A Guinada de Zuckerberg

Depois de queimar mais de US$ 60 bilhões no metaverso, a Meta mudou de rota, cortou custos e apostou quase tudo na inteligência artificial para recuperar valor de mercado.

Em outubro de 2021, o mundo da tecnologia parou para ouvir Mark Zuckerberg. Em uma apresentação com ambição futurista, o fundador do Facebook anunciou que sua empresa passaria a se chamar Meta Platforms. A mudança não era mera estética, era uma declaração de guerra. Zuckerberg prometeu que o “metaverso” seria o sucessor da internet móvel, um universo virtual onde um bilhão de pessoas trabalhariam, jogariam e comprariam. Para mostrar convicção, ele abriu os cofres. A divisão encarregada desse futuro, a Reality Labs, receberia um cheque em branco de US$ 10 bilhões por ano.

O discurso de Zuckerberg, porém, mudou drasticamente em 2024. Nos encontros com investidores, a palavra “metaverso” deu lugar a termos como “inteligência artificial”, “eficiência” e “modelos generativos”.

O que ocorreu entre o entusiasmo inicial e o silêncio constrangedor é uma das histórias corporativas mais fascinantes da década recente. A Meta não apenas queimou bilhões em uma aposta que o público e o mercado ignorou, como quase perdeu o bonde da verdadeira revolução tecnológica: a da IA generativa. Essa é a crônica de como a empresa precisou executar um cavalo de pau estratégico para preservar o valor de mercado e garantir o futuro.

O buraco de mais de US$ 60 bilhões

Para entender a dimensão da aposta, vale olhar os números. A divisão Reality Labs já acumula perdas operacionais de mais de US$ 60 bilhões desde que o segmento passou a ser contabilizado, em 2021.

Entre hardware, os óculos Quest, aquisições de estúdios de games e o desenvolvimento da plataforma social Horizon Worlds, os recursos foram despejados sem retorno visível. Resultado: em 2024, a Reality Labs reportou um prejuízo operacional de cerca de US$ 4,97 bilhões no quarto trimestre.

O produto não entregou. A Horizon Worlds virou piada, com avatares sem pernas e gráficos que remetiam a games de duas décadas atrás. Documentos vazados indicavam que mal conseguia reter 200 mil usuários mensais, uma fração quase simbólica para uma empresa acostumada a lidar com bilhões de acessos. Internamente, havia quem quase não o utilizasse.

Enquanto a Meta insistia em vender terrenos virtuais, o mercado real punia a empresa. Em 2022, as ações derreteram mais de 70%, apagando centenas de bilhões de dólares em valor de mercado e alarmando investidores como Brad Gerstner, da Altimeter Capital, que chegou a pedir publicamente que Zuckerberg contivesse os gastos desenfreados.

IA virou prioridade

A salvação veio da concorrência, de onde ninguém esperava. O lançamento do ChatGPT, da OpenAI, no final de 2022, chocou o Vale do Silício e deixou claro que o futuro imediato não estava em óculos de realidade virtual, mas em modelos de linguagem capazes de gerar texto, código e imagens.

Zuckerberg, conhecido por sua capacidade de adaptação ou por sua disposição em copiar ideias rivais, reagiu rápido. Em 2023, declarou o “Ano da Eficiência”: demitiu mais de 20 mil funcionários e redirecionou recursos massivamente para a IA.

Embora a Meta não tenha abandonado oficialmente o metaverso e Zuckerberg ainda se refira a ele como aposta de longo prazo, o foco foi reorientado. A empresa entrou na corrida da IA com estratégia agressiva: resolveu abrir seu modelo de linguagem LLaMA, liberando-o para pesquisadores e desenvolvedores, em uma tentativa clara de tornar a tecnologia mais acessível e competitiva frente a rivais como Google e OpenAI.

De óculos VR a data centers e GPUs

Se antes o dinheiro jorrava para Reality Labs, agora vai para infraestrutura de IA: data centers, GPUs poderosas e sistemas de IA embarcada. A meta deixou de ser a criação de mundos virtuais e passou a ser a integração de assistentes inteligentes em seus produtos já consolidados, como WhatsApp, Instagram e Facebook, com o objetivo de aumentar a retenção de usuários e a eficiência dos anúncios, o verdadeiro motor de lucro da empresa.

Atualmente, a Meta vive uma dualidade. O metaverso continua lá, queimando caixa discretamente no fundo, como uma aposta para um futuro incerto. A Meta, como gigante de IA e da publicidade digital, que o mercado precifica hoje. Suas ações bateram recordes históricos, mostrando que Wall Street está pronta para perdoar erros caros desde que o CEO saiba a hora certa de mudar de rota.

A guinada da Meta deixa clara uma lição para o mundo da tecnologia. A visão de longo prazo é importante, mas a capacidade de sobreviver ao presente, adaptando-se às mudanças, é talvez o maior ativo de um gigante.

Zuckerberg pode ter errado o timing do metaverso, mas a agilidade em abraçar a inteligência artificial talvez tenha salvado o império de cair no limbo da obsolescência.

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