O Grupo Casas Bahia (BHIA3) se tornou o símbolo máximo da crise do varejo tradicional brasileiro. Por meses, a empresa sangrou em praça pública, vendo seu valor de mercado se desfazer enquanto lutava para sobreviver ao que parecia uma tempestade perfeita: concorrência digital feroz e, sobretudo, uma Selic elevada, que estrangulou o coração do seu modelo, o crediário.
Depois de registrar um prejuízo gigantesco de R$ 2,62 bilhões em 2023, a varejista seguiu queimando caixa em 2025, com perdas de R$ 408 milhões no primeiro trimestre e R$ 555 milhões no segundo. O modelo que construiu o império da família Klein havia quebrado. A alta dos juros fez a despesa financeira líquida explodir para R$ 1,1 bilhão em um único trimestre (2T25), inviabilizando qualquer recuperação operacional.
Em abril de 2024, a empresa tentou um último suspiro, com uma Recuperação Extrajudicial (RE) para renegociar R$ 4,1 bilhões em dívidas, principalmente com Bradesco e Banco do Brasil. O acordo deu fôlego ao empurrar R$ 4,3 bilhões em pagamentos para depois de 2027, mas não resolveu o problema estrutural: a dívida seguia lá e a operação continuava inviável.
O verdadeiro “endgame” veio em agosto de 2025 e não foi liderado pela família fundadora, mas por uma execução fria de mercado. O credor, cansado de esperar, decidiu virar dono.
A engenharia da tomada de controle
Em 7 de agosto de 2025, um fato relevante sacudiu o mercado, embora já fosse esperado nos bastidores. A Mapa Capital, via subsidiária Domus VII Participações S.A., anunciou a conversão de cerca de R$ 1,4 bilhão em debêntures da 10ª emissão de ações ordinárias.
O efeito foi imediato. Com uma única canetada, a Domus VII/Mapa Capital assumiu o controle da Casas Bahia, passando a deter 85,5% do capital social. O Conselho de Administração homologou um aumento de capital de R$ 1,648 bilhão e os acionistas que apostavam na virada, incluindo a família Klein, foram massivamente diluídos.
Para a companhia, a manobra foi a única salvação real. Eliminou R$ 1,4 bilhão do passivo e gerou economia imediata de, no mínimo, R$ 230 milhões por ano em juros.
Para a Mapa, foi a execução perfeita da tese de investir em empresas altamente alavancadas, tomar o controle e liderar a reestruturação visando ganho de valor no longo prazo. O credor não queria mais juros, queria a empresa.
O novo dono e a limpeza da governança
Com 85,5% das ações em mãos, a Mapa Capital não perdeu tempo. A primeira medida de qualquer novo controlador é sempre a mesma: tomar o poder de fato, limpando a governança antiga e instalando seus próprios nomes.
Imediatamente, a gestora convocou uma Assembleia Geral Extraordinária (AGE). A pauta era redesenhar o board. A proposta elevava o Conselho de Administração de cinco para sete membros, com três cadeiras destinadas a indicados da nova controladora.
A velha guarda do varejo, que comandou a derrocada, estava de saída. Começava a era do varejo administrado pelo financista, não mais pelo varejista.
A tese do turnaround
A pergunta que movimentou a Faria Lima foi simples: por que a Mapa Capital quis assumir 85,5% de uma empresa que havia reportado R$ 555 milhões de prejuízo em um único trimestre? A resposta está na diferença entre o resultado operacional e o financeiro.
A Casas Bahia era operacionalmente viável, mas financeiramente quebrada. Enquanto os juros, despesa financeira líquida de R$ 1,1 bilhão, destruíam o lucro líquido, o “chão de loja” mostrava sinais de recuperação. Os números divulgados em maio de 2025, referentes ao 1T25, reforçaram isso: o EBITDA ajustado avançou 47,3% ano contra ano, totalizando R$ 570 milhões; a margem EBITDA ajustada subiu 2,1 p.p., para 8,2% e a a margem bruta avançou 0,2 p.p.
A equipe liderada por Renato Franklin fazia o turnaround operacional, com fechamento de lojas deficitárias, melhora de precificação, corte de custos e ganho de rentabilidade. A virada acontecia na operação, mas morria na linha financeira.
A Mapa não comprou uma empresa quebrada, comprou uma operação em recuperação soterrada por um balanço destruído e destravou esse potencial ao converter dívida em equity.
A segunda vida
A “segunda vida” da Casas Bahia será bem diferente da primeira. O movimento da Mapa Capital é de longo prazo e a diluição dos acionistas antigos foi o preço pela sobrevivência.
O ícone do crediário brasileiro, símbolo do carnê da classe C, não pertence mais à família fundadora nem a investidores de varejo. Agora é um distressed asset clássico da Faria Lima, controlado por um fundo especializado em reestruturações profundas.
A nova gestão assume o board com um mandato de disciplina operacional, CAPEX contido e uso rigoroso do caixa para liquidar o restante da dívida. A aposta é que, com o balanço finalmente equacionado, a melhora do EBITDA, que já ocorria, se converta, enfim, em lucro.