As Cinzas de um Bilionário

Fundos árabes, bilionários e gestoras transformaram os destroços do Grupo EBX em novos impérios. Mas para onde foram os portos, minas e campos de petróleo?

Em 2012, no auge de seu poder, Eike Batista era o sétimo homem mais rico do mundo, um titã de US$ 30 bilhões. Seu Grupo EBX, um conglomerado de petróleo, mineração, energia e logística, encarnava o sonho de um Brasil prestes a se tornar potência global. Um ano depois, o castelo ruiu e protagonizou a mais espetacular implosão corporativa da história nacional. 

Enquanto a imagem pública de Eike se desfazia em dívidas e processos, a verdadeira história apenas começava. A pergunta que ecoava pela Faria Lima não era mais sobre o homem, mas sobre o espólio: para onde foram os portos, as minas e os campos de petróleo do império?

Três anos após o colapso, o império EBX já havia sido inteiramente desmontado. A derrocada de Eike deflagrou uma liquidação “na bacia das almas”, atraindo um novo tipo de poder com fundos soberanos árabes, gestoras de private equity americanas, traders suíças e investidores brasileiros

Por volta de 2016, Eike Batista assistiu à própria fortuna encolher para algumas centenas de milhões, foi preso em 2017 e viu o império X virar matéria-prima para novos impérios, erguidos sobre planilhas. As ruínas de Eike foram recicladas por um capital paciente, que viu riqueza onde o antigo dono viu ruína. O ouro, afinal, estava nas cinzas.

OGX: O estopim da crise e a fênix petrolífera de Tanure


A OGX foi a joia da coroa e, paradoxalmente, o peso que a afundou. Criada para ser a Petrobras privada, terminou como símbolo da ilusão. As reservas se mostraram inviáveis, e a empresa, que um dia valera dezenas de bilhões de reais, protagonizou o maior pedido de recuperação judicial da América Latina, em 2013.

Enquanto o mercado via destroços, Nelson Tanure, veterano em empresas em apuros, viu oportunidade. Durante a recuperação, a OGX virou OGPar, depois Dommo Energia. Tanure foi comprando, somando e assumindo o leme.

O golpe de mestre veio via PetroRio (PRIO). Em 2020, a empresa arrematou o campo de Tubarão Martelo por US$ 140 milhões e, dois anos depois, incorporou de vez a Dommo. Os custos caíram, a produção subiu e o que era naufrágio se tornou a virada.

Atualmente, a PRIO é a maior petroleira independente do país, com 70 mil barris/dia e R$ 14 bilhões em faturamento em 2024. O ativo que simbolizou o fracasso de Eike sustenta agora a fortuna de outro bilionário.

LLX: O porto dos sonhos e a “Compra da Louisiana” da EIG

Se a OGX foi o estopim, o Porto do Açu, da LLX, foi o delírio. Um megacomplexo em São João da Barra (RJ), desenhado para ser o hub logístico do império. Com a implosão, virou o prêmio mais cobiçado.

O fundo americano EIG Global Energy Partners se moveu com precisão cirúrgica. Em outubro de 2013, pagou R$ 1,8 bilhão (US$ 520 milhões) pelo controle. O negócio foi tão vantajoso que os próprios executivos compararam à “Compra da Louisiana”, o golpe de sorte histórico dos EUA sobre a França.

A EIG reescreveu o conceito, com o porto deixando de ser cativo do império e passando a ser multiusuário. Rebatizado como Prumo Logística, o complexo com 90 km², maior que Manhattan, atraiu Anglo American, BG Group e uma fila de gigantes.

Atualmente, 30% das exportações de petróleo do Brasil passam pelo Açu. O “elefante branco” virou hub de classe mundial, com uma valorização de outro planeta.

MMX: O porto que virou ouro para a Mubadala

A MMX, mineradora de Eike, tinha duas pernas: minas em Minas e o Porto Sudeste, em Itaguaí (RJ). Com a queda, cada uma seguiu um destino. As minas, em limbo. O porto, a redenção.

O Mubadala, fundo soberano de Abu Dhabi, e a Trafigura, gigante suíça, assumiram o controle em 2013. Investiram pesado e inauguraram o terminal em 2015. A capacidade atual é de 50 milhões de toneladas por ano

O porto que serviria à MMX passou a servir o mercado e a render muito mais. Para a Mubadala, o negócio foi engenharia pura, ao converter dívida podre em ativo sólido. Um porto nascido da dívida virou uma máquina de caixa.

MPX: a energia que trocou o “X” pela governança

A MPX, braço de energia, foi uma das primeiras a sentir o terremoto. Em 2013, Eike cedeu o controle à alemã E.ON. Mesmo assim, a empresa, já rebatizada de Eneva, passou por recuperação em 2014. Foi nesse ponto que André Esteves (BTG Pactual) e a família Moreira Salles (Cambuhy) entraram em cena.

Com nova governança e injeção de capital, a Eneva mudou de pele. Passou a integrar produção de gás natural e geração elétrica, em uma lógica industrial que o império X nunca dominou.

Saiu da recuperação, cortou dívida de 4,5x para 2,4x EBITDA e, em 2023, já faturava R$ 10 bilhões. A antiga MPX, que carregava o “X” de promessa, virou sinônimo de eficiência e capital disciplinado.


OSX: O estaleiro que virou pó

Nem tudo o que Eike tocou virou ouro para os sucessores. A OSX, criada para fabricar plataformas para a OGX, virou ruína. O estaleiro no Porto do Açu parou em 2013 e nunca mais voltou a funcionar. O que sobrou foi uma cidade fantasma industrial, um cemitério de estruturas metálicas.

A OSX arrastou-se por uma década em tribunais, acumulando R$ 500 milhões em dívidas. Nenhum investidor ousou ressuscitá-la. O estaleiro virou metáfora do sonho que afunda devagar.

CCX e AUX: carvão, ouro e os despojos menores

O império de Eike era vasto e disperso. A CCX, por exemplo, era dona de minas de carvão na Colômbia e foi vendida ao Yildirim Group, da Turquia, por US$ 125 milhões. Um desconto de 72%.

A AUX, com minas de ouro também colombianas, foi para a Mubadala, depois associada à Aris Mining. Valor estimado em US$ 2,7 bilhões. Até o Burger King Brasil e o Hotel Glória foram parar na prateleira dos árabes, em troca de dívidas perdoadas.

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