia de garimpar oportunidades em setores estratégicos — prática que remonta à fundação do banco em 1967. Hoje, Bozano segue como referência no mercado de capitais e inspira jovens executivos interessados em entender como, em algumas décadas, foi possível criar um império respeitado e influente.
Herança do Banco
Ainda que o nome Bozano, Simonsen tenha desaparecido das fachadas, seu papel na consolidação do mercado de capitais brasileiro permanece evidente. Algumas das operações estruturadas pela instituição nas décadas de 1980 e 1990 ainda figuram como casos de estudo em escolas de negócios, tamanha a complexidade e o sucesso financeiro obtido. A atuação do banco foi crucial para a entrada de capitais estrangeiros em setores antes fechados, e sua estratégia de participar dos leilões de privatização reforçou a ideia de que o Brasil era um ambiente fértil para investimentos de grande envergadura.
Não à toa, o modelo de operação do Bozano, Simonsen influenciou diretamente bancos de investimento que surgiriam na mesma época ou posteriormente, como o Garantia e o BTG Pactual. Tanto na adoção de análises profundas de risco quanto na capacidade de articular consórcios multimilionários, o banco deixou um legado de expertise que se ramificou em várias outras instituições. Em última instância, a história do “Warren Buffett brasileiro” e seu banco pioneiro resume a essência do que foi, durante muitos anos, o espírito do mercado de capitais nacional: coragem, visão de longo prazo e a crença de que o Brasil oferecia — e ainda oferece — oportunidades grandiosas a quem tem foco e ousadia na hora de investir.