Houve um tempo no qual as escolas de elite no Brasil eram obras de educadores idealistas ou congregações religiosas focadas no legado e na formação. Esse tempo acabou. A nova geração de proprietários das instituições mais prestigiadas do país já não debate apenas currículo ou filosofia de ensino. Eles discutem EBITDA, CAC (Custo de Aquisição de Clientes) e estratégias financeiras como Sale & Leaseback.
O setor de educação básica premium, conhecido internacionalmente como K-12, vive a maior onda de consolidação. Diferentemente das universidades, muitas compradas por gigantes de capital aberto na década anterior, o jogo agora é outra conversa. Fundos de Private Equity e grupos internacionais perceberam que uma escola classe A não é apenas um serviço, mas sim uma assinatura de longo prazo com um cliente que tem aversão quase irracional à ideia de cancelar o contrato.
Quem são os novos donos do recreio?
As escolas ultratradicionais e internacionais “raiz”, como St. Paul’s e Graded, continuam, em sua maioria, como fundações sem fins lucrativos ou associações de pais, blindadas do assédio do mercado. O alvo dos investidores, porém, são as escolas de excelência privadas, familiares e bilíngues que praticam mensalidades na casa dos R$ 3 mil a R$ 8 mil em grande parte do país ou muito mais nas metrópoles.
Entre os movimentos mais emblemáticos está a entrada de capital bilionário na rede Inspira. Em 2024, um aporte de R$ 1 bilhão liderado pela gestora global Advent International, com participação de fundos ligados ao BTG Pactual, marcou um ponto de inflexão: não era dinheiro para pintar quadras, mas para comprar concorrentes e expandir a plataforma de escolas.
No plano nacional, o antigo Eleva Educação, hoje Grupo Salta Educação, tornou-se uma potência de fusões e aquisições, comprando escolas tradicionais como o Colégio Ábaco, em São Paulo, e redes regionais de destaque. Esse movimento representa uma verdadeira industrialização da gestão educacional em escala nacional. Recentemente, esse grupo foi vendido por aproximadamente R$ 5,8 bilhões a um consórcio liderado por Opportunity Asset Management e Gera Capital, consolidando sua importância no setor.
Há também a chamada holding boutique, com a tese de “artesanato em escala”. A Bahema, agora rebatizada de Bioma Educação, adquiriu ícones do quilate intelectual como a Escola da Vila (SP) e a Escola Parque (RJ), mantendo uma aura de exclusividade mesmo sob gestão profissional.
No plano internacional, o grupo britânico Inspired Education Group tem aprofundado sua presença no Brasil. Em uma operação emblemática, adquiriu as operações premium da Eleva Global Schools, integrando marcas como Gurilândia e Batutinhas ao seu portfólio global.
Por que pagar tão caro por uma escola?
O que leva fundos acostumados a apostar em tecnologia ou varejo a investir pesado em colégios? A resposta o LTV (Lifetime Value).
No varejo, é preciso convencer o cliente a voltar mês após mês. Na escola, uma vez que a criança entra aos 3 anos, a inércia trabalha a favor do dono. O custo emocional e social de transferir um filho de escola, interrompendo amizades e rotina, é altíssimo. O resultado é uma receita recorrente, quase previsível, com reajustes que muitas vezes superam a inflação oficial (IPCA) ao longo de 15 anos ou mais de contrato.
Além disso, fundos conseguem ganhos de eficiência ao consolidar operações. Comprando várias escolas, concentram funções de RH, financeiro e TI na matriz, deixando a gestão pedagógica local focada em receber e ensinar os alunos.
O pulo do gato: vender o prédio para alugar
A engenharia financeira não para na mensalidade. Um dos movimentos mais astutos desses grupos é separar a operação didática do ativo imobiliário. A estratégia, conhecida como Sale & Leaseback, consiste em vender o imóvel da escola para um fundo imobiliário (FII) e alugá-lo de volta imediatamente.
Esse modelo tem sido aplicado em diversas operações: grupos educacionais vendem seus prédios a fundos como o TRXF11, que adquire imóveis ocupados por escolas como as do antigo Eleva, enquanto instituições como a Bioma levantam centenas de milhões de reais vendendo imóveis de unidades emblemáticas, como a Escola Parque, para reinvestir em expansão ou desalavancar balanços. Para investidores imobiliários, contratos de aluguel longos, geralmente de 10 a 20 anos, com inquilinos considerados de baixo risco tornam-se um ativo com receita previsível.
A inflação da elite: o teto de R$ 15 mil
Essa profissionalização tem um preço, que aparece no boleto. A consolidação cria um vácuo no mercado. No topo da pirâmide, escolas internacionais como a Avenues – The World School, em São Paulo, praticam mensalidades que podem ultrapassar R$ 15 mil por mês, com custos totais que, ao longo de toda a jornada escolar, podem somar mais de R$ 2,8 milhões entre mensalidades, matrículas e taxas.
Abaixo desse topo, a classe média alta tem visto mensalidades de escolas bilíngues dispararem de cerca de R$ 3 mil para R$ 6 mil ou R$ 7 mil em poucos anos, de acordo com levantamentos regionais e nacionais. Com o controle financeiro nas mãos de fundos que buscam retorno sobre capital investido (ROIC), a margem para negociação ou incentivo à inadimplência praticamente desapareceu.
Para a Faria Lima e seus equivalentes globais, a educação básica virou o ativo defensivo perfeito, resiliente a crises, indexado à inflação e com uma base de clientes notoriamente fiel (ainda que por falta de opção). Para os pais, resta a conta dessa “indústria de príncipes” que, cada vez mais, é gerida com a frieza de um banco de investimento.