A Guerra dos Sofás

Um dossiê com 41 mil e-mails e dívidas de quase R$ 700 milhões expõem a implosão de governança por trás do império Tok&Stok, fundado nos anos 1970 e hoje afundado em litígios e disputas.

A Tok&Stok, marca que moldou o design para a classe média-alta, hoje é palco de uma das brigas mais sujas na bolsa brasileira. Depois da fusão com a Mobly, em 2024, nasceu o Grupo Toky (ticker MBLY3), mas os resultados foram desastrosos, com prejuízo de R$ 169 milhões no ano, segundo relatório da própria empresa.

Enquanto isso, a dívida aumenta. Estimativas citadas no processo falam em níveis próximos a R$ 700 milhões. O valor de mercado, por sua vez, despencou para algo entre R$ 100 milhões e R$ 140 milhões, de acordo com apurações do mercado.

Nesse cenário desolador, os fundadores Régis e Ghislaine Dubrule, junto a Paul Jean Marie Dubrule, viram uma oportunidade de retomar o controle. Em fevereiro de 2025, apresentaram uma OPA hostil para adquirir até 100% das ações ao valor simbólico de R$ 0,68 por ação, um deságio de 51% em relação ao preço do dia anterior.

Para viabilizar a oferta, os Dubrule prometeram injetar R$ 100 milhões de capital e converter mais R$ 125 milhões de créditos que detinham contra a empresa. Mas um dossiê com aproximadamente 41 mil e-mails, trocados pelos Dubrule, revelou supostos acordos paralelos com os controladores alemães e desencadeou uma guerra aberta.

O império falido e a OPA hostil

A crise começou quando a gestora SPX, que controlava a Tok&Stok, vendeu a empresa em 2024 para a Mobly, controlada pelo grupo alemão Home24/XXXLutz, criando o Grupo Toky. A fusão deveria criar sinergias, mas a empresa combinada continuou a queimar caixa.

Em fevereiro de 2025, a família Dubrule, que fundou a Tok&Stok em 1975 e havia perdido o controle para fundos, viu a oportunidade de ouro. Com a empresa valendo uma fração de sua dívida, lançaram uma OPA hostil para comprar 100% das ações.

O preço ofertado chocou a Faria Lima: R$ 0,68 por ação. O valor representava um desconto de 51% sobre o preço de tela do dia anterior. Era uma oferta a “preço de sucata”, como classificaram os conselheiros, para tomar o controle da empresa no bico do corvo. Os Dubrule prometeram capitalizar a empresa com R$ 100 milhões e converter outros R$ 125 milhões em créditos que tinham contra a companhia.

O dossiê de 41 mil e-mails

A administração do Grupo Toky, liderada pelos ex-executivos da Mobly, rejeitou a oferta como “inviável”. Foi então que algo explosivo emergiu. Na unificação dos servidores de e-mail da Mobly e da Tok&Stok, a nova gestão teve acesso a um arquivo com cerca de 41 mil mensagens trocadas pelos Dubrule. Segundo relatos, os e-mails revelavam “negociações paralelas” entre os fundadores e os alemães da Home24, acionistas do Grupo Toky, com participação de 44,4%.

A acusação por parte da gestão da Toky foi grave. A tese é de que os Dubrule teriam combinado com a Home24 de que os alemães dariam apoio para a OPA, e, depois, os Dubrule comprariam as ações dos alemães para permitir a saída destes do negócio. Com base nessas mensagens, a administração da Toky levou o caso à Comissão de Valores Mobiliário (CVM), acusando os fundadores de manipulação de mercado e uso de informação privilegiada.

A defesa: o jogo da “poison pill”

A OPA proposta pelos Dubrule tinha uma condição: a retirada da cláusula de poison pill do estatuto da companhia. Essa cláusula obriga que qualquer acionista que ultrapasse 20% do capital lance uma OPA por um preço “justo”, protegendo os minoritários. Os alemães da Home24, os principais acionistas, pediram a votação para derrubá-la, o que, para a diretoria da Toky, seria a prova do conluio.

Começou, então, uma disputa feroz por procurações. A administração da Toky mobilizou acionistas minoritários, argumentando que a oferta de R$ 0,68 era predatória e venceu. Em 30 de abril de 2025, a assembleia de acionistas rejeitou a proposta de retirada da poison pill.

O surrender dos fundadores

Essa votação foi o xeque-mate. Sem a remoção da poison pill, a OPA simplesmente se tornou inviável. Em 12 de maio de 2025, a família Dubrule enviou uma carta ao mercado anunciando formalmente a retirada da oferta.

Na carta, os Dubrule culparam as “medidas temerárias adotadas pelos administradores” da Toky, mas, para o mercado, era uma rendição. O que começou como uma ofensiva para retomar o controle virou um recuo forçado.

O legado da guerra dos sofás

A “guerra dos sofás” terminou com a Tok&Stok no chão, não apenas como imagem, mas como caso prático de governança corporativa falha. A empresa, que já foi um símbolo de design aspiracional, agora é estudada como exemplo de destruição de valor, com dívida muito maior que seu valor de mercado, fundadores e controladores em batalha judicial e um caixa drenado por litígios.

No mundo dos negócios, nem mesmo os fundadores têm imunidade. Neste caso, os Dubrule descobriram que revisitar o passado pode custar muito mais do que ganhar o presente.

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