A Máquina de comprar da Advent: o manual de bolso de um dos fundos mais influentes do país

Uma das gestoras de private equity mais tradicionais em operação no Brasil, a Advent International mantém, há quase três décadas, uma relação de aposta persistente no país. Mesmo diante dos cenários macroeconômicos e do avanço das plataformas de apostas digitais, que vêm afetando o consumo das classes mais baixas, justamente nas quais a Advent concentra boa parte do portfólio, o fundo continua otimista. A convicção é na qualidade de determinados setores que seguem com bom desempenho mesmo diante das crises cíclicas.

No Brasil desde 1997, a Advent já aportou recursos em negócios tão diversos, como na Yduqs, voltada à educação, na fabricante de tubos e conexões Tigre e no Grupo CRM, dono da Kopenhagen e da Brasil Cacau, vendido à Nestlé em 2023. Em regra, a atuação é setorial, buscando serviços financeiros, de saúde e educação, de consumo e varejo, de indústria e tecnologia. Até meados de 2024, dos cerca de U$ 90 bilhões de capital global sob gestão, aproximadamente US$ 8 bilhões foram destinados à América Latina e entre 50% e 60% desse montante ficou no Brasil.

A lógica que guia a operação é a internacionalização e o crescimento acelerado. A rede suíça Dufry, presente em 150 países, por exemplo, foi impulsionada pela Advent a partir de uma série de aquisições. O mesmo ocorreu com a Tigre, que ganhou espaço na Europa e nos Estados Unidos. O que a gestora coloca em prática é um tipo particular de private equity, forma de investimento que envolve a compra de participação acionária em empresas que estão fora da bolsa de valores e visa o lucro na venda. Para isso, combina um manual de procedimentos que combina disciplina financeira, método de gestão e uma dose de ousadia.

O Manual da Advent

O modelo de atuação da Advent pode ser lido como um manual bem detalhado. O primeiro passo é a formação de um núcleo de executivos veteranos, os chamados operating partners. Eles atuam como gestores de carreira, que acompanham a empresa desde a análise até a execução do plano de negócios, assumindo funções próximas às de donos. Essa presença garante que o fundo vá além do capital investido, transferindo conhecimento e método de gestão para cada companhia adquirida.

Antes de pensar em expansão, a gestora olha primeiro para dentro, extraindo valor das operações existentes. Em 2018, quando assumiu o Big, ex-Walmart Brasil, por exemplo, reformou cerca de 100 das 387 lojas, converteu parte delas em atacarejo, ampliou em 35% o estoque e ajustou o mix de acordo com as preferências regionais. O resultado foi um aumento superior a 20% nas vendas das unidades reformadas.

A abertura de novas lojas sempre está no radar, mas precisa obedecer a critérios rigorosos, como mostrar resultados em até seis meses e se pagar em no máximo quatro anos. A rede de materiais de construção Quero-Quero cumpriu a meta em dois anos e meio, já o Big foi em três anos e meio. Cada investimento deve ter horizonte de retorno claro, nada de projetos que se arrastam de forma indefinida.

Mais do que abrir lojas com alto potencial de vendas, o importante é que elas tragam retorno rápido. O mesmo raciocínio vale para o capital de giro. No Big, a redução de estoque liberou R$ 1,5 bilhão sem deixar prateleiras vazias, transformando mercadorias paradas em caixa disponível para reinvestir.

Outro ponto-chave do manual é a liderança, na qual cada caso pede uma decisão sob medida. Na Kopenhagen, a Advent manteve Renata Moraes Vichi no comando, convencida de que a permanência dela era vital para a estratégia da marca. No Big, preferiu a ruptura, com apenas uma permanência dentre os 12 diretores. Com o novo comando, Luiz Fazzio foi o escolhido para impor um choque cultural e operacional.

A escolha dos ativos também segue uma lógica própria. Ao contrário do mito de que fundos de private equity prosperam em empresas em crise, a Advent busca companhias saudáveis, com crescimento anual de 20% a 30%. A expectativa é que esse ritmo possa chegar a 50% ou até 70% sob a gestão dela. Exemplos como Kopenhagen, Fortbras e Allied mostram como a aposta em negócios sólidos pode multiplicar o valor investido.

Nem sempre, porém, o manual funciona. A Restoque, dona de marcas como Le Lis Blanc e Dudalina, enfrentou problemas internos e externos a partir de 2015. Afundada em dívidas de R$ 1,4 bilhão, entrou em recuperação extrajudicial. A Advent, que tinha posse de menos de 15% da empresa, viu a estratégia desmoronar. O episódio foi um lembrete de que o fundo é disciplinado, mas sujeito também a fracassos.

Big: o Walmart que virou Carrefour

Um dos casos mais emblemáticos da gestora no Brasil foi a compra do Walmart, em 2018. O acordo foi costurado sem que a Advent desembolsasse recursos no começo, mas com o compromisso de investir R$ 2 bilhões até 2021. Desse total, R$ 1,6 bilhão acabou aplicado, garantindo 80% de participação, depois ajustada para 74% com a conversão de dívida feita pelo grupo americano.

No caminho, houve ainda a venda de imóveis por R$ 800 milhões, o que elevou a avaliação do negócio para R$ 8,3 bilhões. Em apenas dois anos e meio, o valor do Big, nome assumido pela rede, saltou de R$ 2 bilhões para R$ 7,5 bilhões, multiplicando por quatro o capital investido.

Em 2021, ocorreu a venda ao Carrefour. O grupo francês levou 387 lojas e uma carteira de 38 propriedades avaliadas em mais de R$ 7 bilhões. A transação foi estruturada em 70% em dinheiro e 30% em ações, resultando em 5,6% de participação conjunta para Advent e Walmart na operação brasileira do Carrefour. A aquisição consolidou a liderança do grupo francês no varejo nacional, com faturamento acima de R$ 100 bilhões, e projetou um planejamento econômico com R$ 1,7 bilhão em Ebitda anual.

Portfólio vasto

O case do Walmart não foi um caso isolado. Até 2024, a Advent construiu no Brasil um portfólio extenso e variado. Na educação, aportou R$ 1 bilhão na Inspira Rede de Educadores, dona de mais de 100 escolas com faturamento bilionário, e já havia adquirido a Faculdade da Serra Gaúcha anos antes.

No setor de cosméticos, comprou a Skala e promoveu a fusão com a marca vegana Lola From Rio, formando um grupo de cuidados pessoais. Na indústria, adquiriu 25% do Grupo Tigre, referência em soluções para construção e saneamento. No turismo, tornou-se sócia da Cataratas do Iguaçu S.A., responsável por operações em parques nacionais e atrações como AquaRio e Pão de Açúcar. No setor químico, juntou-se à GTM para comprar a quantiQ, criando a maior distribuidora independente da América Latina.

No varejo, além do Walmart, comprou a rede Quero-Quero, especializada em material de construção. Investiu também em empresas como Allied (distribuição de tecnologia), International Meal Company (holding de restaurantes), Dudalina, Cetip, Paraná Banco, Kroton e o Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP).

O padrão da Advent se repete com aquisição de companhias consolidadas, gestão ativa para ampliar eficiência e expansão, e, por fim, a saída estratégica, seja por meio de IPOs, passando a ter papéis negociados em bolsas de valores, seja por vendas para grandes grupos internacionais.

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