SÃO PAULO – Nos seus últimos anos, aos 80, José Olacyr de Moraes, o homem que um dia foi o maior produtor de soja do planeta, passava os dias debruçado não sobre planilhas de safra, mas sobre mapas geológicos. Longe dos holofotes da Faria Lima e da vastidão de seus antigos campos de soja no Mato Grosso, sua obsessão era outra: decifrar o potencial mineral escondido em terras áridas da Bahia e do Piauí.
Para o mercado, a aposta soava como o último e desesperado lance de um império desmoronado. Para Olacyr, no entanto, era a chance de provar que o faro do desbravador, o mesmo que o fez conquistar o Cerrado, ainda estava vivo. A história de Olacyr de Moraes é a crônica de um dos mais audaciosos e, ao fim, trágicos arcos empresariais do Brasil. É a saga de um homem que ajudou a transformar o país em uma potência agrícola, mas que foi consumido pela própria ambição.
A Conquista do Cerrado

A lenda de Olacyr começou nos anos 70, com uma aposta que parecia uma loucura. Enquanto o agronegócio brasileiro se concentrava no Sul e Sudeste, ele decidiu domar o Cerrado de Mato Grosso, uma região de terra considerada ácida e improdutiva.
O resultado foi a Fazenda Itamaraty, um projeto de escala faraônica. Com mais de 110 mil hectares, tinha sua própria cidade com infraestrutura para 5 mil habitantes, incluindo escolas, hospital, onze pistas de pouso e uma gigantesca destilaria de álcool. No auge, nos anos 80, com uma produtividade que assombrou o mundo, Olacyr de Moraes foi coroado pela Forbes como o “Rei da Soja”, tornando-se o mais jovem brasileiro a atingir uma fortuna avaliada em mais de US$ 1 bilhão.
Ele não parou na soja, diversificou, com medo da monocultura, ele replicou sua tese no algodão, num momento em que a cultura estava devastada no Brasil pela praga do bicudo. Olacyr firmou um convênio com a Embrapa, financiando do próprio bolso a pesquisa para uma nova variedade de semente.
O resultado foi a ITA-90, uma planta perfeitamente adaptada ao Cerrado e à colheita mecânica. Para criar escala e viabilizar a construção de uma processadora (algodoeira) própria, ele atuou como um “mecenas”: distribuiu sementes, adubos e defensivos para 15 produtores vizinhos, ensinando-os a plantar e garantindo a compra da produção. Em poucos anos, ajudou a transformar o Brasil de segundo maior importador mundial a grande exportador da pluma.
Com a geração de caixa massiva vinda do campo, o império se diversificou. Olacyr criou o Banco Itamarati para financiar suas operações e a Usinas Itamarati, que se tornou uma das maiores produtoras de açúcar e etanol do país. No início dos anos 90, ele não era mais apenas um fazendeiro; era o líder de um dos mais poderosos e diversificados conglomerados do Brasil.
O Peso da Coroa

No auge de seu poder no início dos anos 90, Olacyr de Moraes não estava satisfeito. Ser o Rei da Soja e do Algodão não era o bastante. Com a visão de desenvolver o Brasil, ele decidiu atacar o maior gargalo do agronegócio: a logística.
Seu projeto mais ambicioso, a ferrovia Ferronorte, foi concebido para ser a espinha dorsal de um novo corredor de exportação, ligando o coração do Centro-Oeste ao porto de Santos. Era uma obra de infraestrutura de escala nacional, um sonho que o Estado brasileiro não conseguia tirar do papel e que Olacyr, em um ato de extrema audácia, decidiu construir com seu próprio capital.
A Ferronorte, no entanto, se revelou uma aposta grande demais e o projeto se tornou um ralo de capital, drenando mais de US$200 milhões e exigindo um nível de endividamento colossal que em seu auge, chegou a R$3,2 bilhões. Enquanto o império de Olacyr se alavancava para construir os trilhos, o Brasil passava por sua mais profunda transformação econômica: o Plano Real.
Lançado em 1994, o plano estabilizou a moeda e pôs um fim abrupto à era da hiperinflação. Para a maioria dos brasileiros, foi um alívio. Para empresários que, como Olacyr, haviam construído impérios em um ambiente de dívidas corroídas pela inflação e ganhos financeiros especulativos, foi um choque de realidade brutal. Com a subida dos juros reais a patamares estratosféricos para defender a nova moeda, a dívida bilionária da Ferronorte, grande parte dela em dólar, tornou-se uma bola de neve impagável.
Pressionado pelos bancos credores, o homem que construiu um império foi forçado a desmantelá-lo, peça por peça, para sobreviver. Começou a dolorosa temporada de desinvestimentos. O Banco Itamarati foi vendido para o BCN. As Usinas Itamarati, de açúcar e etanol, foram para a Odebrecht. Por fim, no movimento que selou o fim de uma era, Olacyr vendeu a mítica Fazenda Itamarati (em 2018 foi comprada pelos Maggi, por R$2,2 bilhões). E assim, o Rei da Soja não era mais dono de seu reino.
O Último Lance

Para o mercado, era o fim da linha, mas para Olacyr, era o começo de seu último ato. Em 2002, fundou a Itaoeste, uma modesta empresa de mineração, e voltou às suas origens de desbravador. Aos 80 anos, declarou sua nova ambição: “Quero ser o rei da mineração”. Com um patrimônio estimado em R$100 milhões, ele investiu US$20 milhões do próprio bolso em prospecções.
A aposta inicial era em calcário, um insumo agrícola que ele conhecia bem. Mas um golpe de sorte, em 2008, revelou um tesouro inesperado em suas terras na Bahia: reservas de tálio, um metal raríssimo que o Brasil sequer produzia. A descoberta acendeu a chama do velho empreendedor. O projeto, batizado de “Rio de Ondas”, tinha um potencial de faturamento estimado em R$100 milhões anuais apenas com a reserva inicial, o suficiente para competir com os únicos produtores globais, China e Cazaquistão. O portfólio da Itaoeste se expandiu, com alvarás para pesquisar volastonita, tungstênio e, principalmente, fosfato, que ele via como a “nova soja”.
Mas a complexidade de destravar as licenças e o peso da idade o levaram a buscar um atalho. Olacyr se aproximou de Andrés Firmin Heredia Guzmán, um controverso lobista e ex-senador boliviano que prometia usar seus contatos no governo para acelerar os projetos. Para familiares e funcionários, Guzmán era um aproveitador que se beneficiava de um homem idoso e fragilizado, saindo de reuniões com malas de dinheiro vivo. Para Olacyr, ele era a chave para seu reingresso no clube dos bilionários.
A parceria terminou em tragédia. Em abril de 2014, Guzmán foi assassinado pelo motorista de Olacyr, que trabalhava para a família há 38 anos e confessou o crime, alegando que não aguentava mais ver o patrão ser extorquido. O escândalo explodiu no momento mais frágil da vida do empresário. Aos 83 anos, recuperando-se de uma cirurgia de oito horas para tratar um câncer, Olacyr recebeu a notícia do assassinato e da prisão de seu funcionário fiel. “Tudo estava na mão dele, indo bem. Como vou fazer agora?”, lamentou.
Olacyr de Moraes faleceu um ano depois, em 2015. Seu último e audacioso lance, a tentativa de erguer um novo império com as riquezas do subsolo, terminou ofuscado por um drama de lealdade e traição, provando que, em sua vida superlativa, até o fim foi roteirizado pela tragédia.