Três engenheiros mineiros entenderam que o futuro cabia em um trator no fim da década de 1940. Os irmãos Gabriel e Roberto Andrade e o amigo Flávio Gutierrez fundaram uma construtora que começou pequena em Belo Horizonte, mas ambiciosa. Canalizar uma rua da cidade parecia um projeto modesto para a primeira obra, o suficiente, no entanto, para colocar o nome da empresa em circulação e dar início a uma história na infraestrutura brasileira décadas depois.
A ascensão coincidiu com o Brasil de Juscelino Kubitschek e o lema “cinquenta anos em cinco”. A Andrade Gutierrez aproveitou o boom de rodovias e obras grandiosas, construindo as estradas São Paulo-Curitiba, a Rio-Bahia e a Castelo Branco. Depois, vieram o metrô de São Paulo, a hidrelétrica de Itaipu, a internacionalização em solo africano e a eleição de “Empresa do Ano” pela revista Exame. O nome, que nasceu em uma garagem, agora aparecia em aeroportos internacionais, no metrô de Lisboa e, nos anos 2010, nas obras da Copa do Mundo e das Olimpíadas, ambas no Brasil.
A construtora que erguia estádios e usinas, porém, passaria a ser lembrada por outro tipo de palco, mais precisamente nos tribunais da Lava Jato. A operação, que durou de 2014 a 2021, revelou esquemas de cartel, propina e corrupção em contratos com a Petrobras e em grandes obras de infraestrutura. Executivos foram presos, o presidente da empresa foi condenado e a companhia assinou acordos de leniência que a obrigaram a devolver bilhões de reais ao Estado. Por alguns anos, a máquina de erguer pontes e hidrelétricas virou sinônimo de escândalo.
Dez anos depois da operação, o que resta de um gigante quando o chão some sob os pés? No caso da Andrade Gutierrez, restou o nome, uma reputação ainda em jogo e uma estratégia de sobrevivência que mistura cortes, desinvestimentos e a promessa de voltar a crescer.
O império das obras

A trajetória da Andrade Gutierrez resume um Brasil em concreto armado. Da canalização de ruas em Belo Horizonte às rodovias que cortam o território nacional, passando pela grandiosidade de Itaipu e pela internacionalização no Congo, a empresa tem a engenharia pesada como marca registrada.
Ao longo de sete décadas, acumulou um portfólio impressionante dentro e fora do Brasil, como a reurbanização do Vale do Anhangabaú, aeroportos em Confins, Quito e Nassau, o metrô de Lisboa, a hidrelétrica de Belo Monte, além de uma lista de estádios que incluía o Maracanã e a Arena da Amazônia. Em cada década, a Andrade Gutierrez pareceu cravar a marca em pelo menos uma obra de grande porte no país.
Apesar de ser uma construtora de rodovias, a diversificação ocorreu naturalmente, tornando-se holding com braços em energia, saneamento e telecomunicações. Entrou em setores estratégicos, assumiu riscos em concessões e também disputou espaço com gigantes internacionais. No fim dos anos 2000, a companhia era um conglomerado capaz de influenciar políticas públicas e até sustentar campanhas eleitorais.
Lava Jato: a implosão

O ciclo de expansão terminou em 2014, quando a Lava Jato revelou o que todos suspeitavam, mas ninguém queria dizer em voz alta: a engenharia brasileira era uma engenharia da propina. A Andrade Gutierrez foi acusada de fraudar licitações, participar de cartéis e repassar recursos a políticos.
As delações citaram contratos com a Petrobras, repasses por meio de empresas de fachada e irregularidades em obras icônicas, como a Arena da Amazônia. O então presidente Otávio Marques de Azevedo e outros executivos foram presos. O nome, que antes ilustrava anúncios de inauguração, virou manchete policial.
Em 2016, a empresa firmou acordo de leniência com o Ministério Público, comprometendo-se a devolver R$ 1 bilhão. Em 2018, assinou outro com a Advocacia-Geral da União (AGU) e a Controladoria-Geral da União (CGU), no valor de R$ 1,49 bilhão. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) também entrou em cena investigando os cartéis. A cada documento assinado, a Andrade Gutierrez ganhava tempo para respirar.
A sobrevivência exigiu medidas drásticas, como a venda de ativos estratégicos, redução de 30% do quadro de funcionários e saída da disputa de grandes obras públicas que a haviam consagrado anteriormente. Diferentemente da Odebrecht, que tentou se reinventar pós-Lava Jato com novo nome, a Andrade Gutierrez optou por manter o mesmo.
A reconstrução
Entre 2016 e 2020, o objetivo era apenas seguir viva. O portfólio encolheu, os canteiros de obra se tornaram mais raros e a construtora teve de aprender a viver com a desconfiança do mercado. A cada licitação e negociação pesava o estigma e a lembrança dos escândalos.
Neste período, a Andrade Gutierrez vendeu participações na CCR, na Cemig, na Light, na Oi e na Santo Antônio Energia. Dessa forma, arrecadou bilhões para reduzir dívidas e cumprir os acordos de leniência. Era um castigo, através de cortes e desinvestimentos, de um gigante acostumado a erguer concreto que se viu obrigado a desmontar-se para não desmoronar de vez.
Mesmo uma década depois da Lava Jato, a Andrade Gutierrez segue como uma das maiores empreiteiras do país, atrás apenas da Odebrecht. O faturamento de 2023, por exemplo, chegou a R$ 3,3 bilhões, com uma carteira de contratos privados de R$ 10 bilhões. A companhia se reinventou como maior construtora de parques solares do Brasil e assumiu obras como as termelétricas do Porto do Açu, no Rio de Janeiro, considerado o maior complexo de usinas a gás natural da América Latina, com investimento de R$ 10 bilhões até 2025.
Atualmente, a AG é responsável pela construção de aproximadamente 6.000 MW de energia das mais variadas fontes, entre 2.400 MW de energia solar, 423MW de energia eólica, e 3.100 MW de usinas termelétricas (as duas maiores da América Latina). Nos últimos três anos, a empresa entregou mais de 2,2 mil km de linhas de transmissão e seis grandes subestações de energia.
Em 2024, a empreiteira bateu recorde de volume contratado, alcançando R$ 19 bilhões, quase o dobro do ano anterior. A diferença é que, agora, a carteira é formada basicamente por clientes privados. O futuro parece estar atrelado a concessões, embora a empresa ainda não tenha ativos concretos sob análise.
O fato é que o cenário dos investimentos privados em infraestrutura na última década no Brasil somaram R$ 197 bilhões em 2024, uma alta de 35%, favorecendo a estratégia atual da Andrade Gutierrez. Além disso, desde julho de 2024, a empresa está reabilitada para prestar serviços para a Petrobras. Mesmo assim, a companhia que antes ditava o ritmo das grandes obras estatais, agora espera na fila como mais uma concorrente.