Como a Cosan perdeu R$12 bilhões na Vale?

SÃO PAULO — Nos corredores do mercado financeiro brasileiro, a notícia de que a Cosan vendeu sua participação na Vale por R$9 bilhões em janeiro de 2025 chamou atenção de analistas e investidores. Não apenas pelo montante arrecadado, mas pelo fato de a transação ter gerado um prejuízo bilionário à Cosan, que dois anos antes havia desembolsado aproximadamente R$22 bilhões para adquirir cerca de 4,9% das ações da mineradora — a operação, financiada com dívidas vultosas, prometia diversificar o portfólio da companhia e aproveitar os lucros consistentes da mineradora.

No entanto, menos de três anos depois, o cenário mudou.

O que levou uma das maiores empresas do país, comandada pelo bilionário Rubens Ometto, a entrar e sair tão rapidamente de um investimento estratégico?

Por que a Cosan Comprou a Vale?

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Em outubro de 2022, a Cosan surpreendeu o mercado ao anunciar a compra de 4,9% das ações da Vale, uma transação avaliada em aproximadamente R$22 bilhões. A Vale, a maior exportadora de minério de ferro do mundo, registrara um lucro líquido recorde de R$ 121 bilhões em 2021, beneficiando-se da alta nos preços das commodities durante a recuperação econômica pós-pandemia, especialmente na China. À Cosan, a transação oferecia um duplo benefício: acesso a dividendos consistentes e uma oportunidade de se posicionar em um setor estratégico para a economia global.

Para financiar o negócio, a Cosan garantiu empréstimos com o Itaú e o Bradesco, no valor de R$4 bilhões cada. Além disso, deu como garantia os dividendos futuros de suas subsidiárias Compass e Raízen, duas de suas operações mais lucrativas. Na época, o endividamento líquido do grupo subiu de R$15 bilhões para R$23 bilhões, elevando a alavancagem financeira da companhia de 2,5 para 4 vezes o EBITDA, um patamar considerado alto para seus padrões históricos.

“A Vale era uma oportunidade única. Trata-se de um ativo de classe mundial, com papel estratégico na economia global, especialmente na transição energética”, afirmou Rubens Ometto na ocasião. A aquisição também foi uma aposta no crescimento da demanda por níquel, usado na produção de baterias para veículos elétricos.

O Que Deu Errado?

Embora o racional estratégico parecesse sólido, os desafios começaram a surgir pouco depois da compra. O principal fator foi a desaceleração da economia chinesa, que respondeu por cerca de 60% da demanda global de minério de ferro. O setor imobiliário, que tradicionalmente consome grandes volumes de aço, enfrentou uma crise sem precedentes na China, com gigantes como Evergrande e Country Garden à beira da falência. Esses problemas pressionaram os preços do minério, que caíram de cerca de US$210 por tonelada em 2021 para menos de US$100 em 2024.

Além disso, o cenário macroeconômico no Brasil também não colaborou. A Selic, que estava em 7,75% no início de 2022, chegou a 13,75% no final do ano, aumentando significativamente os custos de financiamento. As despesas financeiras da Cosan cresceram exponencialmente, impactando diretamente seu fluxo de caixa e limitando sua capacidade de investir em outras áreas estratégicas.

“Em um ambiente de juros altos e menor demanda global por minério, o custo de oportunidade desse capital se tornou insustentável”, explicou um analista do setor.

A Decisão de Vender

Em janeiro de 2025, a Cosan anunciou a venda de sua participação na Vale por cerca de R$9 bilhões. O mercado reagiu em parte de forma positiva à notícia, já que a operação foi vista como um passo necessário para a empresa fortalecer sua estrutura de capital e reduzir seu endividamento.

Os recursos provenientes da venda foram usados principalmente para abater dívidas. A dívida líquida da Cosan caiu de R$23 bilhões para cerca de R$14 bilhões, uma redução de 40%. Essa medida aliviou parte da pressão financeira sobre o grupo, permitindo maior flexibilidade para alocar capital em seus negócios principais, como energia e logística.

Em nota, Rubens Ometto justificou a decisão com base no cenário macroeconômico. “Sempre acreditei no Brasil e por isso invisto aqui. A Vale é um ativo extraordinário e confio muito na nova gestão. Entretanto, o patamar atual da taxa de juros nos obriga a reduzir a alavancagem da Cosan”, afirmou.

Ometto também destacou o pragmatismo como fator decisivo. “Na minha trajetória de empreendedor, fui ficando mais pragmático. Já passei por muito e aprendi que o foco deve ser na disciplina financeira para podermos continuar crescendo”, disse.

Reação do Mercado

A decisão de desinvestir foi recebida de maneira mista. Enquanto alguns analistas elogiaram a postura pragmática da Cosan em reduzir sua exposição em um ativo volátil e priorizar a desalavancagem, outros criticaram o movimento como um erro estratégico. “A Cosan entrou em um setor onde não tinha controle operacional ou histórico. Era um movimento arriscado desde o início”, comentou um especialista do setor financeiro.

Com a venda, a Cosan reforçou seu compromisso com os setores onde possui maior expertise. A empresa já anunciou planos para expandir a capacidade de produção de etanol de segunda geração, investir na modernização de seus terminais logísticos e reforçar sua presença no mercado de energia renovável. Esses investimentos somam mais de R$6 bilhões em projetos previstos até 2027.

A experiência com a Vale, embora dolorosa em termos financeiros, serviu como um alerta para os riscos associados a movimentos de diversificação excessiva. Para a Cosan, o foco agora está em consolidar suas operações existentes e capturar oportunidades de crescimento em áreas onde possui vantagens competitivas claras.