A Jogada de Mestre que Construiu o Império de Luiz Frias: Folha, UOL, PagSeguro

SÃO PAULO — Nos anos 1990, enquanto a maioria dos conglomerados de mídia ainda dependia do papel e da publicidade tradicional, um herdeiro da imprensa paulista estava prestes a fazer uma das apostas mais ousadas da história do setor no Brasil. Luiz Frias, então um nome discreto nos negócios, viu o futuro antes da maioria e decidiu que o Grupo Folha não apenas sobreviveria à revolução digital — mas se tornaria um dos maiores impérios do setor.

A criação do UOL, em 1996, foi o primeiro passo dessa transformação. O portal não só colocou a Folha de S.Paulo na vanguarda da internet, mas também se tornou o maior provedor de internet do país. No entanto, a jogada mais surpreendente viria anos depois: a entrada do grupo no setor financeiro com o PagSeguro, revolucionando os pagamentos digitais e bancarizando milhões de brasileiros.

Hoje, a empresa que um dia viveu do papel movimenta quase R$ 1 trilhão por ano em transações financeiras, tem capital aberto na Bolsa de Nova York e se tornou uma gigante do setor de tecnologia e serviços financeiros. Como Luiz Frias conseguiu essa façanha? A história de sua transformação é uma das mais impressionantes do capitalismo brasileiro.

O Contexto

Revista Imprensa, Ano 9, Nº 104, Maio De 1996

Nos anos 1990, o Grupo Folha era um dos conglomerados de mídia mais tradicionais e respeitados do Brasil. A principal publicação do grupo era a Folha de S.Paulo, um dos jornais de maior circulação no país, com uma tiragem superior a 600 mil exemplares dia.

Naquela época, as receitas do grupo, que em 1995, chegaram a R$640 milhões, vinham principalmente de assinaturas e vendas avulsas de seus jornais, além de um robusto portfólio de anunciantes que confiavam na ampla circulação e no prestígio das publicações do grupo. O modelo de negócios era similar ao de outras empresas de mídia da época, altamente dependente da impressão e da publicidade.

comando do grupo estava nas mãos de Luiz Frias, que trouxe uma visão moderna e estratégica ao negócio. Formado em Economia pela USP e com especialização em Harvard, Luiz se integrou ao Grupo Folha nos anos 1980, trabalhando ao lado de seu pai, Octavio Frias de Oliveira, o presidente do conglomerado.

Ao longo dessa década, Luiz foi ganhando mais responsabilidades e aprimorando a gestão financeira e administrativa do grupo. Com uma visão voltada para o futuro, ele já considerava que o setor de mídia enfrentaria transformações com a criação da internet.

UOL (Universo Online)

Site UOL 15 de agosto de 1996

Foi nesse contexto que Luiz Frias decidiu dar um passo ousado e criar um braço digital para o Grupo Folha. Com a crescente popularidade da internet, ele entendeu que o público procuraria cada vez mais por informações e serviços online. Essa visão levou à criação do UOL, o Universo Online, em 1996, uma das primeiras plataformas de internet do Brasil e da América Latina.

O UOL foi criado para ser um portal completo, que não só publicaria as notícias da Folha, mas que também integraria uma variedade de serviços digitais, como hospedagem de sites, bate-papo, serviços de e-mail e fóruns de discussão. A ambição de Frias era clara: transformar o UOL em um hub central de informações e serviços digitais, que fosse muito além de um simples braço online da Folha de S.Paulo. Ele queria criar um ambiente onde os usuários encontrassem tudo o que precisassem na internet, de notícias a entretenimento, passando por ferramentas essenciais para navegar no novo mundo digital.

Essa estratégia foi ousada para a época, especialmente porque o mercado de internet ainda estava em fase inicial e pouco explorado, o Google nem se quer existia. Contudo, ao apostar no UOL, Luiz Frias criou as bases para transformar o Grupo Folha em um conglomerado digital e financeiro. Em vez de seguir a abordagem conservadora de muitos concorrentes, que viam a internet como uma simples extensão da mídia impressa, Frias deu início a uma das maiores transformações empresariais do setor de comunicação no Brasil.

Crescimento Agressivo do UOL

Desde o seu lançamento, o UOL adotou uma estratégia de crescimento agressivo. Frias sabia que, para consolidar a plataforma no mercado, era essencial ter a maior base de usuários possível em um período curto. Para isso, ele comprou diversos provedores regionais menores e ofereceu uma série de serviços que iam além do conteúdo noticioso. Na prática, isso significava capturar tanto o público que procurava entretenimento e informação quanto o público que queria utilizar a internet como ferramenta de comunicação e negócios.

Com a expansão do UOL, Frias agregava valor ao Grupo Folha. Em um mercado onde a pirataria de conteúdo era um grande problema, ele inovou ao criar um modelo de assinatura diversificado, incluindo serviços exclusivos e diferenciados, como e-mails corporativos, ferramentas de busca e armazenamento em nuvem. Esses serviços fidelizaram o público e garantiram um fluxo de receita consistente, mitigando os riscos associados ao mercado digital. Em 2001, o UOL já contava com mais de 1 milhão de assinantes e tinha receitas de R$361 milhões, representando um crescimento de 70% em relação ao ano anterior. 

Investimento em Conteúdo e Aquisições

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Para sustentar esse crescimento, Luiz Frias sabia que o UOL precisava continuar se reinventando. O portal começou a investir em parcerias com grandes veículos e provedores de conteúdo, ampliando sua oferta de notícias, entretenimento e informações variadas. Isso incluía desde colaborações com empresas internacionais até acordos com criadores de conteúdo local, o que fez do UOL um espaço que atraía públicos de diferentes perfis.

Além das parcerias, a empresa também adquiriu empresas e serviços que complementavam sua estrutura. Uma das principais aquisições foi o BOL (Brasil Online), uma plataforma de e-mails gratuita que rapidamente se tornou uma das maiores do país.

Ao longo dos anos 2000, o UOL continuou sua trajetória de expansão. Em 2002, a empresa já havia alcançado 2 milhões de assinantes, se tornando o principal portal do país. Os números de crescimento refletiam o sucesso da estratégia de Frias. Até 2006, o UOL já registrava mais de 12 milhões de visitantes únicos por mês, uma marca impressionante, ainda mais considerando que ‘apenas’ 16 milhões de residências tinham acesso a internet no Brasil, o que o mantinha como líder absoluto no mercado digital brasileiro. O faturamento também acompanhava essa expansão, com receitas que, em 2006, superavam os R$600 milhões.

PagSeguro: Uma Revolução no Mercado de Pagamentos

Após consolidar o UOL como uma potência digital no Brasil, Luiz Frias identificou outra oportunidade estratégica para o Grupo Folha: os pagamentos digitais. Em meados dos anos 2000, o comércio eletrônico brasileiro estava em plena ascensão, mas faltavam soluções acessíveis e seguras para processar transações. Esse mercado era dominado por instituições bancárias tradicionais, com altas taxas e processos burocráticos que tornavam o acesso difícil para pequenos e médios empreendedores.

Foi nesse cenário que, em 2007, o UOL adquiriu a BRPay, uma startup brasileira de pagamentos online fundada no ano anterior. O valor da transação não foi divulgado, mas a aquisição marcou a entrada oficial do Grupo Folha no setor financeiro digital. Em julho de 2007, a BRPay foi relançada sob o nome PagSeguro, com a missão de democratizar o acesso aos pagamentos digitais e simplificar a vida de milhões de comerciantes e consumidores.

O PagSeguro foi lançado com uma proposta disruptiva para a época: permitir que empresas de todos os tamanhos aceitassem pagamentos via cartões de crédito, débito e boletos bancários de forma prática e sem a necessidade de intermediários bancários tradicionais. Frias sabia que oferecer uma solução flexível e de baixo custo seria o diferencial necessário para conquistar o mercado. Em pouco tempo, o PagSeguro tornou-se uma alternativa atraente para comerciantes que buscavam entrar no mundo digital sem as complicações das grandes operadoras de pagamentos.

Expansão

Para expandir rapidamente, o PagSeguro apostou em uma estratégia agressiva, similar à que havia dado certo com o UOL. Inicialmente focado no comércio eletrônico, a empresa logo diversificou seus serviços para atender a uma base mais ampla de clientes. Em 2013, o PagSeguro lançou uma inovação que mudaria o setor: seu primeiro leitor de cartões de crédito e débito, uma maquininha portátil que se conectava ao celular, a “Moderninha”. Essa solução trouxe um novo patamar de acessibilidade ao mercado de pagamentos, permitindo que micro e pequenos empreendedores, como vendedores ambulantes e prestadores de serviços, aceitassem cartões sem precisar de contratos complexos com instituições financeiras.

A receptividade foi imediata: em poucos meses, milhares de empreendedores aderiram ao modelo de pagamento móvel, e a base de clientes do PagSeguro cresceu exponencialmente. Com as maquininhas, o PagSeguro rompeu a barreira de acesso ao crédito para pequenos comerciantes, que, antes, lidavam majoritariamente com dinheiro vivo devido à falta de opções acessíveis.

Crescimento e Impacto no Setor

O impacto da expansão do PagSeguro foi acompanhado pelos números. Em 2016, a empresa já faturava R$1,8 bilhão, com um volume de transações superior a R$40 bilhões. O sucesso não passou despercebido, e o PagSeguro logo se consolidou como uma das principais fintechs do Brasil, oferecendo uma alternativa de baixo custo em um mercado antes monopolizado por grandes bancos e bandeiras de cartões.

O modelo inclusivo e flexível do PagSeguro impulsionou o crescimento do e-commerce e ampliando a penetração de serviços financeiros digitais. A visão de Luiz Frias transformou a empresa em um pilar de apoio ao empreendedorismo brasileiro, com um crescimento que só aumentaria.

IPO na Bolsa de Valores de Nova York

Em janeiro de 2018, o PagSeguro deu um passo gigante para aumentar sua presença no mercado mundial ao realizar sua oferta pública inicial de ações (IPO) na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE). Essa abertura de capital foi histórica para a empresa e para o mercado financeiro brasileiro, já que foi uma das maiores ofertas de uma fintech brasileira nos Estados Unidos, arrecadando cerca de US$2,3 bilhões. Com uma avaliação de mercado de aproximadamente US$9 bilhões.

O capital levantado no IPO foi um combustível essencial para acelerar os planos de crescimento. Frias e sua equipe direcionaram esses recursos para expandir ainda mais a infraestrutura e os serviços, aumentar a presença de suas maquininhas de cartão no mercado e investir em tecnologia para aprimorar a experiência dos clientes. Essa injeção de capital também abriu caminho para novos produtos que impulsionariam ainda mais a diversificação dos negócios.

PagBank: A Transformação em uma Instituição Financeira Completa

Com o sucesso nos pagamentos digitais, o PagSeguro vislumbrou uma nova oportunidade: oferecer um serviço bancário completo para seus clientes. Em 2019, a empresa lançou o PagBank, uma conta digital que ampliou significativamente o portfólio de serviços oferecidos. Essa conta permitia aos clientes do PagSeguro, principalmente pequenos empreendedores e autônomos, realizar todas as operações financeiras de um banco tradicional, mas com a conveniência e as taxas competitivas de uma fintech.

Esse movimento estratégico permitiu que o PagSeguro alcançasse um novo patamar de crescimento. Em 2023, a empresa reportou um faturamento de R$16 bilhões e um lucro líquido de R$1,8 bilhão. No que diz respeito ao volume de transações financeiras, o PagBank processou aproximadamente R$ 950 bilhões ao longo do ano.