A Guerra do Papel: Os Bastidores da Disputa Bilionária entre J&F e Paper Excellence pela Eldorado

Sete anos depois da venda, a disputa que segue como uma das maiores batalhas societárias do país ganha mais um capítulo, agora internacional.

SÃO PAULO — O que começou como uma transação bilionária para consolidar um novo gigante global da celulose transformou-se em uma das mais longas e tensas batalhas societárias do capitalismo brasileiro. De um lado, a J&F, holding da família Batista, controladora da JBS. Do outro, a asiática Paper Excellence, ligada à família Widjaja, do conglomerado indonésio Sinar Mas. No centro, a Eldorado Brasil, uma das maiores fabricantes de celulose do país.

O impasse já dura mais de sete anos e envolve uma sucessão de arbitragens, decisões judiciais, acusações de quebra de contrato, manipulação de dados, pressão política e até uma audiência de conciliação no STF. A operação, que parecia resolvida em 2017 com a venda de 100% da Eldorado por R$15 bilhões, virou uma guerra aberta.

Ontem, essa história ganhou um novo capítulo que reacendeu a temperatura do litígio. A Paper Excellence entrou com um processo contra os irmãos Batista na Justiça dos Estados Unidos, alegando que a J&F teria cometido fraude na negociação de venda da companhia. A ofensiva jurídica americana amplia o raio de conflito e pode reabrir discussões sobre responsabilidade pessoal dos controladores da J&F — algo que até aqui não havia sido judicializado diretamente fora do país.

A Venda que Nunca se Completou

O início da briga remonta a setembro de 2017. Pressionada por acordos de leniência bilionários e investigações da Lava Jato, a J&F decidiu vender ativos para levantar caixa e reduzir riscos. A holding iniciou uma liquidação de ativos importantes como Alpargatas e Vigor. A Eldorado, considerada uma joia do portfólio por seu parque industrial moderno e grande base florestal no Mato Grosso do Sul, também foi colocada a venda.

A chilena Arauco parecia perto de fechar o negócio por R$ 14 bilhões, mas, em setembro de 2017, a Paper Excellence apresentou uma oferta de R$ 15 bilhões e levou o ativo. O contrato foi estruturado em duas etapas: num primeiro momento, a Paper aportaria R$ 3,8 bilhões e assumiria 49,41% da Eldorado. O restante, os 50,59% ainda nas mãos dos Batista, seria transferido até setembro de 2018 — desde que a Paper substituísse as garantias bancárias que a J&F deu como avalista de dívidas da Eldorado.

Era o tipo de cláusula que só pareceria banal se não houvesse uma valorização vertiginosa da celulose no meio do caminho.

As garantias, a valorização e o impasse

Poucos meses após o acordo, os preços da celulose dispararam no mercado internacional. A J&F viu no timing da operação uma armadilha. O ativo se valorizava e o contrato a obrigava a entregar o controle sem ajuste de preço. Segundo a Paper, foi neste contexto que os Batista passaram a dificultar a liberação das garantias.

A J&F alegava que a Paper estava protelando a substituição das garantias. A Paper, por sua vez, acusava os Batista de criar obstáculos para adiar a transferência do controle e forçar uma renegociação em valores mais altos. Em agosto de 2018, a Papper acusou representantes da J&F de dizer, em reunião nos Estados Unidos, que aceitariam seguir com a venda, desde que a Paper pagasse um valor adicional de R$ 6 bilhões.

Sem acordo, a J&F declarou a extinção do contrato poucos dias antes do prazo final. A justificativa oficial foi o não cumprimento de uma condição precedente: a substituição das garantias. A Paper respondeu com uma arbitragem na Câmara de Comércio Internacional (CCI), acusando a sócia de má-fé. Estava dado o pontapé inicial para uma batalha que se estende há quase uma década — e está longe de terminar.

Arbitragens, e-mails hackeados e ameaças

Em 2021, a CCI deu ganho de causa à Paper. A corte arbitral concluiu que a J&F violou o contrato ao dificultar a liberação das garantias com o objetivo de impedir a transferência do controle. A sentença determinou que as ações restantes fossem depositadas em juízo, autorizando a Paper a pagar pelos 50,59% restantes.

A decisão, que parecia dar fim à disputa, apenas aprofundou o conflito. A J&F entrou com um pedido de anulação da arbitragem no TJ-SP. Paralelamente, levou a disputa ao Supremo, com base na lei que regula a aquisição de terras por estrangeiros. No campo jurídico, a estratégia dos Batista passou a ser dupla: desacreditar a arbitragem e judicializar o próprio contrato com base em impedimentos legais para a transferência de terras.

No meio tempo, o litígio ganhou contornos ainda mais dramáticos. A J&F acusou a Paper de hackear e-mails de seus executivos — acusação investigada e arquivada. Processou o presidente da companhia no Brasil por danos morais e saiu condenada. E, em setembro de 2023, dois dos árbitros do tribunal — incluindo o presidente renunciaram ao caso, alegando “ameaças frontais” vindas da holding dos Batista.

A ofensiva jurídica dos Batista

Com a arbitragem resolvida, mas ainda travada judicialmente, a J&F começou a desenhar uma nova frente de batalha. Paralelamente, uma denúncia anônima foi enviada ao Incra, que abriu um processo administrativo alegando que a venda da Eldorado violaria a legislação brasileira sobre compra de imóveis rurais por empresas com capital estrangeiro  (a Lei nº 5.709/1971 limita a aquisição de terras por estrangeiros ou empresas controladas por estrangeiros a no máximo 25% da área de um município, com exigência de aprovação do Congresso em casos maiores). O argumento ganhou força quando o ex-prefeito de Chapecó, Luciano Buligon, entrou com uma ação popular no TRF-4, sustentando que a operação só poderia ocorrer com aprovação do Congresso Nacional.

O TRF-4 acolheu o pedido e concedeu uma liminar que, desde então, impede a transferência das ações de controle. A Paper sustenta que sua intenção é adquirir a operação industrial, e não as terras em si e se comprometeu a se desfazer das propriedades rurais assim que assumir a empresa. Mas, na ausência de uma jurisprudência clara sobre o tema, o Judiciário hesita. O Supremo ainda não julgou a ADPF movida pela Sociedade Rural Brasileira em 2015, que questiona a constitucionalidade da equiparação entre empresas brasileiras com capital estrangeiro e empresas estrangeiras.

É essa indefinição que trava a conclusão da operação até hoje.

Cade, Incra e o enfraquecimento da Paper

Enquanto os Batista lutavam para anular a arbitragem e travar o contrato na Justiça, a Paper perdia espaço dentro da própria Eldorado. Em novembro de 2024, o Incra concluiu o processo administrativo reafirmando que a venda exigia aprovação legislativa. Dias depois, o Cade suspendeu os direitos políticos da Paper na companhia, acatando denúncia da J&F por supostas práticas anticompetitivas.

Na prática, a companhia asiática — que já não controlava a Eldorado — ficou sem voz. Impedida de votar em assembleias ou participar de decisões, perdeu inclusive o direito de veto previsto no acordo de acionistas. Mesmo dona de quase metade da empresa, a Paper passou a ser tratada como minoritária sem influência.

A J&F, por outro lado, manteve o controle, mas com ativos travados em juízo, uma arbitragem vencida contra si, e um contrato ainda vigente sob disputa. O resultado é uma empresa congelada: lucrativa, com boas perspectivas operacionais, mas com sua governança institucionalizada em conflito.

Novo ataque e futuro incerto

Em 2025, a disputa ganhou contornos internacionais ainda maiores. A Paper ingressou com um processo contra os irmãos Batista na Justiça dos Estados Unidos, acusando os controladores da J&F de fraude na condução da venda. Foi a primeira vez que a holding asiática direcionou a ofensiva para as pessoas físicas dos sócios — um movimento que pode abrir nova frente de desgaste reputacional e ampliar o alcance jurídico do conflito.

Com a arbitragem ainda em fase de definição de valores, as ações bloqueadas e a liminar do TRF-4 em vigor, qualquer tentativa de conclusão da venda segue paralisada. O STF convocou uma audiência de conciliação, mas até agora não houve avanço prático. O tempo, que já corroeu o valor do ativo e embaralhou o cenário jurídico, segue sendo o maior inimigo dos dois lados.

O que está em jogo

Mais do que os R$ 15 bilhões da transação, o que está em jogo é o controle de um dos maiores ativos privados da cadeia de celulose no Brasil. A Eldorado possui uma planta de última geração, acesso logístico competitivo, base florestal consolidada e capacidade de crescimento. Para a Paper, é a porta de entrada definitiva no Brasil, com sinergias em escala global. Para a J&F, representa uma das últimas grandes joias da coroa — e uma moeda de poder.

A disputa também virou símbolo da fragilidade do ambiente regulatório brasileiro. A indefinição sobre regras de propriedade rural por estrangeiros, somada à multiplicidade de instâncias e à interferência judicial em contratos privados, afugenta investidores e prolonga conflitos.

Se há um consenso entre executivos, juristas e reguladores que acompanham o caso, é este: a disputa já durou demais. E, quanto mais se estende, mais valor destrói. Não apenas para J&F e Paper, mas para a Eldorado — e para o país.